A História do Meu Nome (ou tudo o que tenho para aprender sobre acreditar)


Arte: Gabriela Schirmer // Texto: Lara Matos

Eu tinha muita curiosidade sobre meu nome, que foi escolhido por meu padrinho e aceito por meus pais em uma espécie de estalo. Descobri que seu significado é mais mágico do que eu podia esperar, e que também foi um pouco profético sobre a minha humanidade. Muito além do “silenciosa” ou “muda” dos dicionários, a história de Lara fala da nossa relação com a fé: o que não se pode ver, porém se acredita e sente e, portanto, é real. Isso se mostrou exatamente minha lição mais árdua de vida: acreditar, confiar.

Lara era uma ninfa dos bosques, e faladeira que só ela, contou a Hera sobre um dos inúmeros casos de Zeus. O deus, irado, cortou sua língua e a baniu para o Érebo, uma espécie de “inferno”. Só que para levar Lara para perecer em vida em direção ao Érebo, foi necessário chamar Hermes, o psicopompo que tinha livre trânsito entre os mundos.
Com uma ajudinha de Hera que agora tinha Lara como sua protegida, Hermes apaixonou-se por ela, e Lara concebeu ali mesmo, no caminho para o Érebo. Por fim, Hermes exilou Lara em uma casa perto de seu bosque de origem, mas houve consequências da concepção de filhos no submundo.

Seus descendentes, os deuses Lares, nasceram sem corpo, só espíritos de energia benevolente que zelavam pela sua mãe e a integridade da casa em que viviam. E ainda tinham toda a espiritualidade protetora da natureza de Hermes. Lara zelava por seus filhos, os nutria e amava mesmo sem poder vê-los.

Com o tempo, foram se multiplicando através do cuidado materno e todas as casas têm Lares que guardam por elas. Não são vistos nem ouvidos, mas estão ali, protetores. Lara, agora, pode ser “mãe dos invisíveis”, ou ainda “mãe de mortos”, segundo a etimologia mais antiga do nome.

Ter um nome como profecia: eu tive. A dificuldade em acalentar meus “mortos”, que são minhas perdas, os meus erros como se fossem filhos natimortos, é imensa em mim, e talvez esse seja o grande aprendizado da minha vida: o que está morto e perdido merece morada tranquila para que algo novo possa ressurgir. Enterramos os mortos; mas também se enterram sementes. São a mesma energia invisível. Compreender isso com serenidade tem sido árduo para mim, e conhecer a história que me deu meu nome ajudou bastante.

Meu nome é Lara e uma das maiores dificuldades da minha vida, junto com velar minhas coisas mortas e deixá-las jazer para que possam transmutar em novas energias, é justamente crer nesse invisível que reside em todas as coisas, em fazer nascer e pôr minha fé em movimento, fé esta que talvez se retroalimente daquilo que é necessário deixar morrer com placidez, a decadência que alimentará a exuberância do futuro. Ter paciência e sabedoria nos momentos em que a resistência só vai causar desgaste, tristeza e frustração. Deixar ir.

Sou Lara para que, como a portadora original, eu possa crer, amar e acolher o que não vejo e o que não é racional em mim, e que muitas vezes também não pode ser expressado em palavras. Ser mãe do que não se pode ver ou mensurar em mim, mas que é uma energia poderosíssima.

*tenho um nome duplo, e a junção dele com Lara significa “o silêncio sagrado”, e como é maravilhoso perceber a divindade do silêncio que permite entender e aceitar as coisas com sabedoria, sem que isso signifique passividade

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carmenbavius@gmail.com'

Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de “realidade”: estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.