A Criação


Texto: Larissa Siriani

Às vezes eu ergo os olhos do teclado e me perco.

Me perco porque o mundo real – o meu mundo – já não é mais meu. Porque mergulhei de cabeça no paraíso perdido que criei na minha mente, e ele me domina. Porque tem uma força maior que me faz imergir e permanecer submersa por horas que se tornam dias e dias que se tornam semanas. E quando estou nadando nesse oceano infinito, não consigo achar a corda que me traz de volta.

É tão louco isso. Não dá pra falar sobre como é se você nunca sentiu. Como eu poderia explicar? Como vou falar que às vezes, à noite, não consigo dormir porque estou pensando nos caminhos trágicos que meus personagens vão trilhar? Como vou descrever a sensação de partilhar cada mínimo sentimento que aquelas pessoas fictícias sentem – rir por elas, chorar com elas, ir do êxtase ao fundo do poço, todos os dias? Como vou conseguir explicar que às vezes, preciso ficar sozinha por dias, mas não estou sozinha de fato, porque nunca estou – eles estão comigo, o tempo todo, cada segundo, me seguindo.

A ficção te suga. Te controla. Te faz esquecer a sua própria vida. O que é uma pilha de louças pra lavar afinal? Tem coisas tão importantes em jogo aqui.

Mas aí ela acaba, e eu ergo meus olhos, e me perco. Estou vazia de novo. Como o luto que segue a perda de um ente querido, a despedida daquele universo dói. Ter que voltar ao seu próprio mundinho dói. Olhar pros seus próprios problemas dói.

Você está livre, mas a liberdade te aprisiona. A ilusão é o que te mantém. Então você espera – por uma nova ideia, um novo personagem, pelas vozes voltarem a te seguir. Porque você sabe que ali, naquele mundo de fantasia, é o único lugar em que você gostaria de estar.

Mesmo que seja tudo mentira.

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