A flor que vale


Há quase três anos, a caminhonete do meu tio carregava a minha geladeira e o meu colchão. Ele e os meus pais arrumaram a minha, naquele momento, futura micro-casinha. Ela ficava na rua de nome de escritor, tinha menos de 20m² e era fruto do carinho deles. Antes de chegarem nela, os móveis foram regados por uma chuva na estrada. Cada um deles, montado e posto em seu milimétrico lugar, havia passado pelas suas mãos – sinto que há, ainda, os ramos das digitais dos três nas partes que não consigo alcançar para limpar.

Hoje, dentro do ônibus indo para faculdade, me lembrei desse dia. Logo em seguida, passei pelo Túnel Santa Bárbara e, então, minhas memórias – tão recentes – brotaram e se plantaram na poltrona vazia ao lado:  o Rio de Janeiro voltava a ser um emaranhado de ruas e avenidas desconhecidas, praticamente uma floresta de prédios e de favelas. A geografia e nome dos bairros me fugiam. Os ônibus ainda se chamavam quatrocentos e oitenta e cinco e trezentos e vinte e sete. O Google Maps não conseguiria me salvar, porque poderia ser assaltada na próxima esquina. Além disso, quem me ajudaria caso acontecesse? O calor me invadia, mesmo nos dias cinzas. E quando entrava no metrô sentia frio. E se eu ficasse doente? Para qual hospital iria? Quem me acompanharia?

A cidade ainda não era minha. Talvez, meu corpo voasse com um simples assopro. Afinal, meus pés não encontravam vinco com o qual se enraizar. Confesso que no início teria voltado para o mesmo antigo ninho. Porém, todas as tardes que chegava em casa algo mudava. Lembro de sentir no seu chão uma textura familiar. Descalça, encontrava pétalas, folhas e galhos. O tempo me mostrou que eram os meus e os da própria casa. Nos enlaçamos.
Acabou o Túnel. Estava tudo tão claro do lado de fora. O ônibus freou de um jeito brusco no ponto do Catumbi. Como sempre, quase ninguém entrou. Depois o quatro oito cinco – descobri que aqui dizem os números assim – seguiu para a Cidade Nova e para a Linha Vermelha. Ficou lotado. Apesar do ar condicionado, todos nós ficamos suando – o que já era de se esperar. Por acaso encontrei minha amiga Isabelle e fomos o restante do tempo conversando – ela também estava atrasada para a aula.

Descemos do ônibus. Enquanto andávamos à pé, contei para ela o que tinha ido pensando. Ela também não era do Rio. Isabelle se reconheceu nas minhas palavras e disse outras tantas com as quais concordei. Cultivar-se em uma nova cidade era complicado, mas tão bonito. Às vezes, por insegurança, podemos chorar, que por um lado é ótimo: água é necessária para o desabrochar. Reconhecer-se e viver cada mudança é se deixar germinar.
Chegamos na faculdade. Por acaso, novamente, vimos dois girassóis no fim do caminho.

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Sobre Eduarda Vaz

Eduarda costuma falar muito e, às vezes, acaba se perdendo na metade do assunto. Para se reencontrar, escreve. Hoje estuda Letras: Português/Espanhol na UFRJ e lançou um livro chamado Aresta (Macabéa Edições, 2017)