“A Mão Esquerda da Escuridão”, Ursula K. Le Guin


Texto: Luísa Granato

Diplomacia alienígena.

Para os fãs de ficção científica, essas duas palavras já bastam. O livro A Mão Esquerda da Escuridão pode ser resumido assim e já parece incrível. Mas calma, ele pode ficar ainda melhor:

Quando viajar no espaço e encontrar outras formas inteligentes de vida não são mais possibilidades, mas realidades, o que vem depois? No futuro imaginado pela Ursula K. Le Guin, o próximo passo é criar uma grande organização interplanetária de troca cultural e comercial. Basicamente, uma ONU do espaço.

Buscando unir cada vez mais civilizações à comunidade universal, missões de pesquisa e diplomáticas são enviadas aos novos planetas descobertos.

No livro, Genly Ai já está no Planeta Inverno há alguns meses e finalmente conseguiu uma audiência com o rei para negociar que o país de Gethen faça parte do Ekumen. Fiel ao seu nome, o planeta tem o clima gélido, com um verão frio e um inverno extremo.

A sociedade que o diplomata encontra é próspera, embora ainda medieval, relativamente pacífica e com cultura e histórias ricas. Porém, o que torna Inverno singular é a biologia da sua população, única no universo conhecido: todos são andrógenos.

Na estrutura política e social do planeta, não existe diferenciação entre o feminino e o masculino, eliminando a predominância e hierarquização de um dos gêneros por suas características. Genly, porém, não consegue evitar as comparações com a sua cultura, com tentativas de interpretar os comportamentos e intenções separando os papéis do homem e da mulher.

E dentro de uma estratégia política, esse é um erro que pode custar sua missão.

Acima de tudo esse é um livro sobre entender o outro. Como é comum na ficção científica, a vida alienígena é usada como um paralelo para debater a relação da nossa sociedade com o que difere do que o coletivo aceitou como padrão.

E a Ursula K. Le Guin escreve seus personagens e conflitos de forma tão inteligente e sutil, que ela ajuda seu leitor a refletir e compreender essa questão junto com o Genly. Nas suas explorações e aventuras no novo planeta e no conhecimento progressivo dos outros personagens, ela deixa espaço para reflexões de gênero, feminismo, raça, privilégios e política.

A Ursula K. Le Guin é uma autora americana que vale a pena conhecer. Ela também escreve livros infantis e de fantasia, e, com seus 86 anos de idade, já publicou mais de 20 deles. Um documentário sobre a sua vida e obra está em produção.

A edição brasileira é incrível, feita pela editora Aleph, com a arte de capa muito linda e uma ótima tradução. E ainda tem um bônus: uma introdução da autora em que ela debate sobre o gênero e o escritor de ficção científica. Vale muito a pena também!

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Sobre Luisa Granato

Luísa é jornalista e eterna potterhead. Sua casa é a grifinória, mas ela lê como uma corvinal e podia ser a Luna Lovegood. Viajante (inclusive do espaço e do tempo), ela ama ficção científica e histórias fantásticas.