A multiplicidade necessária de personagens bissexuais


Texto: Sofia Soter

O tema da Pólen de setembro é “invisível” e setembro é também o mês da visibilidade bissexual. No que diz respeito à representação de personagens bissexuais na ficção, nós vemos alguns padrões que se repetem, e que reproduzem percepções comuns (e errôneas/preconceituosas) sobre bissexuais: a fetichização de (principalmente mulheres) bissexuais, a ideia de que uma pessoa bissexual deixa de ser bissexual quando está em um relacionamento percebido com hétero ou em um relacionamento percebido como gay, a noção de que pessoas bissexuais são só “livres” e “jovens” e “não gostam de rótulos”, a imagem de bissexuais como “promíscuos”, mentirosos e manipuladores… Para entender melhor como isso é mostrado na ficção, categorizei alguns exemplos de personagens bissexuais em séries.

 

“SEM RÓTULOS”

 

No âmbito da ficção, em geral a colocação de que um personagem “não se rotula” vem de um medo de nomear a identidade do personagem, para que ele seja mais palatável para um olhar heteronormativo. Além disso, frequentemente vem junto com a imagem do personagem como um jovem livre que experimenta coisas novas, um hedonista que só procura prazer.

 

Na vida real muitas pessoas também não sentem que precisam se rotular, ou não encontram rótulos que funcionam para elas. E existem muitos jovens livres que experimentam coisas novas, ou hedonistas que só procuram prazer. Nenhuma dessas questões é um problema na nossa existência real no mundo: pessoas bissexuais não precisam ser modelos do que é visto, por uma lente normativa (e principalmente heteronormativa), como “comportamento correto”, e os caminhos, descobertas, personalidades e modos de existir e se relacionar, assim como as experiências e identidades, são múltiplos.

 

A questão principal, então, é como a narrativa apresenta esses personagens: as nuances, os contextos narrativos, os padrões que se repetem. Vamos a alguns exemplos:

 

As três gerações de Skins mostraram adolescentes se descobrindo e se relacionando de formas diversas. Alguns personagens, como Tony Stonem, Cassie Ainsworth, Naomi Campbell e Mini McGuiness, são mostrados se relacionando com ou se interessando por pessoas de mais de um gênero, mas suas identidades bissexuais nunca são declaradas. No entanto, no contexto de uma série que trata exatamente de explorações e descobertas e que trabalha muito aspectos de fluidez e mudança, a falta de rótulos demarcados acaba parecendo mais realista e menos forçada.

 

Por outro lado, especialmente nas primeiras temporadas de Orange is the New Black, a bissexualidade da original protagonista Piper Chapman é mostrada como um lado “aventureiro” seu, diretamente atrelada ao seu envolvimento com tráfico de drogas que a leva à prisão. Seu relacionamento com Alex Vause é contrastado ao seu casamento com Larry Bloom, como se Alex fosse a contrapartida radical, emocionante e sexy ao seu relacionamento estável e romântico. Eu abandonei OITNB na terceira temporada e, pelo que li, o relacionamento de Piper e Alex se desenvolveu por novos caminhos; no entanto, a insistência das primeiras temporadas nessa narrativa não deixa de ser uma questão incômoda.

 

“GAY FOR SWEEPS”

 

Um hábito relativamente comum de séries (principalmente americanas) é, para atrair espectadores, anunciar um episódio em que uma personagem mulher, aparentemente heterossexual, beija outra mulher, como se fosse um enorme escândalo. Esse clichê é conhecido como gay for sweeps (“sweeps week” é a semana em que, baseado nas estatísticas de espectadores de um programa, se determinam os valores das propagandas; ou seja, quando as séries precisam investir com peso em aumentar seus espectadores) – o nome em si já indica um total apagamento da bissexualidade, como se os personagens “virassem gays” temporariamente. No entanto, infelizmente, as narrativas costumam tratar como se fosse isso mesmo: muitas vezes são beijos únicos e a personagem depois continua se declarando como hétero.

 

Em The OC uma versão desse tropo acontece com Marissa Cooper e seu relacionamento com a também bissexual Alex. Entretanto, vai além: o relacionamento de Marissa e Alex se desenvolve por alguns episódios, tem momentos românticos e dramáticos como é de praxe em The OC e mesmo quando é mostrado como uma forma de “rebelião” de Marissa, isso é incluído em um contexto maior do desenvolvimento da personagem e de seus relacionamentos.

 

Gossip Girl, provavelmente ciente das preferências de seu público, fez o beijo de sua própria tentativa ser entre dois homens: Chuck Bass e um personagem secundário que se torna irrelevante no episódio seguinte. Após o beijo, Chuck diz para sua então namorada, Blair Waldorf, que já tinha estado com homens antes. Infelizmente, apesar do estabelecimento da bissexualidade de Chuck nesse episódio, ele é mostrado se relacionando com e se atraindo por mulheres, unicamente, em todos os outros episódios da série, que efetivamente ignora sua bissexualidade para colocá-lo no papel de galã sedutor e protagonista romântico (heteronormativo) da narrativa.

 

“HA HA HA, COMO BISSEXUALIDADE É ENGRAÇADO”

 

Ocasionalmente, a bissexualidade de um personagem é tratada como uma piada: sua atração por pessoas diferentes do gênero “esperado” é mencionada para que o público ria, com um pequeno grau de escândalo.

 

Um exemplo televisivo disso é Lily Aldrin, de How I Met Your Mother, cuja atração por homens (como seu marido Marshall Eriksen) e mulheres (como sua melhor amiga Robin Scherbatsky) é estabelecida repetidamente ao longo da série, mas com diferenças marcantes de como é mostrada em cada caso: seu relacionamento com Marshall, apesar de ter, claro, vários momentos cômicos (afinal, é uma série de comédia), não é visto como engraçado em si; enquanto isso, seu contínuo interesse romântico e sexual por Robin é sempre dito como uma piada, mesmo que seja sério e real para a personagem.

 

Outro exemplo interessante é Jack Harkness, personagem pansexual de Doctor Who e Torchwood: em Doctor Who, sua pansexualidade é tratada como cômica (apesar de não de forma especialmente maldosa); no entanto, em seu próprio spin-off, Torchwood, seus relacionamentos com gêneros variados são levados a sério e respeitados pela narrativa. Isso indica que é possível ver bissexualidade e pansexualidade com humor sem desrespeitar essas identidades completamente.

 

E o melhor exemplo cômico de um personagem bissexual é Darryl Whitefeather, de Crazy Ex-Girlfriend. Darryl se descobre bissexual no decorrer da série e, finalmente, declara sua identidade em uma música muito engraçada (como todas dessa comédia musical) e que ativamente desmantela mitos e preconceitos ligados à bissexualidade.

 

 

OUTRAS QUESTÕES…

 

Uma característica que talvez vocês já tenham notado nos exemplos anteriores é que a bissexualidade é frequentemente atribuída a anti-heróis ou vilões, ou no mínimo a personagens manipuladores, egoístas ou de moral “duvidosa”. Devido à repetição muito comum de personagens que são bissexuais e, de forma muito simplista, “ruins”, acaba se perpetuando o mito de que essas duas questões são relacionadas. Alguns exemplos disso (além de personagens já mencionados, como Chuck Bass e Tony Stonem): Tyrell Wellick, de Mr. Robot; Nolan Ross, de Revenge; Alison DiLaurentis, de Pretty Little Liars; Frank Underwood, de House of Cards.

 

Entretanto, eu (pessoalmente) (mas sou eu escrevendo o texto, então é isso aí) amo personagens de moral duvidosa, personagens manipuladores, personagens que são objetivamente pessoas ruins, e amo que mais personagens sejam bissexuais – portanto, sou extremamente a favor de personagens de morais terríveis e bissexuais, porque juntam características que eu adoro em personagens fictícios! É claro que existem representações mais ou menos interessantes disso: uma das melhores é Annalise Keating, de How To Get Away With Murder, que é uma mulher negra e bissexual, representatividade extremamente rara na mídia em geral. Annalise é mostrada em relacionamentos com homens e mulheres, todos tratados com peso e importância emocional e narrativa; e, apesar de Annalise ser extremamente manipuladora, a narrativa não iguala sua manipulação à sua bissexualidade, nem usa o fato de que ela é bissexual como um sinal de sua moralidade dúbia.

 

No fim das contas, como em qualquer questão de representatividade, o mais importante é que as representações sejam múltiplas e tratadas com respeito e complexidade, de forma que possam ir além de um molde único de possibilidade. Qualquer uma das “categorias” de personagens bissexuais mencionadas podem ser incluídas nas narrativas de forma nociva e preconceituosa ou de forma realista e complexa: assim como não existe uma forma única ou correta de ser bissexual, não existe uma forma única ou correta de representar personagens bissexuais.

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Sobre Sofia

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora, tradutora e editora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.