A farsa das Manic Pixie Dream Girls


Talvez você não conheça o termo, mas com certeza conhece o tipo: Manic Pixie Dream Girls são aquelas personagens femininas misteriosas, que surgem na história, sem muitos traços de uma personagem real, só para ajudar o protagonista a ter uma aventura e em seguida sair da vida dele. Sem esquecer de antes, claro, deixar uma lição pelo caminho. Elas costumam ser meio excêntricas, despreocupadas e fazer aquele tipo de “garota espírito livre”. Na maior parte do tempo, rejeitam também características afeminadas. A Manic Pixie Dream Girl não se preocupa com aparência, mas é bonita sem nenhum esforço.

O termo foi criado pelo crítico de cinema Nathan Rabin sobre a personagem Claire, interpretada pela Kirsten Dunst no filme Tudo Acontece em Elizabethtown. Se você não viu esse filme – ou não lembra muito bem da história – , ela é uma personagem inexplicavelmente alegre, que salva o protagonista de uma situação de crise. Ela é, basicamente, um plot device, sem função na narrativa além de mudar a vida do cara.

Vamos falar sobre livros, então. Se a MPDG está em uma história pra orientar a vida do cara, é de se esperar que ele nutra um tipo de obsessão, certo? Vou falar de dois livros que li recentemente em que encontrei esse arquétipo. Em primeiro lugar, A extraodinária garota chamada Estrela (Jerry Spinelli). Estrela é uma representação quase perfeita da MPDG: ela tem um nome excêntrico (que ela mesma escolheu!), surge do nada em uma escola de pessoas comuns, não se submete a regras sociais, tem um rato de estimação,  quer viver aventuras e, acima de tudo, fascina o garoto protagonista, Leo.

Outro livro recente na minha estante que traz uma Manic Pixie Dream Girl é O começo de tudo (Robyn Schneider). Ezra, o garoto-estrela, atleta e popular na escola, tem tudo que poderia querer, até que sofre um acidente que acaba com sua carreira no esporte. Como ele se sente excluído do antigo grupo de amigos, começa a se sentar na mesa dos não-populares e é lá que conhece Cassidy. Ela surge misteriosamente na escola, tem uma passado misterioso e provoca uma reviravolta na vida de Ezra. Típica MPDG.

Um clássico de MPDG é a série Scott Pilgrim. O interesse romântico de Scott, Ramona Flowers, causa tanta inquietação em sua vida – sendo a garota que ele considera perfeita para si – que ele luta fisicamente por ela contra seus exs. Ela revela pouco sobre sua personalidade, como boa MPDG.

O próprio criador do termo escreveu um texto pedindo desculpas por ter inventado essa denominação, principalmente porque ela começou a ser usada não só para criticar a falta de força das personagens, mas de uma forma positiva. Quer dizer, é só olhar no Google o que aparece ao buscar o termo. Resultados como “nossas MPDGs favoritas” na minha tela. E existe um outro argumento contra a existência desse arquétipo: ele pode ser usado para diminuir uma personagem que não merece a caracterização. Uma personagem excêntrica e despreocupada pode existir sem ser apenas objeto de admiração de um homem, certo? Temos que tomar cuidado com isso.

Mas não podemos negar que esse arquétipo existe, é relativamente comum e prejudica a representação das mulheres na ficção. Assim como em outros arquétipos, a personagem pode acabar sendo apenas uma coleção de características idealizadas, sem personalidade por si só.

Por isso, queria falar de histórias que pegam esse arquétipo e o subvertem. Sim, tem hora que a caracterização pode vir para o bem. Em determinados livros, os autores introduzem essa noção de personagem idealizada e  a narrativa desconstrói o mito.

É o caso de As virgens suicidas, por exemplo. O Jeffrey Eugenides nos apresenta as irmãs Lisbon pelos olhos dos garotos da vizinhança em que elas moram. A história é contada de um ponto de vista no futuro, onde os personagens reconhecem que o ar místico das Lisbon escondia coisas que eles jamais imaginariam. É um reconhecimento da falta de atenção que eles prestavam nos detalhes, já que idealizavam as garotas à distância.

Já em Cidades de Papel, a personagem Margo Roth Spiegelman é a suposta Manic Pixie Dream Girl. Digo suposta porque ela é bastante idealizada pelo amigo de infância Q e uma pessoa popular na escola, mas desaparece repentinamente e, quando ele resolve encontrá-la, o leitor percebe que a imagem que Q (e todos à sua volta) tem de Margo está longe da pessoa real por trás dela.

Por último, a Sam de As vantagens de ser invisível. Ela tem tudo para ser uma MPDG: bonita, despreocupada, causa fascinação no protagonista Charlie. Ela o ajuda a sair de sua zona de conforto, o ensina a aproveitar momentos de aventura da vida. Mas ele se apaixona por ela e ela não retribui o sentimento, deixando-o frustrado. O que nós aprendemos com isso, no entanto, é que em geral personagens femininas são vistas com distorções pelos admiradores e que, na verdade, são pessoas de carne e osso (ou, bem, papel e tinta) que têm seus próprios sentimentos. E o livro faz questão de demonstrar isso no caso da Sam.

No final das contas, o arquétipo de Manic Pixie Dream Girl nada mais é que um reflexo da idealização que é feita de mulheres. Ao serem escritas, portanto, elas demonstram a falha em conceber mulheres como pessoas por inteiro, com suas próprias decisões, manias e emoções. Sem ser plot device, sem viver para mudar a vida de homens, tendo sua própria personalidade.

 

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@buzzedwhispers) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.