A Solidão da Socialização


Texto: Priscilla Binato

Eu não tenho o costume de acreditar que as mídias sociais são um cataclisma da humanidade ou algo parecido, como as pessoas da geração acima da minha muitas vezes parecem acreditar. Não acreditam quando me dizem que ficar na frente do computador nos faz mais distantes com nós mesmos, que faz com que fiquemos mais apáticos e mais introvertidos. Simplesmente não acredito que funcione desse jeito. Mas isso, claro, quando as coisas são feitas na medida certa.

Então chego ao ponto que eu queria quando pensei nesse texto.

Eu comecei a assistir Black Mirror por pura e espontânea pressão. Nunca tinha pensado em assistir e muito menos que poderia ser uma série boa para mim. Pois bem, meu namorado se apaixonou pela premissa e começamos a assistir. Assim, começamos a jornada. Os primeiros episódios não nos pegaram de gancho, mas eventualmente nos vimos capturados pelas histórias e pelos questionamentos que eram trazidos pela série.

Nisso, a terceira temporada – super comentada – já tinha estreado e nos deparamos com ela para consumirmos de uma vez só. Maratona completa. Nós, o computador e os celulares. O que poderia ser um verdadeiro episódio de Black Mirror, se pensarmos direito. Ao começo da temporada nos deparamos com Nosedive e foi nesse instante que eu tive a real visão do problema que essas gerações superiores tem com a tecnologia de mídias sociais.

Dirigido pelo Joe Wright, desde o começo nós já vemos o efeito do seu olhar por conta da palheta forte de cores que emana todos os sentimentos do episódio. Rosas, azuis, tons bebês, tons simples. Tudo para dar a sensação de que este seria um episódio amável, simples, assim como Lacie (Bryce Dallas Howard) faz questão de tentar passar a imagem de ser. Ela é exatamente o que eu imagino que os que pensam que mídias sociais estão destruindo os jovens acham que somos.

Ela é viciada nas próprias mídias, no próprio score e em tudo que inclui aquela realidade. Assim como qualquer um seria em um mundo onde a sua nota pode garantir o seu emprego ou garantir um apartamento ou qualquer coisa. Quem não iria querer ter 4.5 e morar naquele apartamento dos sonhos? Quem não iria querer ter 4.8 e viver a melhor vida possível?

Durante o episódio, nós vemos Lacie sozinha em todos os momentos. Ela não tem uma relação forte com o seu irmão, ela não tem amigos no trabalho – somente os conhecidos que a julgam quando ela ajuda um outro colega -, ela come sozinha no café da manhã quando tira uma fotografia e consegue vários likes. Mas isso não importa, uma vez que ela tem uma pontuação alta.

A coisa muda de figura quando nós vemos a primeira vez que Lacie interage com uma amiga. Naomie é uma inspiração digital de Lacie. Tudo que a loira posta, ela dá 5 estrelas, ela suspira pelas belíssimas paisagens e por todas as imagens que são mostradas lá. E quando Naomie (Ney Ney) pede para ela ser uma das suas damas de honra, Lacie não poderia evitar se apaixonar pela ideia – principalmente porque era uma chance dela receber várias estrelas de pessoas muito importantes e subir ainda mais no seu ranking.

Pois bem, durante a decadência de Lacie no episódio, a única coisa que eu conseguia pensar era se ela entendia o quão sozinha estava. A única pessoa ‘real’ que ela encontra na jornada é uma caminhoneira com 1.1 de nota – e por real eu quero dizer uma pessoa que não é obcecada por esses rankings, mas que tem conexões reais – e ela dá o suporte que Lacie precisava, assim como algumas dicas importantes.

Mas será que ela entende como está sozinha? Será que ela compreende o que está acontecendo enquanto a sua nota cai cada vez mais? Naquele mundo, ninguém tem empatia por ela, ninguém se propõe a lhe ajudar (tirando a caminhoneira). Todos os seus seguidores das mídias, seus ‘amigos’, não se colocam para lhe ajudar e provavelmente lhe abandonaram assim que desceu para 3.1, assim como já tinham feito no começo do episódio.

É uma espécie de selva, onde somente o mais forte sobrevive. Só que dentro dessa selva não existem animais, mas seres humanos.

Esse insight de que isso poderia ser a maneira como os catastróficos das mídias sociais vêem que somos me deixou um pouco preocupada de como eles acham que mídias sociais funcionam. Minha mãe, por exemplo, certamente se sentiria muito inspirada em apontar esse episódio para mim e dizer que eu sou exatamente igual a Lacie. Que eu não tenho amizades reais, uma vez que elas estão todas dentro do computador. Mas a realidade é que não é assim que funciona.

A realidade é que talvez, algum dia, seja assim que venha a funcionar. Mas hoje em dia as nossas mídias digitais funcionam na base de conexões. Eu me conecto com as pessoas que estão ao meu redor – no facebook, no instagram, no whatsapp, no twitter. Quando eu faço uma postagem no facebook, eu me conecto com as pessoas que estão lendo e essas conexões são muito maiores do que as notas dadas. Talvez seja porquê nós ainda não somos números para as redes – somos pessoas. Talvez seja porquê nós ainda não avançamos o suficiente na tecnologia.

Minha falta de esperança do ser humano realmente me dá essa percepção.

Porém, a solidão das mídias sociais precisa ser algo abandonado pelas pessoas da geração acima da minha, exatamente para que consigamos continuar evoluindo para um meio mais unido. Nem eu e nem os meus amigos de internet nos tornamos apáticos uns aos outros, nós só temos outras maneiras de interagirmos, outras maneiras de nos conectarmos. E tenham certeza, apocalipticos das mídias digitais, quando nós nos encontramos a amizade é real. Nossas conversas são reais. Nossos abraços são reais.

Tanto quanto são reais as conversas, as interações, os emojis, as figurinhas, os compartilhamentos que fazemos online.

O mundo é feito de linguagens, nós só sabemos como utilizar mais delas para estarmos mais presentes.

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priscillabinato@gmail.com'

Sobre Priscilla Binato

Uma carioca de coração, 21 anos completos em janeiro e gateira como profissão (ou ao menos um sonho). Estudo jornalismo e estou quase me formando, mas tenho aspiração de escrever como profissão. Detesto sushi, pizza, Senhor dos Anéis, Game of Thrones e muita coisa que todo mundo acha legal, to nem aqui. Sou lufana de coração e de alma, 100%, além de feminista, assexual e chata do rolê.