A redoma do amor romântico e suas prisões


Texto: Lara Matos

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Um amor perfeito que chega para mudar sua vida para sempre, idílico, arrebatador, amor com todas as suas forças, com “a” maiúsculo: por isso mesmo, de enorme potencial destrutivo. Além de outras tantas, essa também é a base do livro de Meg Wolitzer, A Redoma, história de Jamaica (Jam), uma adolescente que se apaixona por Reeve, um garoto inglês intercambista em sua escola, que demonstra ter todas as qualidades que ela sonhava em um parceiro.
Entretanto, nem tudo nessa história é belo do modo como a personagem conta. Aos poucos, conforme ela vai se familiarizando com a escola para a qual não queria ir (Jam só quer sofrer no seu quarto, em silêncio, por seu amor contrariado), humanizando os personagens de sua vida, aterrizando aos poucos e superando seu luto por Reeve, percebemos o que houve de fato. Desde o início do livro, ficamos sabendo que Jam está nesta escola para superar seu pesar pelo ex-namorado; de todos os estudantes do local, ela é selecionada com mais cinco alunos para uma “aula especial”, motivo de muita curiosidade no colégio.
Esta é a aula da Sra. Quenell, Tópicos Especiais em Literatura, que no ano de Jamaica evoca a leitura de Sylvia Plath em A Redoma de Vidro, além da incursão por alguns de seus poemas, em especial A Canção de Amor da Jovem Louca, que, conforme descobrimos no final, serve de coro perfeito para a situação na qual Jam se envolveu e a levou a um esgotamento tão intenso: “Eu penso que te inventei dentro da minha mente”, diz um dos refrões do villanelle*. Acho que o livro poderia ter ido também para Daddy, outro poema de Sylvia, que descreve o sentimento geral de estar apaixonada por alguém que não nos merece, metaforizando essa agonia com a ocupação nazista, coisa de gênio, um dos muitos motivos para eu amar Plath.

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Jam em alguns momentos parece pagar um preço alto demais por suas escolhas erradas, havendo passagens em que tive muita pena dela, bem como senti uma empatia profunda. A crueldade encarada por ela em junção ao luto não seriam fáceis em momento algum da vida. Experiência própria. Tive um relacionamento semelhante ao de Jam e também me “enlutei” por não conseguir aceitar que não morria apenas a pessoa que tanto tinha querido, morria também o sentimento que eu tinha na minha cabeça. A morte de uma ideia romântica, quando a pessoa amada não pode sequer ter para nós “uma existência de fantasma”, como diz Bioy Casares, é uma condenação muito pesada porque não há conforto possível, tudo foi destruído. O desamparo e abandono de Jam, depois de certo ponto da narrativa, tornam-se compreensíveis se vistos desse ponto de vista.
Muitas das atitudes do namorado de Jam vêm de sua imaturidade, mas o personagem parece que não vai aprender a ser menos babaca pelas coisas que diz na discussão final, quando ocorre o desfecho do livro. Wolitzer mais uma vez acerta em não procurar escusar Reeve do seu caráter duvidoso.
A situação de Jamaica encerra bastante rejeição e confusão de uma vez para qualquer pessoa lidar, não apenas uma adolescente. Apenas quando já é tarde demais, Reeve se pronuncia com desdém e desprezo para Jamaica tentando minimizar os danos, só aumentando a mágoa da moça. É o primeiro coração partido dela, mas também é a perda daquela segurança que temos quando jovens, de que todo amor é puro e bom. Ou mesmo que todo sentimento recíproco (de atração, afinidade, etc.) pode ser chamado de amor por ambos.
É o fim da grande ilusão de Jamaica. Algo se parte dentro dela com muita força e ela não consegue lidar com tudo de uma vez, desde a ausência de Reeve até as palavras de conforto de amigos e familiares que só a faziam piorar. Quando um relacionamento termina desse modo tão traumático, a autoestima parece que esvai por um ralo, e o primeiro pensamento que temos é que nunca, nunca mais seremos amadas novamente, não por alguém tão incrível, ou que não conseguiremos ser libertos desse fantasma e nos apaixonar de novo, e o “nunca” disso tudo passa a ser uma grande promessa. Quando passei por isso, a vontade que tinha era de me exorcizar de tudo o que sentia.
Além de toda essa carga, Jamaica ainda tem que lidar não só com a rejeição, mas com os acontecimentos posteriores, que lhe causam um grande sentimento de inferioridade. Achei que a trama escorrega um pouco porque Wolitzer aposta no “só se cura um amor com outro”, que para mim não parece muito real, pois a vida me tem demonstrado que outras coisas curam um amor contrariado-precisamente, carinho, acolhimento e compreensão-até estarmos prontos para outra. Embora a reconstrução de Jam seja comunitária e de par em par com seus amigos de aula e com a colega de quarto, há momentos em que Meg foca demais no surgimento de uma nova paixão, e isso torna um pouco difícil enxergar o papel da classe de Jamaica em sua mudança, e não somente como a aula que lhe apresentará alguém novo, mas revelando um microcosmo de reconstrução.
A ilusão de que um amor, mesmo com sua dose de coisas ruins, é bom apenas porque é amor, é muito difundida com o ideal de amor romântico de hoje. Mas não é. Amor de verdade não dói e nem te exaure. E mais, como diz Valter Hugo Mãe, escritor angolano, “o amor é um problema, mas a pessoa amada deve ser uma solução”; as questões do amor sempre são problemáticas e um pouco confusas, e os conflitos em toda relação humana são naturais, mas a pessoa amada não deve nos machucar ou fazer sofrer aumentando esses medos. A harmonia deve prevalecer, bem como as coisas boas pesarem na balança dos sentimentos. Deve nos alegrar e fazer parecerem menores nesses dilemas que todos temos.
Muitas vezes, é melhor escolher não viver uma relação que desde o início demonstra que vai ser devastadora e tóxica. Por quê? Porque não somos obrigadas a “seguir o coração” se ele quiser nossa ruína. Amor não tem que ser degradante. Coisas melhores hão de vir quando se espera por um amor de verdade, justo e bondoso conosco. Mas somos a todo tempo expostos ao discurso embusteiro de que ele, o todo-poderoso amor verdadeiro, tudo vence e de que ele, o amor, esta entidade sacrossanta, pode tudo, mas esse é um amor errado. O amor existe nas pessoas e para a felicidade destas, portanto não deveria ter o poder de destruir ninguém.
Dentre as mais belas nuances do discurso do livro está a de que o amor dentro do nosso peito é puro, mas quando não vivido de modo adequado, conserva-se e renasce para quem o mereça e não nos faça amargar em sofrimento desnecessário; lembrando muito os versos de Chico Buarque; “futuros amantes, quiçá, se amarão sem saber com o amor que eu um dia deixei pra você”. E é isso mesmo, amores serão sempre amáveis desde que estejamos bem para vê-los e vivê-los.

*Villanelle é uma forma poética de 19 estrofes de cinco tercetos e um quarteto, com dois refrões, oriundo do arcadismo francês.

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carmenbavius@gmail.com'

Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de “realidade”: estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.

  • Nina

    Tenho muita curiosidade de ler A Redoma de Vidro, tanta que este livro entrou para a minha meta 2016 para o #LeiaMulheres <333