A Nova York de Nora Ephron


É difícil pensar em Nova York como um reino mágico, como um lugar de escape da realidade. A maior cidade do mundo parece ser a metrópole mais real que existe. Mas é exatamente essa a concepção que Nora Ephron faz questão de mostrar em suas obras: Nova York como uma espécie de Nárnia, de Terra do Nunca, onde a fantasia se funde a locais reais.

Isso torna a cidade de Nova York algo além de um mero fundo para as histórias. Apresenta a cidade não mais apenas como lugar físico de nosso mundo, mas reino encantado inserido no mundo das comédias românticas. Os protagonistas não vivem uma vida baseada na realidade, mas no desejo de como essa realidade poderia ser. No Upper West Side de Ephron, os sonhos acontecem: as pessoas encontram o amor; e mesmo perdendo o que já tem, encontram outros.

Até em Sintonia do Amor (Sleepless in Seatlle, 1993), um filme que se passa em Seatle e Baltimore, Nora Ephron faz com que o clímax espelhe Tarde demais para esquecer (An Affair to Remember, 1957). É no Empire State Building que os dois protagonistas se encontram pela primeira vez, depois de passar toda duração do filme fantasiando um sobre o outro. Na Cidade de Nova York é possível não apenas esperar o amor idealizado, mas também encontrá-lo também esperando a mesma coisa.

Na obra prima de Nora, A Difícil Arte de Amar (Heartburn, 1986) – baseada em seu livro autobiográfico de mesmo nome – Nova York tem papel de destaque se tornando essa terra mágica, uma espécie de refúgio para a protagonista.

Rachel (Meryl Streep) se casa com Mark (Jack Nicholson) e muda de cidade para viver com ele. Em Washington D.C., longe da família e morando em uma casa que está constantemente em reformas, o casal acaba se distanciando. Durante a gravidez do segundo filho, Rachel descobre que Mark está tendo um caso com uma socialite conhecida da cidade. Apesar de se passar a maior parte na capital americana, é Nova York que a protagonista vê como um lugar seguro. O Upper West Side e a casa de seu pai são o lar que ela pode sempre voltar quando não tem mais para onde ir e quando Washington parece ter sugado toda a sua essência.

A Nova York de Ephron, mais especificadamente o Upper West Side de Ephron, é algo inserido nos momentos “históricos” de seus filmes. A própria cineasta toma conhecimento que suas locações podem ficar datadas. Um exemplo é a livraria Shakespeare & Co., usada como locação de Harry e Sally – Feitos Uma Para o Outro (When Harry Met Sally, 1989), que inspirou o enredo de Mensagem para Você quando o local não aguentou a concorrência da franquia Barnes and Noble e teve de fechar as portas em 1996.

Em Mensagem para Você (You’ve Got Mail, 1998), quando Kathleen (Meg Ryan) se despede da loja de sua mãe, ela monologa que alguém irá dizer que é uma ode a como a cidade está sempre mudando. Ao mesmo tempo, é sempre capaz de se escapar para essa Nova York. Nora Ephron eterniza esse Upper West Side em seus filmes, proporcionando uma visita atemporal a Shakespeare & Co. ou a padaria H&H bagels. E mesmo que alguns estabelecimentos ainda estejam de pé fisicamente – como a Zabar’s ou a famosa Katz’s Delicatessen –, não estão inseridos no tempo dessas narrativas. A experiência nova-yorquina de Ephron não pode ser vivida na vida real, só é possível assisti-la.

Talvez não exista nada de mais na Cidade de Nova York. Talvez seja como todas as outras metrópoles do mundo: lotada de gente, quente demais no verão, fria demais no inverno, perigosa demais à noite. Talvez ela tenha seus momentos surreais e mágicos. Mas é certo que a Cidade de Nova York criada por Nora Ephron é um lugar de fuga da realidade que sempre estará lá. Um lugar de escape onde o amor acontece durante outonos alaranjados no Central Park e Natais de canções tradicionais no Upper West Side. Um lugar no tempo no final dos anos 80 e 90, onde o 11 de Setembro ainda não havia acontecido e Nova York era um lugar pulsante e romântico onde se podia encontrar o amor.

Assim como as comédias românticas, a Nova York de Ephron está lá como fuga da realidade. Sabemos que ambas não são exatamente assim no mundo real. Mas é impossível não se ver enamorado, tanto pelas histórias de amor que acabam bem, quanto por essa visão romântica de uma das maiores cidades do mundo.

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Sobre M. R.

Paulista de nascimento, paulistana de alma. Já foi escoteira e já teve Orkut. Na próxima segunda começa aquele curso novo que não vai terminar. Assiste seriados. Muitos.

  • Elisa Braga

    Qd fui a NYC há uns anos, fiquei num apê no Upper West Side, e tive a sensação de realmente estar dentro de um filme da Nora Ephron. Me pareceu um lugar meio alternativo mesmo. As ruas largas e relativamente vazias, um ar de comércio local e alternativo… Muito diferente daquela NYC dos arredores da Times Square, ou centro financeiro de Wall Street, por exemplo. Acho que NY, como uma das maiores cidades do mundo, tem essa característica de ser várias cidades em uma só.

    Tem um filme com o Paul Rudd e a Amy Poehler, em inglês chama They Came Together, que é uma super paródia dos clichês de comédia romântica. Um deles é justamente esse estereótipo de que NY é praticamente um personagem da história. É bem legal, porque eles falam isso várias vezes durante o filme, inclusive no pôster do filme, eles creditam NY como se fosse um dos atores tb.