A pipoca, a porta e o tom azul avermelhado da fofoca


Algumas situações pelas quais passamos na infância são motivo de orgulho. Aquelas recordações que começam com a expressão  “quando eu era pequeno” e que fazem você ser uma pessoa mega interessante e cheia de histórias pra contar.

Mas sobre a noite de 31 de outubro de 2003…

Essa eu sempre preferia manter em segredo absoluto, porque era a minha única memória infantil que simplesmente não tinha um final engraçado ou heroico. Nunca soube explicar pra ninguém o que tinha ocorrido… Até ontem.

Acontece que quando tinha onze anos de idade, eu era a pessoa mais curiosa do mundo. E o que mais atiçava minha curiosidade eram as besteiras que o Tio da pipoca contava para mim e para os meus amigos medrosos da rua treze, sempre quando passava pelas ruas do bairro convocando a meninada com aquele sino de estalar agudo.

Ao contrário dos meus amigos, eu sempre queria saber mais sobre aquelas histórias. E é claro que ele gostava muito de abusar da minha inocência e da criatividade natural da idade.

Como naquela vez que ele me fez acreditar que a vizinha do número oitenta era viciada em carne de gato, e por isso, frequentemente, chegava em casa trazendo nas mãos alguns gatinhos.

Mas aí eu descobri, graças a uma coincidência incrível, que ela era veterinária, e levava alguns gatos pra casa pra continuar o tratamento ou pra doa-los pra algum novo dono. Descobri isso quando eu e minha mãe levamos Dartagnan, meu gato, ao consultório de uma tal de Dra. Fernanda, a suposta vizinha comedora de gatos do oitenta“.

Mas nenhuma lenda do tio da pipoca foi tão marcante na minha vida do que  a suspeita da Oficina assombrada. Onde o ex-dono, o senhor Chico da Serra Elétrica, cortava os corpos das crianças desobedientes que ele pegava na rua ao anoitecer.

Eu sei…

Parece meio clichê de filme de terror norte-americano de quinta categoria. Mas realmente aquela oficina gigante que ficava na esquina da minha rua fazia uns barulhos muito estranhos durante algumas noites. E é evidente que minha curiosidade fez aquilo ser superinteressante.

Passamos a investigar aquela oficina. E no começo achávamos que eram apenas alguns ratos que sempre frequentam esse ambiente. Ainda mais que essa oficina tinha fechado em 2001. E ninguém ouvia falar do dono antigo. Lembro da minha mãe frisar que não me queria perto daquele galpão da oficina. Principalmente à noite.

Entretanto, a explicação dos ratos barulhentos não me bastava. Eu precisava de um motivo mais convincente.

Uma das coisas erradas que aprendi na vida desde garoto foi a arte de pular muros. Coisas de meninos malucos que corriam atrás de pipa e que não se deixavam abater por um obstáculo de concreto. E lá fui eu desafiar o pipoqueiro e desobedecer minha mãe, como era de costume.

Pular o muro foi fácil! Ainda mais depois que percebi que existiam buracos na parede que serviam de escada.

E dentro do galpão da oficina eu percebi que apesar de não estar funcionando, a oficina estava estranhamente bem conservada. Algumas marcas de graxa no chão, mas nada de muito suspeito. A não ser o barulho…

Depois de uma olhada rápida percebi que o som vinha de trás de uma porta azul com manchas vermelhas. Mas infelizmente ela estava trancada.

O barulho de coisas batendo e se arrastando no chão era cada vez mais estranho e mais alto. Ainda indeciso sobre o que faria, esperei alguns momentos atrás da porta até que ouvi um grito bem alto de alguém que parecia estar sofrendo de dor. Sem pensar, dei um grande soco na porta.

Quando esmurrei a porta, o som parou imediatamente. E depois de alguns segundos de silêncio, ouvi passos rápidos que, pelo volume crescente, pude perceber que vinham na direção da porta.

A maçaneta da porta começou a se mover…

Depois disso eu só me lembro de ter corrido como nunca corri. E apesar da minha relativa especialidade no assunto, eu nunca havia escalado um muro tão rápido quanto na saída daquela oficina que eu pensava estar abandonada.

Corri com todo o desespero pela rua escura e quase deserta sem ter a coragem de olhar pra trás, na direção da oficina. Ao chegar a casa percebi que meu coração batia tão rápido que dava pra sentir a batida olhando para o meu peito por cima da minha camiseta.

Para o meu desespero, dessa vez o pipoqueiro parecia estar certo!
O som de coisas batendo, a porta azul com marcas vermelhas de sangue e uma voz gritando de agonia!

Mas o que uma criança de onze anos poderia fazer em uma situação dessas?

De repente as lendas do pipoqueiro pararam de despertar uma curiosidade em mim. E a minha admiração por ele rapidamente foi substituída por um medo repugnante. Afinal, como ele poderia saber dessa história e não fazer nada? E, além disso, ter contado para todas as crianças da rua com um tom irônico na voz.

No ano de 2003 eu me mudei do bairro, graças às brigas do meu pai e da minha mãe, que se separaram. E mesmo triste por meus pais se separarem, me senti aliviado morando na casa da minha avó, junto com minha mãe, bem longe daquela oficina.  Desde então nunca contei esse episódio de filme de terror para ninguém. E mesmo quando visitava meu pai, eu sempre evitava olhar diretamente para aquele grande muro branco com algumas pichações do galpão da oficina.

E tudo isso mudou no dia vinte e três de setembro, quando meu pai me chamou para ajudá-lo a distribuir doces na rua treze, pelo dia de São Cosme e Damião.

Quando cheguei na rua e olhei de rabo de olho para a oficina, como sempre instintivamente fazia, percebi que o grande portão do galpão estava aberto e com faixas amarelas de interdição da polícia espalhadas pelo interior dela. Vi que finalmente a polícia havia interditado o lugar onde vários assassinatos tinham ocorrido. E apesar da culpa de não ter falado nada sobre o assunto daquela fatídica noite da minha infância, eu me senti mais feliz.

Até que chegando à casa do meu pai, resolvi comentar sobre o assunto da interdição da oficina. E para a minha surpresa, o grande trauma da minha vida se transformou na história mais engraçada que eu já tinha vivido depois do meu pai me contar o que acontecia dentro daquela oficina desde o ano em que ela fechou.

A infância nos faz fantasiar muitas coisas a respeito de nossas vidas. Toda criança passa por alguns medos que não tem explicação lógica. Desde o medo do bicho papão até o medo do escuro. Acredito que tudo isso seja pela concentração que temos em determinados fatos, fazendo com que outros passem despercebidos.

Como eu, que quando era pequeno, não percebi que por trás das histórias de um pipoqueiro existiam grandes fofocas irônicas a respeito do meu bairro, e que uma porta azul trancada pode querer dizer não perturbe. Um grito de dor pode ser confundido facilmente com um grito de prazer. E que adolescentes e jovens não são crianças e por isso não tem medo de brincar no escuro.

 

 

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Sobre David

David é um professor de História que divide a sua vida em estudo, trabalho e diversão, necessariamente nessa ordem (mentira). Curioso e admirador da cultura urbana popular. Como bom carioca, ele gosta de se misturar em todo lugar que vai.