“A Gangue”: muito mais do que só um filme em Língua de Sinais


Texto: Anna Lívia // Foto: Divulgação

Minha primeira experiência com “A Gangue” foi em 2014, durante a 38a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Durante minha minuciosa escolha de quais filmes ver, reparei que esse longa ucraniano, dirigido por Myroslav Slaboshpytskiy, tinha participado da semana critica de Cannes, ganhado atenção internacional e, além e tudo, tinha como base uma história que nunca tinha visto representada desse forma no cinema.

É que “A Gangue” é um filme completamente feito na língua de sinais. Seus personagens principais são deficientes auditivos e conversam entre si dessa maneira e, a menos que você conheça o sistema de libras da Ucrânia, você fica sem saber ao certo o que foi dito, todo o plot e relacionamentos são subentendidos através do universo visual apresentado.

Ver esse tipo de representatividade no cinema é raro, ter um filme que funcione sem legendas no mundo todo é raro, ter um filme BOM com todos esses elementos é mais raro ainda.

Foi nessa expectativa que cheguei no cinema, vindo da minha maratona de outros filmes do dia. Entro na fila, já gigantesca, e percebo que a maioria das pessoas ali não são os típicos cinéfilos com seus passes-livres da Mostra, ou jornalistas ou críticos ou hipsters-padrãozinho-que-frequenta-a-Mostra… eram pessoas normais, jovens, adultos, pessoas mais velhas; mas elas tinham algo em comum: todas estavam conversando em libras entre si.

Em uma sala enorme e lotada na Paulista, eu, que moro ao lado de um colégio especial para deficientes auditivos, vi mais gente conversando livremente em libras do que jamais havia visto. Ali mesmo já estava claro que o filme tinha conquistado um marco histórico, se ver em tela era importante para aquelas pessoas.

O que eu descobri ao longo do filme, no entanto, foi o fato de que a representatividade era apenas uma pequena parte do porque aquelas pessoas estavam ali. Sim, termos deficientes auditivos como personagens principais é algo diferente, mas mais diferente ainda é o fato de que suas deficiências não eram a parte mais importante da história.

O filme não é um conto sobre superação e sobre “como viver com deficiência”, que é o que comumente vemos em filmes com maior representatividade. A surdez era uma característica daqueles personagens e pronto. Era um fato. Você o compreendia e logo o superava para mergulhar de cabeça na história: um jovem entra num internato e se vê fazendo parte de uma círculo de drogas e prostituição, cria inimigos e tem que lidar com toda a brutalidade e violência desse novo universo.

O filme não gira em torno da deficiência auditiva de seus personagens, nem garante sua qualidade apenas pela representatividade. Mesmo sem nada nisso, seria igualmente interessante.

Com uma belíssima fotografia, momentos chocantes de corrupção, violência, abuso e os riscos vividos por uma juventude marginalizada, “A Gangue” consegue te fazer esquecer que não existem falas ou legendas e te deixa na beira da poltrona, esperando para ver o que vai acontecer. A vida “normal” de adolescentes (ou pelo menos a sua versão mais radical, com romance, sexo, intriga, inimizades, mas também drogas, abortos e assassinatos) é acompanhada pela realização de que existe um sistema muito maior em jogo, uma hierarquia social que marginaliza esses jovens.

A relação deles com o mundo fora do internato – na qual a questão da surdez ganha maior atenção, já que é constantemente explorada por pessoas não deficientes (e também uma das razões pelas quais aqueles jovens sequer estão em tal situação de risco) – onde sua autonomia é retirada, se contrapõe fortemente com as relações internas dos jovens.

O longa-metragem trata sobre a cadeia de poder e mobilidade social, quem o detém qual lugar e por qual motivo.

No final das contas “A Gangue” poderia ser sobre qualquer tipo de juventude marginalizada, seja por questão racial, economia ou outra. É sobre quem de fato está explorando quem. Esses jovens estão tirando vantagem da situação em que se encontram? Estariam eles se “auto-explorando”? Ou isso é apenas uma ilusão perante um mundo que os enquadra dessa maneira não importa o que aconteça? As estruturas sociais dentro e fora da gangue e as maneiras como elas se parecem e se diferem, a complexidade de um mundo de trapaças e violência, é sobre isso que o filme fala. O fato dele ser em Língua dos Sinais é apenas mais uma característica e não o fator central.

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Sobre Anna Lívia

Uma paulista com coração mineiro que gosta de fazer filmes e contar histórias, Anna é Mestre-de-Artes em Processos Criativos e trabalha como produtora e assistende de direção de cinema e afins.