A força de cada uma


Escreva uma personagem do sexo feminino. Mas ela não pode ser feminina demais, senão fica chato. Também não pode ser machona, senão vira esteriótipo. Mas cuidado com o meio termo, ele é meio clichê.

Escreva uma personagem mulher que tenha um bom emprego. Mas não um SUPER emprego, porque aí fica irreal. Ela pode ter um chefe, desde que também seja mulher, pra fortalecer o gênero. Mas o chefe dessa chefe tem que ser homem, porque, né, é assim que a banda toca. Faça ela trabalhar bastante, porque a gente tem que lutar pelo que quer. Mas, por favor, não foque a vida dela no trabalho. Ela precisa de um par romântico. Mais de um, porque aí fica claro que ela tem uma vida amorosa bacana. Mas não muitos, porque aí ela vira puta. Mas ela com certeza também quer um grande amor.


Mas cuidado pra esse amor não ser demais! Amor demais sufoca, faz a força do feminismo se perder. Ela tem que se amar primeiro. Mas não pode se amar demais, senão fica metida e eu não consigo me identificar. Ela tem que ter defeitos – mas calma com os defeitos, porque uma personagem muito cheia de falhas cansa. Tudo bem ser insegura, desde que não seja chata; afinal, eu sou insegura, mas não sou chata, né? E eu preciso me ver na personagem.

Ela tem que ter família, mas precisa ser independente. Ela tem que ser forte, porque lágrima demais é coisa de novela. Ela não precisa de homem nenhum pra nada, desde proteger a si mesma até para carregar os móveis da mudança. Não, a personagem perfeita é praticamente a She Hulk de tão fodona. Ela é demais. Eu queria ser ela.

E sabe do que mais? Ela queria ser você.

Toda vez que alguém me fala o que é preciso pra se fazer uma personagem mulher forte eu fico mais confusa, porque parece que as pessoas não conseguem manter um diálogo com os seus próprios princípios. Tudo é demais, mas o meio termo não basta. Tudo está errado. Tudo se cobra. Tudo é cópia.

Vou contar um segredinho aqui pra vocês: toda personagem é forte. Talvez não da forma como você gostaria para a trama, nem como você seria se os papéis fossem invertidos. Mas só porque a fulana é emotiva e chora à toa, não significa que ela seja fraca. Só porque ela pede ajuda, não a classifica como incapaz. Só porque você rotula não significa que ela seja.

O primeiro passo pra chegar a qualquer lugar é aceitar como as pessoas são.

Viva as personagens fortes, que choram, trabalham, cuidam da casa, tem filhos, são solteironas, não sabem abrir um pote de maionese, tem medo do escuro, gritam por qualquer motivo. Celebremos as diferenças, porque o objetivo não é fazê-las fortes ou fracas. É torná-las únicas. Como você.

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