A mulher na contracultura punk: Riot Grrrl


Texto: Rúvila Avelino // Arte: Rúvila Avelino e Gabriel Pozzi

Se toda época tem seus movimentos artísticos e culturais, todas elas também encontram os seus rebeldes, que fazem algo diferente de tudo que vem sido feito. Esses movimentos em sentido oposto são chamados de contracultura. Ao longo da história, existiram inúmeros movimentos de contracultura e muitos deles cresceram, ganharam adeptos e estabeleceram-se como os moldes culturais dos tempos seguintes e tornaram-se o que é conhecido como mainstream.

A década de 1960 foi marcada por diversos aspectos políticos, econômicos e sociais complicados. O mundo estava em plena Guerra Fria, em um momento de corrida armamentista e constante tensão. O principal movimento contracultural no Estados Unidos da época foi, então, o hippie, que valorizava a paz, o amor e o final de todas essas disputas. A produção cultural durante o movimento hippie pode ser rememorada em alguns aspectos como o psicodelismo, ritmos de rock progressivo, libertação sexual, além do estilo de vestuário colorido, alegre, com roupas largas e confortáveis. Na política, além das pautas anti-militaristas, eram prezadas as questões ambientais, anticapitalistas e a nacionalistas. Religiões orientais como o budismo e hinduísmo eram bastante comuns entre os hippies.

Já na década de 1970, o cenário socioeconômico havia mudado pouco e o pessimismo era um sentimento muito comum entre os jovens, o que deu espaço para uma nova forma de contracultura: o movimento punk. Esse movimento difere muito daquele vivido na década anterior. Paz e amor foram substituídos por rebeldia e transgressão, por exemplo. A estética passou a valorizar cores escuras, roupas justas, jeans surrados, jaquetas de brechós. Cabelos curtos, espetados com gel e muitas vezes tingidos. Modificações corporais, como piercings e tatuagens. No entanto, alguns dos valores permaneceram: anticapitalismo e resistência a formas de governo opressoras. Foram conectados a outras ideologias – como o anarquismo e a luta antifacista – e ações diretas como forma de desobediência civil – com destaque para graffitis e pixações.

Punk Rock não é só para o seu namorado: garotas para frente!
A famosa frase “o punk não morreu” está completamente certa. O punk continua vivo, afastado dos holofotes que a mídia colocou nele com a ascensão de bandas como Ramones e Sex Pistols, que tiveram o suporte de grandes gravadoras e entraram para o sistema capitalista. O punk mainstream morreu, mas os ideais do punk continuam vivos em corações, bandas, garagens, bares e pequenas casas de shows alternativas. E principalmente nas mulheres.

Apesar de seu nascimento na década de 1970 e seus ideais de combate a opressão, a cena punk manteve a cultura machista e opressora com mulheres, que tinham pouca representatividade e eram relegadas ao papel de acompanhantes de homens que queriam curtir os shows e eventos. Foi somente na década de 1990 que as mulheres, cansadas do papel secundário no punk, tomaram a frente de uma cena feita por elas e para elas: o Riot Grrrl.

Iniciado na cidade de Olympia, no estado de Washington, extremo noroeste dos Estados Unidos, no seio da Universidade de artes chamada Evergreen State College, o movimento punk assumiu ideias feministas e levou o protagonismo às mulheres. O objetivo era fornecer um espaço seguro para que as mulheres pudessem expressar seus sentimentos e fazer sua arte sem ser menosprezada ou oprimida. Além disso, o espaço era ideal para promover debates, discussões e conversas entre as mulheres, que viam em suas semelhantes novas amigas e aliadas.

Não é mera coincidência que o movimento punk foi o escolhido para dar voz às mulheres. Algumas das ideias do movimento punk, como o “faça você mesmo” (ou “do it yourself” em inglês) mostram que qualquer pessoa é capaz de produzir cultura, seja montar uma banda, escrever um texto, fazer um desenho. O punk abraça todos os tipos de expressão e o importante não é estar tecnicamente bem feito, mas passar uma mensagem clara, honesta e política (feminismo também é política). Por ser um movimento que estimula a ação acima da perfeição, desviando da estética capitalista, as mulheres puderam sentir liberdade de criação, mesmo com inseguranças ou pouca preparação para tocar instrumentos ou compor uma música. O mais importante no movimento Riot Grrrl era reunir as mulheres e conversar por meio da arte.

O Riot Grrrl chegou ao Brasil por meio da banda Dominatrix, em 1995. Muito ocorreu nessas últimas duas décadas e não falta material para conhecer. Atualmente, a cidade de São Paulo é palco de diversos festivais de música e cultura punk, como o Hard Grrrls, Maria Bonita Fest e Distúrbio Feminino. São diversas as bandas que adotaram o punk e o hardcore como seu ritmo para falar de feminismo e direitos femininos.

Além da música, uma forma de produção cultural importante para o movimento Riot Grrrl foram os zines. Um zine (ou fanzine) é uma revista feita em casa, com os recursos que cada uma tinha disponível, para a publicação e distribuição de maneira independente. Os principais pontos de um zine são a livre expressão e o controle de todo o processo criativo. A autora ou o grupo de autores eram responsáveis por elaborar os textos, ilustrações, realizar a diagramação no papel, fazer cópias em xerox, grampear, vender ou distribuir nos eventos e, comumente, receber os feedbacks de leitores.

Os temas para zines são totalmente livres, assim como o seu conteúdo, e a facilidade em se produzir, usando apenas as ideias, papel e caneta, popularizou esse meio de comunicação que se tornou intenso durante o movimento Riot Grrrl e continua ativo. É uma tarefa impossível listar todos os títulos, no entanto, é possível citar alguns exemplos que foram importantes no início do movimento, como o zine Riot Grrrl, que batizou a cena, o Grrrl Germs, o Jigsaw e Bikini Kill, todos que circularam nos EUA.

(imagem: reprodução de capas de zines)

Atualmente, o Brasil conta com muitas zineras independentes, mas também há selos que reúnem materiais de artistas para uma distribuição em eventos e via correio: Druken Butterfly e Maracujá Roxa são exemplos de selos brasileiros que propagam a cultura Riot Grrrl.

O movimento Riot Grrrl é a prova de que lugar de mulher é onde ela quiser e é possível promover o empoderamento feminino por meio da produção cultural. Todo o movimento nasceu porque garotas queriam participar de uma cena cultural e não conseguiam por conta de opressão masculina, mas, unidas, conseguiram fazer algo seguro e que foi inspiração para que outras garotas em todo o mundo encontrassem seu espaço de expressão, fortalecimento e empoderamento seja em um palco, em um zine ou em uma conversa com amigas que conheceu em um evento.

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