Para que vença a batalha final: a jornada do herói


Lá vai o personagem, tão destemido e cheio de qualidades, prestes a embarcar em alguma aventura cheia de grandes obstáculos, mas que no fim trará todo o aprendizado necessário para que ele se fortaleça e saia dessa história como o grande herói que sempre esteve destinado a ser. É possível que ele conte com a ajuda de alguns amigos que encontrará pelo caminho, mas é claro que somente sua força física, intelectual e de caráter poderiam vencer as provações que ele vai encarar. No final, teremos o herói em sua melhor forma.

Parece familiar? Receita de bolo que ninguém aguenta mais encontrar em nenhum livro, saga, série, filme e por aí vai? Isso é porque, segundo um estudioso chamado Joseph Campbell, essa é uma das formas mais básicas de narrativas: a jornada do herói. Ele identificou essa estrutura em diferentes narrativas da nossa sociedade, inclusive na Odisseia, que é considerada uma das bases da literatura ocidental. A jornada do herói, também conhecida como monomito, consiste em um personagem central para a história, muitas vezes caracterizado como “o escolhido” “o mais forte” “o mais corajoso”, que inicia um percurso cheio de desafios maiores do que qualquer outra pessoa seria capaz de enfrentar. Durante sua jornada, o herói encontra aliados e provações, precisa provar o seu valor e sobreviver a todos os perigos para que vença a batalha final e retorne para casa, só que dessa vez muito mais forte e como o grande herói que salvou toda sua nação, seu povo, sua comunidade.

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As histórias mais antigas onde essa estrutura pode ser reconhecida costumam tratar de uma jornada física, mas ao longo do tempo essa aventura foi abordada também como um percurso interior do personagem. Porém, sempre como um caminho da fraqueza (ou mediocridade) para a força. Por isso mesmo, a jornada do herói pode ser considerada um grande clichê e, por que não, com conotações negativas. E são vários os motivos: o herói é sempre um homem, sempre branco, sempre dentro dos padrões mais antigos de masculinidade e virilidade. Além disso, essa fórmula não abrange mitos fora dessa tradição branca e ocidental. Muitas vezes as tarefas que o herói precisa vencer são mostradas como “tentação”, geralmente caracterizada como uma mulher. Na Odisseia, por exemplo, Ulisses precisa resistir ao convite da feiticeira Circe, abandonar a ilha dela e continuar sua jornada de retorno para casa após vencer a guerra. O herói, claro, reúne toda sua força de caráter e consegue vencer as ofertas de Circe, sendo ~fiel~ à esposa Penélope. Deixemos de lado o fato de que antes ele passa algum tempo não resistindo à feiticeira porque nossa, outra época outro contexto né seja razoável. Aham.

É claro que em algum momento esse modelo clássico seria saturado. Ele foi aplicado a diversos contextos diferentes, criando histórias bastante conhecidas do público de hoje, como Star Wars e O Hobbit. É uma estrutura que guarda seu valor histórico e nos rendeu clássicos importantíssimos. Mas segue em frente, tem outras história pra contar, você diz. No entanto, não é possível ignorá-la completamente. Foi com isso em mente que muitas outras histórias bastante conhecidas foram criadas, tendo como princípio a desconstrução do herói clássico e de sua jornada. Uma delas é Jogos Vorazes. Na trilogia de Suzanne Collins estão incorporadas várias das famosas 12 etapas da jornada, com a diferença de que temos uma heroína mulher. E essa não é uma mudança pequena.

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De tentação, musa ou prêmio, a mulher passa a protagonista da história. Katniss é a única capaz de instigar a revolução necessária para Panem. Além de tudo, ela não é doce e meiga. Ela possui características que em diversos heróis clássicos foram consideradas qualidades: capacidade de controlar os sentimentos, de liderar, de colocar a batalha em primeiro lugar, em detrimento da vida amorosa. Mas por ser mulher, tudo isso gerou várias críticas. Não é possível se identificar com ela. Ela é fria. Ela é egocêntrica. Ela sabe dissimular muito bem. Bom, ninguém reclamou quando homens exatamente assim estavam salvando o dia, certo?

Outro personagem que desafia a jornada tradicional do herói é ninguém menos do que Augustus Waters, de A Culpa é das Estrelas. Ele aparece dividindo espaço com Hazel Grace. E é através da relação com ela e com a própria doença que ele faz o percurso inverso: no início do livro ele é o garoto popular, bonito, irônico e prepotente. Sim, amamos o Gus, mas ele começa a história como um menino que quer muito ser forte e ter todas as respostas. Não é à toa que ele anda por aí exibindo metáforas entre os dentes. Mas aí chega seu maior desafio e ele parece ser insuperável. Ele precisa aprender, então, a ser “fraco”, a não saber o que fazer. Ele aprende a chorar na frente dos outros e dizer que sim, está com medo do que vem pela frente. A jornada de Gus é do herói que de tão típico é caricato ao menino de 17 anos que talvez não possa vencer a morte e o esquecimento da maneira como pretendia. É interessante como aqui o estereótipo de masculinidade e virilidade é questionado.

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calma que piora, migo

Sendo uma estrutura tão tradicional e presente, a jornada do herói não pode e nem precisa ser completamente eliminada como algo exclusivamente repetitivo. Pode servir como um instrumento forte na hora de problematizar diversos conceitos normalizados na nossa sociedade. Como dizer que o herói não deve ser sempre homem? Como dizer que ele não deve ser sempre branco? Como dizer que não queremos mais heróis além do humano, que são abençoados com poderes inimagináveis? Talvez uma das melhores maneiras seja pegar essa mesma narrativa que ajudou a construir a tradição e colocá-la em dúvida. Questioná-la. Desafiá-la. Podemos criar heróis de carne e osso, que se pareçam conosco e que salvem o dia mesmo assim. Podemos até fazer com que eles falhem. Afinal, quem é que consegue ser herói ou heroína o tempo todo?

 

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Sobre Milena Martins

Milena tem 23 anos, é carioca da gema e paulistana em treinamento. O chapéu seletor gritou Lufa-lufa antes de encostar na cabeça. Estuda Letras e gosta mesmo é de falar de livros e divas pop. Continua não fazendo a menor ideia do que está fazendo com a sua vida, mas gosta de fingir que sim.

  • Duff

    Guria! Ótimo texto, meus parabéns. Eu sou uma escritora amadora (embora esteja investindo para me tornar profissional hahaha) e lido bastante com esse dilema.
    No entanto, eu tenho visto ultimamente vários protagonistas (a maioria homens, infelizmente) com um perfil diferente. Não como um super-herói, mas como um ladrão, um canalha, enfim – e isso tem sido bem divertido.
    Eu acho que muitas das inspirações para criar personagens inovadores é o RPG (roleplay game), onde você cria seu próprio personagem e você o interpreta. Conseguimos interpretar um herói sempre? I don’t think so, então surgem personagem mais “reais” que podem servir de inspirações para livros. Btw, foi assim que aconteceu comigo. xD

    Abraços!

  • Natália, que ótima referência a Sandy & Júnior no comentário 🙂 Mas é, concordo com você

    – Lorena

  • Natália Feitosa de Pinho

    Isso só me faz lembrar uma coisa: música super herói (sei que não é de autoria “Sandy & Júnior”, mas muito bem interpretada pelo Júnior). Tirando o foco do herói perfeito e tudo mais, mas por que necessariamente tem que ter um herói? Existe algum romance sem herói, afinal? E tá aí a genealidade do Green que poucos enxergam, para muitos, apenas mais um autor de livros de histórias comoventes/bonitinhas/fácil de público, maaaaaas há mt além disso.

  • e é justamente por isso que ao invés de fingirmos que ela não existe, podemos SMASH THE PATRIARCHY subvertendo a estrutura.

    adorei o texto também <3

    – Lorena

  • David de Oliveira

    Lindo texto, amiga!
    A jornada do herói Branco- Ocidental é um bolo de bolo, que teve seu momento de glória, mas que já está perdendo a graça.