‘A História Secreta’, Donna Tartt


Texto: Fernanda Menegotto

O tal erro trágico existe fora da literatura?, se pergunta Richard Papen, narrador e protagonista de A História Secreta, no primeiro parágrafo do capítulo um. Ele costumava achar que não, mas agora acreditava que sim. E seu erro, sua falha, era “um desejo mórbido pelo pitoresco a qualquer custo”.

Richard, criado numa cidade californiana curiosamente chamada “Plano”, conta que o que viveu por lá, as horas de tédio e o passado do qual ele não se lembra muito bem (exceto por um sentimento generalizado de melancolia); tudo isso se transformou numa história descartável. Ele cria uma nova versão dos fatos ao deixar o estado natal para trás para estudar numa pequena faculdade em Vermont, a Hampden College.

Antes de chegar lá, Richard tinha passado dois anos numa faculdade estudando grego, uma decisão que, ele explica, foi bem aleatória: a turma de grego era à tarde e ele queria dormir até tarde nas segundas, mas acabou gostando (e se saindo bem) do idioma. Assim, quando chega na nova faculdade, Richard quer continuar estudando grego – mas não pode, porque o único professor lá só ensina um grupo muito pequeno de alunos.

Grupo esse que Richard não conseguia parar de observar atentamente sempre que os via pelo campus. Eles parecem distantes, diferentes do restante dos alunos da faculdade, e as pessoas falam sobre eles, sobre como um é supostamente muito rico, o outro é supostamente um gênio, mas ninguém os conhece muito bem. Richard acaba conversando com o grupo numa situação que chama de coincidência, mas que parece fabricada – ele vê a oportunidade se aproximar, apesar de sempre ter achado que pareciam inacessíveis, eles conversam sobre grego, um deles parece mais aberto e sugere que ele tente falar com o professor de novo.

E ele faz. Resumo da ópera: Richard entra na turma de grego e lá eles discutem sobre como “beleza é terror”, os rituais dionisíacos, essas coisas. Para mim, que conheço muito pouco (querendo dizer: quase nada) dos clássicos gregos e de sua mitologia, era tudo muito novo, diferente, intelectual e cativante. O fascínio de Richard pelo grupo do qual ele agora começava a fazer parte – mas não completamente porque tinham uma história compartilhada que ele não podia acessar, pelas discussões que eles mantinham – era palpável e compreensível. Aquele grupo de pessoas, distante e distinto, de aparência talvez um pouco excêntrica, discutindo o terror do que é verdadeiramente belo, era definitivamente pitoresco.

Só que uma das pessoas do grupo morre – e não foi um acidente, foi planejado por um deles. E essa não é uma boa descrição, porque essa morte é literalmente o primeiro fato sobre o qual o leitor fica sabendo ao pegar o livro, antes mesmo de Richard se perguntar sobre o erro trágico. O clímax do livro é conhecido antes mesmo de você abrir o capítulo um. A graça, e o que te prende, é tentar entender como a situação chegou lá. Como aquele grupo de pessoas que viajavam para passar o final de semana numa casa isolada, excêntricas, mas tão claramente jovens e naqueles momentos parecendo quase comuns, planejou a morte de um amigo e seguiu adiante.

O motivo é ridículo, mas dentro da narrativa faz completo sentido. Aqueles personagens são todos horríveis, e não existe desejo mórbido que justifique suas ações, mas, de novo, dentro da narrativa faz todo o sentido. Porque toda a construção de suas personalidades, do clima (a ambientação é minha parte favorita, sim ou óbvio?), do enredo, leva até lá. E a narrativa te deixa tão imerso naquele universo que você acaba fascinado por eles também.

A morte divide o livro entre as partes I e II, sendo a primeira a que conta o que levou a ela e a segunda a que mostra como eles vivem com aquilo, que obviamente não acaba sem consequências sobre as pessoas que costumavam ser e sobre os vínculos existentes entre eles. Talvez eu mesma tenha um interesse muito grande pelo pitoresco porque a primeira parte me pareceu bem mais interessante e me prendeu muito mais do que a segunda. Fiquei um pouquinho desapontada com a parte das consequências, achei que se estendeu um pouco demais e não teve toda a força que demandava.

Mas são detalhes, e A História Secreta é uma narrativa fascinante, com muitas referências literárias que eu obviamente não pesquei por não conhecer os clássicos (mas com que vontade de conhecer o livro me deixou!), com personagens horríveis e pretensiosos, com tudo tão dramático, mas tão bom. Porque não te deixa parar de ler, te envolve completamente. Porque, por algumas horas, enquanto você lê, você esquece de tudo e só quer saber como e por que aquelas pessoas mataram alguém e o que acontece com eles, sem ter certeza de se quer que sejam pegos. Acho que isso só poderia acontecer pelas mãos de uma autora muito talentosa – nem preciso dizer que estou bem curiosa para ler mais da Donna Tartt.

Compartilhe:

Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura - ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.