A insustentável leveza do ser – Milan Kundera


Texto e foto: Analu Bussular

Deixa eu contar uma coisa pra vocês. Dificilmente me atraio por um livro só de olhar a capa, mas a verdade é que caio facinho nas mãos de um título bonito ou provocante. Sou uma grande namoradora de títulos. Não foi diferente com A Insustentável leveza do ser.

Acho que gostava desse livro há muito tempo, mas morria de medo de ler e me sentir burra. Nunca me sinto pronta o suficiente para um clássico, até que de repente estou lendo. Foi mais ou menos o que aconteceu com essa obra do Milan Kundera.

Confesso que quando abri a primeira página e já dei de cara com o nome de Nietzche, a minha vontade era botar o livro de volta na estante e retornar para algo mais confortável, mas a primeira impressão de pânico não foi, nem de longe, a que ficou ao longo da leitura. A insustentável leveza do ser é uma delícia.

Logo de cara o autor apresenta a provocação que conduzirá toda a narrativa do livro: o que é melhor, o peso ou a leveza? Isso porque, segundo ele, todas as outras dicotomias clássicas são mais fáceis de serem categorizadas. A luz é melhor que a escuridão. A beleza é melhor que a feiura. Mas entre o peso e a leveza não se consegue a chegar a nenhuma conclusão, porque o primeiro chute óbvio seria dizer que a leveza é melhor, mas se ela for insustentável, pode nos afastar da vida terrena e isso não seria bom – logo, o peso é necessário também. Por trás dessa pequena proposta de filosofia logo no começo do livro já daria pra gente concluir que essa problemática de escolhas deveria ser clara em qualquer dicotomia: nem todo lado é todo ruim, nem todo lado é todo bom. Mas se Milan decidisse concluir assim, preguiçosamente, não teríamos um livro tão bacana em mãos.

Pois bem, com uma narrativa muito diferente do normal, o autor se coloca o tempo todo na história como, bem, O AUTOR, de fato. Não faz questão nenhuma de sustentar uma excelente ficção e fazer que a gente acredite nos personagens em quanto pessoas – diz o tempo todo que eles são, sim, apenas personagens, criações de sua cabeça para ajudá-lo em suas reflexões filosóficas. E assim segue o livro, uma história genial onde as reverberações dos atos dos personagens, suas consequências e, principalmente, seus dilemas interiores contam muito mais que os próprios atos.

Tomas, Teresa, Sabina e Franz são os principais pilares da história, que se relacionam entre eles e têm diferentes visões sobre os pesos e as levezas dos relacionamentos amorosos. É através dos rolos em que eles se metem entre eles e também através dos diferentes envolvimentos deles no contexto político da época (invasão da Rússia à antiga Tchecoslováquia, onde 3 deles moram) que vamos caminhando junto com o escritor em suas filosofias.

Mais que um livro maravilhoso, é um livro genial. Genial, sim, porque sou uma maria-narrativa e fico totalmente embasbacada quando percebo nitidamente que um autor foi capaz de fazer mágica com as palavras; colocar uma atrás da outra de um modo diferente da maioria e me mostrar que sempre existe mais possibilidades do que eu imaginava. Já era apaixonada pelo livro antes de conhece-lo, só por causa do título. Agora sou um tanto mais.

Já percebi que tenho mania de terminar resenhas com ordens, mas nunca consigo resistir. Descubro alguma coisa incrível e quero que todo mundo leia. A propósito, leia A Insustentável leveza do ser.

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analubussular@hotmail.com'

Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.