A pedra


Texto: Amanda Tracera

“Trinta: a idade do sucesso”, já lia Jenna Rink em uma matéria da revista Poise, no filme De Repente 30. Trinta: a idade em que somos decididamente adultos; a idade-marco, o fim definitivo da jovialidade que ainda lutamos para manter. O momento em que precisamos necessariamente saber responder a todas aquelas perguntas que nos foram feitas durante a vida, e que é de se esperar que tenhamos um emprego, um lugar para viver, um relacionamento mais sério do que aquele da faculdade. Trinta é a idade em que temos que ter certeza. Trinta é o início de um gráfico novo, e nele estarão as nossas conquistas como pessoas absolutamente independentes. Trinta é um número fechado e, mais importante, é um número gigante.

Os dezoito anos são assim também. Quando nós atingimos a maior idade, as pessoas começam a esperar algumas coisas que antes não eram assim tão importantes. Por exemplo, é de se esperar que tenhamos um plano de futuro (Que curso colocar no vestibular? Que tipo de carreira queremos ter?) e que conquistemos algumas pequenas vitórias (Carteira de motorista? Título de eleitor? O primeiro emprego?). Ninguém vai ficar muito surpreso se tudo isso não acontecer imediatamente, mas as pressões ficam muito maiores quando os dezessete anos finalmente se encerram. Aos dezoito, ninguém mais nos vê como crianças – nem mesmo nossas mães. Há quem nem nos chame mais de “adolescentes”, preferindo o termo “jovens adultos”, que confere mais responsabilidade. Dezoito, assim como trinta, é um número fechado, mas não marca o início; marca o final.

Não há nada, porém, que marque o espaço entre os dezoito e os trinta anos. Nenhuma idade importante. Nenhum tipo de mudança real. Se alguém espera mais de nós aos vinte e cinco do que aos dezenove, é porque nós estamos terrivelmente mais perto dos trinta, e não porque vinte e cinco é uma idade que, sozinha, carrega significado. Essa fase, esse espaço de mentira entre dois espaços de verdade, não é título de nenhuma manchete, não é o foco de nenhuma discussão. Esses treze anos (dos 18 aos 30) são vistos como o meio do caminho, o espaço invisível entre as duas coisas que mais importam, mas eles são muito além disso – eles são o período em que tudo acontece.

E é difícil viver nessa transição, porque a gente não sabe direito como funciona o mundo, mas deveria. Até ontem à noite não entendíamos nada de contas em bancos, assinar documentos e programas de aposentadoria, mas hoje parece que todos esses assuntos são não só importantes, mas prioridade. Ninguém havia se preocupado em nos avisar sobre as grandes questões da vida adulta, mas de repente o chuveiro queima, a gente precisa comer e acabou o miojo, alguém do plano de saúde ligou e quer falar diretamente conosco sobre uns documentos que precisamos enviar agora que somos maiores de idade. Quem foi que disse que o ferro de passar roupa tem diferentes temperaturas para diferentes tecidos? Como é que funciona essa máquina de lavar? Quando a gente começou a perceber a diferença entre as marcas de detergente? Aperta esse melão pra saber se tá maduro, não compra essa batata que tá ruim, como assim agora eu sei escolher as coisas no sacolão?

E vai muito além de simplesmente não saber resolver problemas simples, que nós sempre vimos os adultos resolvendo e que nunca imaginamos que um dia seriam nossa responsabilidade. A confusão dessa fase se espalha por todos os cantos, ocupa cada espaço, faz morada em qualquer certeza mínima que pensávamos ter. Essa é a faculdade certa? É esse emprego que eu quero ter pelo resto da vida? Talvez seja melhor um concurso público, mais estabilidade. Acho que odeio tudo o que construí até agora. Ainda não construí absolutamente nada. Não sei quem eu sou, não sei o que eu quero fazer, não sei para onde eu devo ir. Estou no caminho certo? Será que todo mundo deita na cama e não sabe direito como vai acordar no dia seguinte? Será que eu sou a única pessoa solteira? Será que tem algo errado comigo? Nada vai dar certo. Eu não vou dar certo. É tarde demais pra recomeçar, mas eu não quero mais ficar onde eu estou. Etc.

fluffy pillow

Drummond tem esse poema maravilhoso sobre o qual todo mundo já ouviu falar e que diz que tinha uma pedra no meio do caminho. Embora as pessoas teimem em colocar esses treze anos de dúvidas, cobranças e aprendizados entre duas idades, eu acho mais apropriado enxergá-los como a pedra que interrompe o nosso caminhar natural. Esse espaço não é destino e não é ponto de partida, mas nós fazemos muito mais do que simplesmente atravessá-lo. É mais do que andar dos dezoito para os trinta; é escalar montanhas, descer vales, enfrentar dias quentes e noites frias; é atravessar o deserto e depois o oceano; é não ter certeza de nada quando parece que a gente deveria ter certeza de tudo; é encontrar apoio no fato de que tá todo mundo perdido junto, e, sendo assim, talvez seja mais fácil encontrar o caminho de volta.

A nossa cabeça pode mudar mil vezes nesse período, a gente pode conhecer muita gente, conquistar e perder inúmeras coisas. Pode ser que nós não estejamos estabelecidos aos trinta, ou que não tenhamos que lidar com quase nada de novo aos dezoito. Talvez os treze anos sejam sete, talvez sejam vinte. Não importa: sempre existe esse momento que é viver entre, que é ser pedra. Ele não precisa ser necessariamente ruim (e não é mesmo), mas ele vai com certeza ter muita incerteza e novidade. Nos resta falar sobre isso, abraçarmos uns aos outros, surtarmos juntos. Nos resta continuar caminhando para poder falar, aos trinta, aos quarenta, aos cinquenta: tinha treze anos no meio do caminho. No meio do caminho tinha treze anos. E depois não tinha mais.

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Sobre Amanda Tracera

Apaixonada pelo Rio de Janeiro, pela Disney, por sotaques e por material de papelaria. Antiga aspirante à jornalista, atual estudante de Letras, sem nenhuma ideia do que fazer no futuro e com um número assustador de listas, fandoms e informações inúteis nas costas.