A Coragem de Alice


Olhando para o meu reflexo da porta do metrô eu parecia estar bastante calmo, mas só eu sabia a vontade quase que incontrolável, que eu sentia de gritar.

São quinze estações que rotineiramente espero na volta para casa, e o medo consumia a paciência que normalmente tenho nesse trajeto diário. As músicas que saiam do fone de ouvido não produziam mais a paz em mim, como de costume.

O metrô estava com a gritaria de sempre, um incontável número de pessoas, e nada gritava mais alto do que a culpa dentro de mim, que parecia apertar minha garganta com uma força capaz de pressionar meus olhos a ficarem úmidos. Sorte a minha que o ar-condicionado me servia como parceiro nessa briga contra esta vergonha pública.

– Ela não pode saber disso… Não desse jeito!– sussurrei entre as vozes do metrô.

O medo da verdade!

Deixei a confirmação do meu crime dentro do nosso próprio quarto, entre os lençóis que nos cobriram durante a noite: uma carta escrita por outra mulher. Não era uma simples correspondência, e sim a prova do erro que eu escondia por três anos. E Alice nunca me perdoaria se soubesse que eu traí sua confiança e menti por tanto tempo

Faltavam quatro estações e eu não tinha ideia de como pedir perdão pelo que tinha feito. E como dizer para a pessoa que você jurou amor e verdade, que todas aquelas promessas não passaram de palavras? Como conter o choro e o ódio eterno que ela sentiria por mim?

Eu pensava que o meu maior medo era de passar pelo vexame de ser descoberto e não ter chance alguma de me redimir com ela, e nem com todos os nossos amigos que saberiam da minha vergonha. E quando as quinze estações já tinham passado, eu corri até nosso prédio em uma última tentativa covarde de chegar a nosso apartamento antes de Alice.

Mas lá estava ela.

Com um vestido vermelho e com toda a maquiagem completa, a mesma que normalmente usava para jantar comigo às sextas. Sentada na portaria conversando alguma coisa sem importância com o síndico do prédio, enquanto ele ajeitava as malas de Alice para que ela pudesse levar as bagagens até o taxi que a esperava na rua.  Eu pude avistar em sua mão direita a carta que havia esquecido. Ela era inconfundível por causa das vários desenhos de pequenos corações vermelhos que a enfeitavam.

Nunca me esquecerei da sensação que passei naqueles poucos segundos. Ela me olhou de longe e esperou até que eu atravessasse a rua. Continuou a me esperar até que eu chegasse bem perto com a minha expressão de medo e incerteza. Olhou nos meus olhos com o olhar mais gelado que eu já vira na vida, e até com um leve sorriso acentuado pelo batom vermelho que usava naquela noite, ao me entregar a carta.

– Isso é seu… Está tudo bem, até logo – Ela disse, com uma voz que parecia tentar me acalmar.

Só assim percebi que eu podia ter medo de ser descoberto, e até tinha pavor de que o amor que ela sentia por mim se transformasse em ódio. Porém, o meu maior medo dentro daquela relação tinha finalmente se revelado, ao mesmo tempo em que a coragem de Alice se manifestou.

O meu medo de ser tratado com indiferença se tornou real e me levou à mais profunda solidão de um apartamento vazio, com gritos de culpa que ecoavam das paredes.

Já a coragem de Alice a levou em paz de volta para sua casa.

 

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davidhist92@gmail.com'

Sobre David

David é um professor de História que divide a sua vida em estudo, trabalho e diversão, necessariamente nessa ordem (mentira). Curioso e admirador da cultura urbana popular. Como bom carioca, ele gosta de se misturar em todo lugar que vai.