A narrativa do silêncio de Eliza Schuyler Hamilton


Texto: Maria Raquel Silva

Musicais da Broadway tem uma difícil transição de sucesso para cair no gosto popular. Normalmente o nicho do teatro musical é pequeno e não atinge uma grande audiência a não ser a de fãs já acostumados com as narrativas. Esse não é o caso de Hamilton, Um Musical Americano (no original: Hamilton, An American Musical).

Atualmente em cartaz na Broadway, Hamilton estreou em 2015 e desde lá vem sendo um sucesso sem precedentes, com ingressos esgotados, recordes em prêmios e uma influência na cultura pop antes vista apenas por musicais já consagrados por diversos anos como Les Miserables e O Fantasma da Ópera.

O musical conta a história de um dos fundadores da nação estadunidense, Alexander Hamilton. Hamilton não foi apenas um dos fundadores dos Estados Unidos como também fundou o Banco Nacional e o sistema econômico do país, em vigor até hoje. Além das músicas na voz do personagem principal, as pessoas que se relacionaram com ele também tem sua chance de narrar sua história. Graças a Lin-Manuel Miranda que transformou a biografia de Ron Chernow em uma obra de arte, figuras históricas que normalmente não teriam a chance de contar sua visão de mundo o fazem por meio de músicas emocionantes que remetem a cartas escritas em vida por eles. George Washington, Thomas Jefferson, Aaron Burr (o algoz de Hamilton, que é também o narrador) e principalmente as irmãs Schuyler: a mais velha Angelica, a melhor amiga de Alexander, e a do meio Eliza, sua esposa.

Eliza tem apenas duas músicas próprias em todo o musical, seu ritmo destoando dos outros por ser mais melódico. Em Helpless, sua música no primeiro ato, ela conta como conheceu e se apaixonou por Hamilton por meio de sua irmã Angelica. Ali é possível ver como Eliza está totalmente a mercê daquele homem inteligente e charmoso. Hamilton tem suas partes nessa mesma música para contar sua versão dos fatos, mas em ritmo diferente de Eliza. Que a paixão é recíproca fica muito claro para qualquer ouvinte.

Alexander Hamilton era o braço direito de George Washington, o primeiro presidente americano. O que é curioso é que Hamilton nunca foi presidente, apesar de toda a narrativa do musical indicar que essa era uma grande possibilidade. O prego que fechou o caixão da corrida presidencial de Hamilton não foram as acusações de corrupção, pois essas ele conseguiu provar não serem verdadeiras, mas sim um escândalo de caso extraconjugal. Esse momento é explorado no musical tanto em Say No To This (onde Hamilton se divide entre o desejo e o erro moral da traição) quanto em The Reynolds Pamphlet. Nessa última música Hamilton publica um panfleto se defendendo das acusações de corrupção, mas apenas o consegue expondo ao público seu caso com Maria Reynolds.

A resposta de sua esposa Eliza vem na forma de Burn, onde ela queima as cartas que tinha de Alexander e decide se “apagar da narrativa”. “O mundo não tem o direito de saber o que Eliza disse” ela canta, enquanto queima suas cartas e assim se retira da narrativa de Hamilton. O que se sabe de Eliza não é através de cartas, mas apenas de seus atos e do que os outros personagens históricos falaram dela em outras cartas. Não há nenhum relato pessoal de Eliza para se basear, não há como saber o que ela sentiu, se estava humilhada, enfurecida ou triste, ao saber do caso do marido. Como ela diz, não há como Hamilton se redimir por ela.

Historicamente Eliza não queimou suas cartas logo após o incidente do Panfleto Reynolds, mas durante seus anos como viúva. Não se sabe exatamente porque ela quis apagar sua parte na história do marido ou de si própria. O que se sabe foi que Eliza Hamilton foi crucial para que Alexander não fosse totalmente apagado dos livros didáticos. Ela carregou o legado de Hamilton por mais cinquenta anos depois da morte dele, fundando um orfanato e contando a história do marido.

Minha avó costumava dizer que o silêncio diz muito, às vezes mais que palavras. No caso de Eliza, o silêncio não apenas disse tudo, como contou a história de vida de uma das maiores mulheres que já existiu nos bastidores da política democrática ocidental. Ao se excluir da narrativa de Hamilton, ao não deixar que o mundo soubesse seu lado da história, Eliza deixa para a imaginação tudo o que poderia ter dito ou feito. Seu silêncio falou mais alto e disse o que ela não conseguiu, seus atos foram maiores do que qualquer carta que poderia ter escrito.

Eliza Hamilton tem sua narrativa baseada no silêncio e mesmo assim consegue contar uma das maiores histórias do passado recente: a superação de um imigrante ao se tornar a máxima de poder americano, o braço direito do primeiro presidente da primeira colônia livre do jugo imperialista. Hamilton deve tudo ao silêncio de Eliza, assim como Miranda, que conseguiu tirar dele um dos trabalhos mais bem realizados já vistos na Broadway em todos os tempos.

 

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Sobre M. R.

Paulista de nascimento, paulistana de alma. Já foi escoteira e já teve Orkut. Na próxima segunda começa aquele curso novo que não vai terminar. Assiste seriados. Muitos.