A Lenda da Metade da Laranja


Queria saber quem foi que inventou a história da metade da laranja. Isso deve ser coisa de Bela Gil. Na verdade, Bela Gil diria: você pode substituir sua metade da laranja por churrasco de melancia!

Eu toparia a experiência, mas acho que a primeira mordida do churrasco de melancia seria tão decepcionante quanto a busca pela minha alma gêmea. Essa metade é tão contada e recontada, endeusada e perpetuada, que virou lenda. Virou lenda porque apenas poucos e bons dizem que já viram, e vários acreditam de olhos fechados.

Lendas estão aí para explicar coisas inexplicáveis. De fato, uma alma gêmea é algo inexplicável. Só quem sente, sabe. De acordo com a Wikipédia, “devemos levar em conta que uma lenda não significa uma mentira, nem tão pouco uma verdade absoluta”. Partindo desse princípio, a metade da laranja seria verdade apenas para alguns, mas por via das dúvidas é bom andar de olho nas frutas que encontramos no caminho.

O chato dessa história da metade da laranja é a palavra metade. Eu não tenho nada contra laranjas, limões, melancias. Agora contra a ideia de metade, sim. Toda metade está incompleta, e ninguém gosta de se sentir incompleto.

50% de você é alguém, os outros 50% está vagando por dias, noites, open bars e Tinder em busca de 50% de outro alguém, para que, juntos, possam ser um só. Será que a vida é isso mesmo? 100 com 100 não faz 200? 200 não seria um número legal?

A lenda da metade da laranja mais parece história pra assustar menino pequeno, só que acaba assombrando gente grande. Ela está em todo lugar, nos fazendo crer em algo que não existe. Mas não é porque não existe que a gente não vá espalhar o boato que vem rendendo há tanto tempo. A história da metade da laranja é o telefone-sem-fio que deu certo, e até quem é surdo conta o que ouviu.

Já pararam pra pensar em como deve ser frustrante, para quem não gosta de laranja, ter que conviver com a procura por ½ da fruta? Quando encontrar, vai ser obrigado a engolir com casca.

Minha avó sempre gostou de fazer sucos misturados com várias frutas e legumes. Diversidade é palavra de ordem no liquidificador de casa. Por ironia do destino, a base dos sucos na maioria das vezes é a laranja: laranja com cenoura e beterraba, laranja com limão, laranja com acerola e até laranja com maçã. Desde quando eu era pequena, vovó faz esses sucos quando eu não almoço ou janto direito. Neta criada por vó tem dessas regalias refrescantes. Graças às combinações exóticas de vovó, prefiro misturas, sucos incomuns.

Laranjas existem. Laranjas cortadas ao meio também. Uma metade de nós é igual a nós pela metade. Acreditar na lenda da metade da laranja significa acreditar também que somos incompletos. Nunca vi laranja crescer pela metade.

 

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Sobre Marina Cavalcante

Marina é uma escritora de 25 anos formada em Jornalismo pela UFPB e nascida e criada em Recife, Pernambuco. Seu endereço atual é a cidade de João Pessoa, capital paraibana. Já morou em Campinas (SP) e em Melbourne, na Austrália. Planeja viver em um novo lugar no mundo que faça sentido e que não morra de frio. Brasil e Nordeste, além de origem, são identidades. Escrever é verbo presente. Quando não está escrevendo, está vivendo para escrever. Para mais de Marina, visita o blog dela: marinabrazil.com.br.