‘A garota na teia de aranha, de David Lagercrantz


Desde seu primeiro volume, Os homens que não amavam as mulheres, a série Millenium é bastante conhecida por ter uma perspectiva feminista sob problemas como violência contra a mulher e abandono infantil. A nossa incomum heróina, Lisbeth Salander, é extremamente inteligente e anti-social, sendo uma das melhores hackers da Suécia e não hesitando em punir homens que abusam de mulheres e crianças.

Como é dito na capa da edição brasileira, em A garota na teia de aranha, Lisbeth está de volta – e dessa vez para resolver o mistério da morte do famoso cientista Frans Balder, crime do qual a única testemunha é o filho dele, August. August, porém, tem um grau severo de autismo, e aos oito anos não fala ou se comunica de qualquer maneira com o mundo exterior. Seu pai, porém, havia descoberto algumas semanas antes que ele era um savant, ou seja, alguém com habilidades excepcionais em algumas áreas – no caso de August, os desenhos e a matemática, ambas áreas que se tornam essenciais para que Lisbeth e a polícia desvendem quem foi o assasino de Frans e porquê. Ao mesmo tempo que a morte de Frans mobiliza a polícia secreta sueca e até mesmo organizações internacionais, Lisbeth é procurada pela NSA (a Agência Nacional de Segurança americana) por invadir seu fortemente guardado sistema, algo inédito em anos. Apesar de não ser nada incomum na série Millenium que vários mistérios e problemas se misturem com as vidas pessoais dos personagens – principalmente a de Mikael Blomkvist, repórter investigativo que geralmente ao fim dos livros exibe a história do que ocorreu ao mundo – o autor não conseguiu amarrar estas tramas tão bem assim, deixando algumas conexões frágeis e pontos inacabados.

O lançamento de A garota na teia de aranha foi cercado de alguma controvérsia: o seu autor, Stieg Larsson, morreu onze anos atrás, deixando a série (que originalmente teria cinco livros) inacabada. O quarto volume foi produzido por David Lagercrantz, e embora ele tenha reproduzido bem as conspirações e mistérios criados por Larrson (que, no seu hábito de escrever vários volumes da sua série ao mesmo tempo, deixou vários pedaços de capítulos inacabados) ainda há algo faltando.

Porque é um erro muito comum ao começar a leitura da série achar que Mikael Blomkvist, o jornalista investigativo coberto de prêmios, seja seu real protagonista – mas não é. Embora Mikael seja um personagem interessante o suficiente, Lisbeth e seu passado complicado e sua personalidade única fazem uma protagonista – e uma perspectiva – muito melhor, que Larsson conduziu com sensibilidade nos três primeiros volumes. Cada fato descoberto a respeito de Lisbeth era uma construção muito bem feita que levaria a novas tramas intricadas, e Lagercratz não conseguiu viver a altura de Stieg nesse aspecto. É uma pena – quantas séries temos por aí que tem como protagonistas jovens mulheres marginalizadas e extremamente inteligentes? Não suficientes, e é uma pena que Millenium perca esse aspecto que tanto a consagrou.

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Sobre Isabel Moraes

Baiana de nascença e coração, já passou uma temporada em Praga e hoje mora em Niterói, onde cursa Estudos de Mídia. Ama livros, séries, gatos, cerveja e se empolga um pouquinho demais quando falam de política. Quando escreve, tenta por aquela tal objetividade da qual falavam no colégio, mas não tem jeito: vira tudo egotrip.