A escrita que liberta


Texto: Marina Matos // Arte: Gabriela Amorim

Desde que me entendo por gente, sou tímida. Nas rodinhas eu era sempre a calada, a mais quieta da sala, a que ouve todos os lados de uma história para só então se pronunciar. Ok, não preciso enganar ninguém. A verdade é que pouquíssimas vezes existiu uma “rodinha”, porque eu não gosto muito delas, como é de se imaginar – quase nunca me metia em uma.

Talvez por isso eu tenha aprendido a escrever aos quatro anos. Tão logo descobri o poder de juntar as letras, um novo mundo se abriu diante dos meus olhos. Aos seis já tinha um diário. Na escola, era através de bilhetes que minhas amigas e eu conversávamos em sala de aula. A depender do assunto, escrevíamos cartas. Era a escolha certeira quando precisava desabafar, apesar do risco iminente de outra pessoa ler – e aqui confesso que esta nem era uma questão pra nós, ao menos não para mim; a sensação maravilhosa de despejar os sentimentos no papel valia qualquer risco. Escrever, pra mim, é conseguir dizer o que quero sem pressa, sem interrupções e com tempo e espaço suficientes para elaborar e pensar nas palavras certas. Hoje eu tenho dois blogs, acabei de escrever meu primeiro livro e também rascunho em outras superfícies que estiverem ao alcance de minhas mãos. De listas a teorias existenciais, tudo passa para o papel. Haja letra para tanto assunto.

Mas sim, voltando um pouquinho na linha do tempo. Quando eu era bem pequena, não era boa em me fazer entender. Não sei se minha timidez é resultado disso, ou se por ser tímida é que as palavras se embaralhavam na hora de falar. De qualquer modo, do muito que eu sentia, pouco era verbalizado. Ia juntando as vergonhas, os medos, as dúvidas em uma mala que foi ficando cada vez mais pesada. Em algum momento lá pro meio da adolescência, eu não soube mais lidar com aquele tanto de mim que estava guardado. Transbordei. Não no sentido poético da palavra, no sentido literal mesmo. Entrei em crise. Chorava sem parar e sem conseguir entender o motivo de tanta água. Eu tinha 15 anos, era uma das melhores alunas da sala, tinha uma vida normal, com um “futuro brilhante” pela frente (diziam). Só não contava com a possibilidade de encontrar uma síndrome do pânico no meio do caminho. Não foi fácil. Deixarei para falar sobre como foi viver esses dias num outro episódio, hoje o assunto é outro. A verdade é que eu descobri que a gente precisa olhar com muito carinho para as coisas que nos acontecem. Só depois da crise foi que percebi o quanto escrever me era importante. Eu funciono melhor por escrito, não tem jeito. Entre consultas em psicólogos e várias pessoas dispostas a me ouvir, percebi que o que fazia efeito mesmo era elaborar com a ajuda de lápis e papel. Era o jeito que eu me ouvia melhor. E quer melhor coisa do que conseguir entender as tantas bagunças que fazem morada lá dentro cabeça?

Há três anos sofri uma perda gestacional. Estava com 17 semanas, pensando em nomes e às vésperas de descobrir se o bebê era menino ou menina. Nunca soube. Foi o maior baque da minha vida, ser mãe era um sonho surreal de tão grande. Perdi o chão. Desatei a escrever no meu blog sobre o ocorrido, as coisas que aprendi, tudo que fui percebendo e sentindo naquela nossa pouca convivência. Foi o jeito que encontrei de seguir em frente e de tirar um pouco o peso daquela ausência dos meus ombros. Se tornou a melhor terapia que já fiz na vida. Dois meses depois engravidei novamente e hoje tenho uma pequena moça de 1 ano e 9 meses, linda e faladeira.

E os exemplos continuam, poderia ficar horas aqui falando sobre eles. Então, sim. Eu acredito no poder curativo da palavra escrita. Foram elas que me salvaram uma porção de vezes e a quem eu recorro nos momentos de aperto – e de folia também, porque é importante registrar os bons momentos. Escrever só me traz bons frutos, sejam eles amizades conquistadas através da internet (a rodinha que aceita quem prefere se expressar por escrito), ou autoconhecimento, que é sempre bem vindo. Escrever é libertar – e para uma pessoa que guardou tudo pra si durante tempos, não deixa de ser um ato de amor próprio também. Quando as palavras voam, os sentimentos se organizam e abre-se espaço para novos olhares e saberes. É um caminho. É por ele que eu escolho ir.

 

 

Marina Matos é uma pessoa que acredita. Escreve porque é a única coisa que sabe fazer, além de ser mãe. É feliz por exercer suas duas paixões e ainda inventa outras doidices vez por outra.

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