A poesia é para quê?


Ok, é verdade, eu fui uma estudante que odiava ler poemas. Não gostava de saber sobre poetas. Não achava nada bonito e emocionante aquele texto todo desfigurado, que fazia as coisas mais simples parecerem códigos indecifráveis. Fui, também, a pessoa que não quis, por um longo tempo, conhecer a poesia.

Como ler aquela linguagem? E se o que eu entender não foi o objetivo do/a escrito/a? Pior: e se eu não entender absolutamente nada e ter de fingir que entendi?

Fazer poema parecia difícil antigamente, as pessoas que o faziam se esforçavam para ter a disciplina das palavras exatas que pudessem caber nas suas métricas. Os versos brancos, mesmo que menos quadrados, ainda encontravam muitas barreiras para emocionar meu coração que se negava a encontrar beleza no gênero.

Foi na faculdade que eu me afastei das minhas opiniões adolescentes (e pré-concebidas negativamente). E a culpa é de uma amiga poeta. Conheci a Michelle C. Buss no final de 2014 e tive a oportunidade de ler sua primeira coletânea de poemas (Mosaicos, 2014). A escrita uniu algo na gente – não somente como pessoas, mas como escritoras. Ela quebrou o muro preconceituoso que eu havia construído por pura falta de referências atuais e por causa do comodismo.

Depois da Michelle, veio a Cecília Meireles. Foi o livro Vaga Música (1942) que me fez entender que como assim eu ainda não amava tudo isso? A sonoridade dos versos, assim como a atmosfera intimista e melancólica foram presentes literários que, até hoje, carrego comigo. Ainda lembro como me senti ao descobrir seus versos e quão importantes foram para a minha formação como leitora.

Atualmente, deixei de lado meu amor pela poesia nacional. Aliás, encontrar beleza na poesia é algo diário. Nas ruas, nas pessoas, nas palavras ditas ela continua existindo. A poesia não está mais resguardada nas páginas – nunca esteve, o problema é que eu ainda não tinha aprendido a lê-la. Quanta coisa a gente deixa passar por não aprender a deixar nossas emoções absorver aquilo, não é mesmo? A gente bloqueia o coração e a mente, porque nos convencemos de que não é necessário, de que é muito cansativo, de que não é pra gente. Mas é pra quem? A poesia é pra quê, se não for pra encher o coração de esperança?

Faz duas semanas que li, em uma única noite, Milk and Honey, da indiana Rupi Kaur. Já fazia meses que eu lia poemas avulsos dela em todas as redes sociais e pensava que precisava demais de um exemplar. Ele já está disponível em português no Brasil, que saiu pela Planeta dos Livros, mas acabei não gostando do título e da capa, então, comprei a versão original, em inglês, pela Amazon. As temáticas são variadas, mas têm uma espinha dorsal que conduz os quatro “capítulos” do livro. O abuso, o amor e a feminilidade são temáticas recorrentes, que ora afagam o coração e ora o esmagam. Apesar de que já ter passado da fase de não querer/conseguir emprestar livros, esse é o meu mais novo queridinho e não vou conseguir me desgarrar dele tão cedo. A capa é do tipo aveludada, então, não quero nem ver o que alguém descuidado poderia fazer nela.

Para mim, foi muito natural sair do português e migrar para o inglês. Não sou influente no idioma, mas o entendimento dos versos é tão simples e tão direto que aconteceu.

Além da Rupi, há outras poetas na língua inglesa igualmente sensacionais. A primeira é a Naayirah Waheed. Ela, no entanto, é africana. Sua poesia fala de sua nacionalidade, da mãe-África nas inúmeras maneiras que consegue e que a entende. A África pisada, saqueada, envergonhada. A África que dança, que explode de cor, que é uma comunidade. Assim como a Rupi, ela não se afasta de sua essência mulher, mas o faz de outra forma: é a partir da sutileza e dos papéis sociais que o gênero feminino desempenha. Atualmente, ela tem dois livros na Amazon: Salt (2013) e Nejma (2014). Ambos sensacionais. O diálogo dos poemas com o leitor (independentemente da nacionalidade) é algo acalentador, quase como se todos aqueles versos tivessem sido escritos por causa de mim, para mim.

A última poetada qual pre-ci-so falar é a Yrsa Daley-Ward. Ela tem um único livro na Amazon disponível: Bone (2014). Yrsa foi a responsável pelo meu primeiro contato com poemas em inglês. O modo do fazer-poesia, das temáticas e das emoções que causam é bastante semelhante às já citadas acima. Como é meio indiana e meio africana, há muitas perspectivas que transitam em seus versos. Há muito desejo de liberdade em sua literatura, quase como se quisesse desafiar o leitor a provar empiricamente sua poesia. A leveza é gigantesca, assim como os diversos baques no estômago.

Essas mulheres são as mais marcantes para mim no gênero. Foram as que me fizeram entender que poesia é tudo o que meu coração alcançar. E não importa se estou lendo em português ou em inglês. O que importa é que eu aprendi a ler poesia – de quem for. Aprendi que ela não precisa apenas falar de amor romântico – pode falar de morte, de tristeza, de relacionamentos tóxicos, de força interna, de desejos universais. A poesia conversa com a gente só se a aceitarmos como uma amiga. E, hoje, essa amiga não é somente subjetiva, mas concreta, pintada de negro, brilhante de sangue e empoderada de amor-próprio.

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Sobre Nina Spim

Escritora sonhadora dotada de blue feelings. Quer muitas coisas ao mesmo tempo. Acredita nas palavras mais do que na imagem. Não acredita na divisão das casas de Hogwarts, mas tem certeza de que é 70% Ravenclaw, 20% Hufflepuff e 10% Gryffindor.