A identidade secreta do coroinha


Uma das coisas que eu mais gosto de fazer na primeira sexta-feira das minhas férias de janeiro é acordar às 11 horas da manhã, tomar um café/almoço bem farto, vestir uma roupa bem leve depois de um banho demorado e ir para o centro do Rio de Janeiro atrás de alguma exposição, algum museu, uma feira de livros ou algum lugar histórico da minha cidade. Isso tudo até umas 17 horas, porque depois desse horário é maravilhoso encontrar com um dos muitos amigos boêmios que eu tenho em algum bar/botequim por aquela região e beber uma maravilhosa cerveja gelada ao som de algum samba-sincopado. E assim o fiz nas férias passadas.

Eu realmente gosto muito desse tipo de programa. Não que eu seja uma pessoa daquelas que se acham cult, e passam as férias todas visitando esse tipo de lugar fazendo questão de que todo mundo saiba disso. Eu gosto muito de praias, shopping, bares, restaurantes, cinema… Mas, pra mim, é maravilhosa a sensação de estar em um lugar cheio de passado, e que faz você se identificar com alguma das pessoas que fizeram parte dele.

Como o transporte mais rápido para o Centro é o trem da Central do Brasil, nada melhor que um livro do saudoso e brilhante Machado de Assis para me fazer companhia naquele trajeto chato e desconfortável. O escolhido daquela vez foi Memórias Póstumas de Brás Cubas. Já perdi as contas de quantas vezes eu li esse livro, mas ainda assim o escolhi. Alguma coisa no jeito peculiar que ele tem de escrever me traz uma identificação muito forte.

E depois de algumas páginas viradas cheguei ao centro da cidade do Rio de Janeiro…

Quando ando pelo centro, tenho a mania de ficar olhando para cima e para os lados vendo as construções antigas se misturando às novas e tento imaginar quantas histórias aquelas ruas podem revelar.

E quando andava sem algum trajeto definido naquela sexta-feira, coincidentemente dei de cara com a Igreja Nossa Senhora da Lampadosa. Parecia uma das travessuras do destino eu reparar logo naquela pequena igreja que não deve ter nem 20 m de largura e nem 30 m de altura. Escondida entre alguns prédios maiores, antigos ou novos.

Logo um lugar que deve ter marcado a vida de Machado de Assis. Pelo menos eu quis pensar desse jeito.

É engraçado como uma pessoa pode construir uma identidade para si sem ter a intenção. Ali, naquela igreja, o Grande Machado de Assis podia perder um pouco dessa sua identidade construída. Lá, em sua época da mocidade, ele deveria ser apenas o Joaquim, de sobrenome Maria. Um pequeno coroinha de uma igrejinha sem importância aparente.

É claro que nem preciso dizer que a minha busca por um lugar histórico se resumiu a entrar naquela igreja e ficar ali sentado em um daqueles bancos imaginando, por várias horas, em silêncio, o que teria passado na cabeça do pequeno Joaquim para, depois dali, se tornar o grande homem que ele foi. Afinal, o cristianismo não era uma coisa somente para mulheres e mendigos, senhor Brás Cubas!?!?

Por que estiveras aqui, Senhor Machado de Assis?

Tive vontade de trazer todas as suas obras e lê-las ali, naquele lugar, para tentar entender o que o pequeno coroinha, humilde do Rio de Janeiro, sentiu naquele lugar para ter tanta vontade de se transformar no Grande Machado de Assis. Mas não foi preciso trazer tudo aquilo para entender. Bastou olhar para a pequena placa da porta da Igreja e ler as cinco linhas escritas nela, que contam a importância da Igreja da Lampadosa.

O EXEMPLO!!!!

O que inspirou o pequeno jovem do Morro do Livramento foi a mesma coisa que me inspirava a ser grande: a grandeza daqueles em quem nos espelhamos.

Eu, naquele momento, vi que a minha fixação em Machado de Assis era a mesma que o pequeno Joaquim, de sobrenome Maria, tinha ao ver a irmandade negra que historicamente levantou aquela imgreja em um cenário de martírio e violência da escravidão. Acho que ao entrar no pequenino templo, o menino sentiu o ar de coragem e resistência que os escravizados transmitiam pela história.

A identidade que você cria pra você é, também, resultado dos exemplos que você escolhe seguir.

Depois dessa experiência, percebi que estava naquela igreja há muito tempo. Meu celular, que estava no modo silencioso, tinha 34 chamadas perdidas e 2 mensagens. Todas as chamadas e mensagens do meu amigo boêmio João Octávio…

A primeira mensagem dizia: “Cheguei ao centro”

A segunda: “Tô indo embora”

Perdi a companhia da minha cerveja e do meu samba-sincopado. Fui embora às 19 horas, em um trem lotado da hora do rush. Afinal, “Matamos o tempo, o tempo nos enterra.” Não é, Senhor Brás Cubas? Digo… Pequeno e grande Joaquim Maria Machado de Assis.

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davidhist92@gmail.com'

Sobre David

David é um professor de História que divide a sua vida em estudo, trabalho e diversão, necessariamente nessa ordem (mentira). Curioso e admirador da cultura urbana popular. Como bom carioca, ele gosta de se misturar em todo lugar que vai.