‘A Corrida de Escorpião’, Maggie Stiefvater


Às vezes eu acho que minha missão na Terra é fazer o maior número possível de pessoas lerem A Corrida de Escorpião, vide todas as vezes em que eu já indiquei ou falei desse livro desde 2012, quando li pela primeira  – e, até ontem, única – vez. Tamanha foi a impressão causada em mim que, diferente da maioria dos livros que li em 2012, ele ainda estava bem vívido na minha memória. O que não quer dizer que não me perguntei se ele passaria no teste da releitura como tinha passado no teste do tempo.

Passou com folga.

Existem momentos que você vai lembrar pelo resto da vida e existem momentos que você acha que vai lembrar pelo resto da vida, e não é sempre que eles acabam sendo os mesmos momentos. Mas quando Peg Gratton gira e escreve meu nome na lista, branco no preto, eu sei, sem sombra de dúvida, que essa é uma imagem da qual eu nunca vou esquecer.

O livro é vendido como uma aventura sobre corridas de cavalo mortais, “em que alguns correm para vencer e outros para sobreviver”, como diz na orelha, mas a verdade é ele não convence como uma aventura. O ritmo é lento e passamos muito tempo conhecendo o funcionamento da ilha de Thisby, casa dos capaill uisce e sede das Corridas de Escorpião, que acontecem todo dia primeiro de novembro na beira do mar. Humanos, porque são humanos, têm a brilhante ideia de domar e montar numa corrida os capaill uisce, cavalos que vivem no mar e saem de lá em busca de alimento – carne, inclusive a humana. Thisby é uma comunidade fortemente católica, mas que atrai centenas de turistas em meio aos seus rituais pagãos, de sangue e sacrifício e deusas do mar. A ilha é linda, com as falésias e o mar sem fim, e uma das minhas passagens favoritas é sobre espiritualidade, mas também sobre sentir o vento em seus cabelos e o som do oceano em seus ouvidos; mas Thisby também é perigosa e mortal, e a narrativa não te deixa esquecer disso.

“Acho que você está certo, Sr. Kendrick” diz George Holly, os olhos fechados. Seu rosto está virado para o vento, ligeiramente inclinado para frente para não ser empurrado. Suas calças não estão mais imaculadas; há vestígios de barro e esterco na parte da frente. Seu chapéu vermelho ridículo foi soprado para trás, mas ele não parece ter percebido. O vento têm os dedos nos seus cabelos claros e o oceano canta para ele. Esta ilha levará você, se você deixar.
Eu pergunto, “Estou certo sobre o quê?”
“Posso sentir Deus aqui fora.”
Limpo minhas mãos nas calças. “Me diga isso de novo”, falo, “em duas semanas, quando tiver visto os cadáveres na praia”.

A ilha é perigosa e mortal, e destruiu a família de Puck Connoly, mas isso não faz com que ela deixe de amar o único lugar que consegue chamar de casa. As corridas transformaram Sean Kendrick num órfão, mas isso não faz com que ele deixe de amar os cavalos. O que também não quer dizer que eles não enxergam tudo o que aquilo que amam pede deles – mas não cabe a cada um escolher se o que se ganha é maior ou mais importante do que o que se perde para o que se ama?

Talvez o livro tenha sobrevivido com tanta força na minha memória porque ele é mais sobre o clima do que sobre o enredo. A própria Maggie diz que o principal objetivo dela “não é o enredo ou a premissa ou o ritmo, mas evocar um determinado sentimento”. O enredo é esse: Puck Connoly precisa salvar seu pequeno espaço no mundo, e sua solução é desafiar o status quo ao se tornar a primeira mulher a participar das Corridas, a contragosto dos habitantes da ilha. Sean Kendrick, quatro vezes campeão das Corridas, pela primeira vez tem alguma coisa a perder nelas. Para todos eles, o mundo está à beira da mudança, e eles tentam com muito esforço se segurar no que conhecem – ainda que Puck e Sean comecem a perceber que nem todas as mudanças são negativas.

A ação sempre está lá – nem que seja só esperando para acontecer – porque, afinal, tem cavalos carnívoros com fome saindo do mar, mas as páginas são muito mais centradas nos personagens. O que é bom, porque são excelentes personagens. Puck não busca desafiar convenção alguma, mas ela é impetuosa e obstinada e se recusa a baixar a cabeça para as regras não escritas da sociedade quando alguém tenta forçá-las sobre ela. Sean é tão quieto, distante e seguro que se torna uma figura imponente na ilha e primeiramente muito pouco simpática para o leitor, e é interessante perceber quantas vezes ele entende as outras pessoas somente nos termos em que entende os cavalos no meio dos quais cresceu.

A narrativa da Maggie é sensacional. Ela é bastante descritiva e cria muitas imagens. A ilha aparece vívida, ainda que não dê para dizer exatamente onde ela fica e nem quando a história se passa. Maggie não só diz que Sean ama os cavalos e que Puck ama a ilha, que eles desafiam e fascinam um ao outro, que a ilha tem força sobre um recém-chegado. Ela mostra. (E desmembra seu processo de escrita numa lição valiosa sobre como fazer isso).

Em algum lugar nas proximidades um homem se lamenta; ele foi pisoteado, ou derrubado, ou mordido. Soa ressentido ou surpreso. Ninguém disse a ele que a dor mora nesta areia, entrincheirada e regada pelo nosso sangue?

E o resultado é esse. Três anos depois, eu, aqui, falando de novo e novo: por favor, acredite quando digo que essa história sobre cavalos carnívoros assassinos é tão, tão bonita. Talvez seja isso que acontece quando você escreve a história que sempre quis ler, mas nunca encontrou.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura - ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.

  • Luísa Granato

    Maggie <3