A melhor viagem


Texto: Renan Bittencourt

Mil cenários horrorosos tinham sido estudados antes de fazer a mudança, mas aquele não era um deles. É claro que haveria coisas horrorosas a se presenciar, o universo é uma roleta-russa de pesadelos. Coisas ruins acontecem nos parques tenebrosos de Plutão, e acontecem sob a velha crosta terrestre. Muitas delas tinham sido imaginadas – exceto a que aconteceu logo depois de desembarcar no satélite da Terra.

Estava lá, esperando seu número para a inspeção migratória, namorando o planeta lá embaixo, quando viu o horror. Aquele borrão roxo que a assombrou por anos e agora passava sorrindo ao seu lado, exultante de tê-la caçado até ali. Aquela camisa de time. Aquele desenho tão vulgar, aquele imaginário dos esportes brutos que caracterizavam tão bem o seu planeta e eram febre entre os vizinhos todos. A camisa roxa. Uma bandeira. Primeiro assunto que vinha acompanhado de um sorriso quando descobriam seu orbe natal – “Ah, não acredito! Aposto que você torce pros Broncos, né?”.

Lá estava o time. Lá estava seu planeta. Lá estava um terráqueo alegre, em sua elegante altura, trajando aquele pano de trapo. Imperdoável. Ela até entenderia se fosse um dos seus, naquele corpo diminuto e musculoso para o qual a peça fora feita; mas em um humano terráqueo era imperdoável. Seu porte esguio na medida certa, seus traços suaves na medida certa, toda sua glória de raça original eram infectados pela camisa do time. Imperdoável. Terrível.

A senha chegou. Ela passou pelo posto de migração, e em pouco tempo já seguia a longa fila de embarque rumo ao antiquíssimo continente. As estrelas passavam ao longe pela janela da nave, e ela tentava fazer com que seus receios passassem junto com elas. Quando entrou na atmosfera do planeta a alma já estava limpa e despreocupada. Os olhos vorazes atacando todas as cores e linhas que só viveu virtualmente.

A Londres ancestral se aproximava.

Pousou. Saiu. Pisou. Inspirou. Os pulmões se encheram e engasgaram com a quantidade absurda de oxigênio. Antes tivesse morrido de uma vez. Talvez assim pudesse escapar do desfile de decepções que enfeitava as ruas.

Não apenas os Broncos pareciam ser um time mais popular do que esperava, mas os humanos terráqueos também deveriam ter alguma alergia à própria cultura. Tudo o que tinha raízes na Terra estava corrompido pela influência maior da galáxia. Formas, cores, cheiros, e os próprios habitantes se esforçavam em aparentar vir de qualquer canto da escuridão – menos de Londres. Menos da Terra.

Ela procurou o Big Ben – encontrou apenas a torre do relógio, anexada à monstruosidade da arquitetura saturnina mais contemporânea. Tentou comer Fish ‘n Chips, mas elas vinham com catupiry – e nem pra ser o desse sistema. Caminhou pelo Hyde Park, e teve corrompida a sensação sagrada de tocar nas raízes do planeta de origem. A grama acariciou o coração, mas os ouvidos estavam atentos demais às notas de sua casa, que um conterrâneo tirava de instrumentos ali perto, destruindo toda a experiência. Mais um atarracado como ela. Mais um que, como a camisa do time, angariava amor dos terráqueos.

Todos os sonhos foram sendo pulverizados no nascimento. Todos executados pela imensa influência do espaço infinito. Pela regra inescapável da bastardização de tudo. Não havia um átomo puro na mãe Terra que lhe pudesse dizer o que queria ouvir.

Mentira. Havia sim. Eram poucos átomos. Nem o suficiente para compor um ser humano inteiro, mas apenas o necessário para manter viva uma consciência. Um cérebro. E você poderia jantar com ele no Buckingham Museum se tivesse paciência suficiente. Ou se tivesse dado entrada na fila anos atrás, antes de deixar seu planeta natal para viver em um outro completamente diferente e no qual nunca estivera – como ela fez. Talvez, como ela, você poderia então jantar com sua última majestade, a Rainha Elizabeth II.

As íris reais, ao mesmo tempo vítreas e sagazes, poderiam te observar da cabeceira enquanto comia uma refeição antiquada e meio esquisita. Os lábios de silicone poderiam se enrugar de modo assustadoramente natural para responder à piada sem graça de outro afortunado. E mesmo assim você poderia estar completamente vazio e seco, como ela ficou o jantar inteiro.

Não importava a realeza de ter o último exemplar de humano puro em sua frente. Aquela mente era pura, sim, mas falsificada. Pele, cabelo, olhos, veias. Metais, silicones, e materiais ainda não nomeados para você e para mim. A farsa era tão descarada que as costas de Vossa Majestade davam vista para seu interior. Feita de material transparente, deixava os visitantes apreciarem a genialidade dos circuitos que salvaram Elizabeth da morte. A única terráquea imortal bombeava orgulho para os túmulos dos cientistas que a condenaram. Era dois milagres em um. Mas nenhum deles suficiente para preencher o interior já oco de nossa visitante.

Passada a sobremesa, Elizabeth se levantou e esperou que os ilustres visitantes viessem se despedir. Assim, figuras ordinárias do universo vinham lhe beijar a mão sob o falso nome de algum personagem ilustre. Lords, Ladys, Sirs, músicos, modelos, ricaços há muito passados vinham encerrar a noite de Elizabeth. A rainha não enxergava as formas, cores, e raças verdadeiras, iludida pelos circuitos – mas ainda enxergava as emoções dos convidados.

A derrotada esperou a fila acabar e cambaleou até o monstro mecânico que a aguardava sorridente. Surpresa. Foi Elizabeth quem fechou os dedos nos seus. Um lábio morno, embora seco, estalou sobre sua mão arroxeada e os olhos mortos dela ressuscitaram ao encontrarem os seus.

– Querida, sei que são tempos difíceis, mas temos que ser fortes.

– O quê?

– Não vou mentir: eu sei pelo que está passando. As línguas são afiadas, mas nós somos duras. Veja tudo o que sobrevivemos. É só mais uma batalha.

Não havia resposta. Majestade prosseguiu em sua certeza:

– Se elas acabarem, acabam as vitórias. E se existe alguém que pode vencer, querida, é você. Abra um sorriso e vamos às armas. Vamos.

O sorriso veio falso, mas agradecido.

– Muito bem.

– Boa noite, minha rainha.

– Elizabeth.

– Boa noite, Elizabeth.

– Boa noite, Charlotte. Café amanhã?

Sorriso.

– Café amanhã.

Charlotte.

Um café com a rainha.

Charlotte.

As portas de Buckingham se fecharam naquela noite, mas ela retornou na seguinte, e na próxima. Assistiu ao jantar pela vitrine do corredor dia após dia. Seu nome já estava na lista novamente. Estava um pouco mais confortável com Londres agora. A Londres de Charlotte.

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Sobre Renan Bittencourt

Aos 23 anos Renan já quis ser tenista profissional, monge cantor, e ditador prafrentex - mas decidiu escrever. Roteirista formado em Cinema, psicografa os futuros que não couberam na realidade. É aquariano, carioca, livreiro, vítima constante de crises imaginárias, e confeiteiro amador. Amante secreto de polêmicas, sua frase preferida é "Eu concordo com você, mas...".