Rota de escape


Fernanda estava sentada no sofá da sala da sua casa, inquieta, olhando os minutos passarem no relógio. Ela tinha costumes e uma rotina muito restrita, não ter alguém controlando seus horários fazia uma grande diferença. Era uma nova formatação, um novo arranjo que ela ainda não tinha conseguido organizar em trilhos. Uma nova vida. Sua perna tremia, sozinha, enquanto ela olhava para os minutos passando. Eram quase seis horas da tarde e seis horas da tarde era a hora que ele sempre chegava.

Mas não hoje. Hoje Fernanda era livre. Ao menos em teoria.

Sua rotina voltava, o dia inteiro, na sua cabeça, uma memória insistente.

Ela acordava na mesma hora que ele, fazia o café da manhã enquanto ele tomava banho – torradas, café com leite, iogurte e uma fatia de mamão – e montava a mesa para que quando ele saísse tudo estivesse perfeito. Se não estivesse, logo na manhã, ela já teria problemas. Ele saia para o trabalho e ela tinha que começar a fazer o almoço e arrumar o quarto. Se não estava tudo na mais perfeita ordem quando ele chegava para o almoço, então eles iam brigar de novo. De novo porque raramente estava tudo certo, raramente estava tudo de acordo com ele.

O almoço era seu primeiro intervalo no trabalho. Ele era (ou ainda é, Fernanda não sabe) advogado e trabalhava em um lugar muito estressante. Sempre que lhe perguntava sobre o trabalho era essa a resposta que ela recebia. Se ela não perguntava, ele se incomodava, a acusava de não se interessar. Então ela sempre perguntava, mesmo que a resposta fosse a mesma. No almoço, Fernanda se esforçava para sempre fazer as comidas que ele gostava, mesmo que ela não gostasse. Afinal, ele voltava pra casa tão estressado e nervoso que precisava de um alívio. Mesmo que ela não fizesse ideia do que lhe deixava tão estressado ou nervoso.

Quando ele voltava para o trabalho durante a tarde, ela lavava a louça, passava a roupa, lavava a roupa, estendia a roupa, passava o aspirador na casa inteira e fazia todas as tarefas domésticas de que havia necessidade. A casa tinha que estar impecável sempre que ele voltava. Até porque era pra isso que ela servia ali. A única utilidade que a boneca dona de casa Fernanda tinha, como se fosse um brinquedo Mattel que ele tinha comprado. Uma nova edição de Barbie feita para limpar, cuidar, cozinhar e abrir as pernas quando ele quisesse. Isso Fernanda fazia bastante também, sempre que ele demandava. Se não era à força.

Era menos pior que fosse com a força de palavras do que com a força dos punhos.

Isso só tinha acontecido duas vezes, ela se lembrava sempre que ficava assustada. Mas eram duas vezes a mais do que jamais deveriam ter acontecido.

Mas Fernanda seguia com o seu dia e fechava a sua tarde indo ao mercado próximo do bairro. Lá ela comprava o que faltava, uma garrafa de vinho e depois voltava para casa. Seu confinamento por dentro daquelas paredes cor creme e teto branco era um aquário sem água, onde Fernanda pulava no chão à procura de ar. Na última noite dos dois juntos, ele voltou para casa muito incomodado e ela, como sempre, parou de pular. Sempre que ele estava por perto, ela sentava quieta e prendia a respiração. Querendo sumir nas paredes. Mas ele era tudo o que ela tinha, então ela não poderia.

Ele quebrou coisas e berrou bastante enquanto ela tentava entender o que tinha acontecido. Aparentemente, ele tinha perdido muito dinheiro da firma e isso não era culpa dele, mas havia uma conspiração dentro da empresa. Seu chefe estava jogando a culpa nele, seu parceiro, seus amigos que iam fumar no terraço, até ela mesma que tinha alguma culpa nisso. Ela o deixava muito nervoso, ela não fazia o que ele precisava, ela não o ajudava o suficiente, ela não deixava as coisas como eram necessárias. Fernanda, culpada, Fernanda, um problema, Fernanda filha da puta que estava destruindo a vida do único homem que já tinha tido a capacidade de olhar pra ela.

Fernanda se trancou no banheiro e ficou lá a noite inteira, enquanto ele alternava entre esmurrar a porta e quebrar coisas. Entre chorar e pedir para ela sair e gritar que era uma vadia desgraçada e que ele ia lhe matar. No dia seguinte de manhã, o despertador tocou no quarto como se nada tivesse acontecido. Ele levantou da cama e saiu de casa sem o café da manhã. Ela, afogada em um choro silencioso que tinha aprendido a fazer durante os seis anos de casamento, juntou suas coisas e bateu na casa da senhora simpática que era sua vizinha. Pediu dinheiro emprestado. A senhorinha ficou desconfiada, mas emprestou vinte reais.

Fernanda pegou um ônibus até a casa da própria mãe e agora, depois do processo delicado de divórcio e da ordem de restrição, estava inquieta. Meses se sentindo ainda um pedaço de gente, presa ainda em paredes e teto e em um relacionamento sem vida. Ele tinha finalmente assinado os papéis na última semana e ela ainda não tinha se acostumado a respirar sem sentir aquela sensação de alguém vigiando cada um dos seus movimentos. Sua mãe lhe acolheu e lhe abraçou nessa jornada, nessa nova vida que estava tentando viver. Ela raramente emitia uma opinião, mas hoje, vendo a filha tão nervosa, se ajoelhou na frente dos seus joelhos e pegou as mãos dela nas suas.

━ Fernanda é um nome de batalhadora, de uma pessoa que leva até o fim todos os desejos e que ama a liberdade. Você precisa conquistar a sua, Fernanda. ━ Foi tudo o que ela falou e tudo o que precisava falar.

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Sobre Priscilla Binato

Uma carioca de coração, 21 anos completos em janeiro e gateira como profissão (ou ao menos um sonho). Estudo jornalismo e estou quase me formando, mas tenho aspiração de escrever como profissão. Detesto sushi, pizza, Senhor dos Anéis, Game of Thrones e muita coisa que todo mundo acha legal, to nem aqui. Sou lufana de coração e de alma, 100%, além de feminista, assexual e chata do rolê.