“A bailarina fantasma”, Socorro Acioli


Texto: Lorena Pimentel

Às vezes o personagem principal de um livro não é uma pessoa, é um lugar. Já que nosso tema de janeiro são os vínculos que nos unem, nada mais apropriado que a história de Anabela e o elo histórico entre ela e uma família antiga de Fortaleza: o Theatro José de Alencar.

Em resumo, Anabela é uma adolescente, filha de um arquiteto, Marcelo, meio viciado em preservar as coisas como elas são (aliás, história da minha vida). Eles vivem em uma casa reconhecida no bairro, que é mantida em sua forma histórica há gerações. Eis que Marcelo é contratado para fazer a revitalização do Theatro José de Alencar.

Para comemorar a revitalização, é encenada a peça Giselle. Anabela e sua amiga Luciana vão assistir ao espetáculo juntamente com Marcelo, e é aqui que nossa curiosa personagem avista uma bailarina azul, que parece estar voando. Ela é a única a notar a figura estranha, que se aproxima dela e tenta falar. Depois do susto, Anabela e Luciana investigam o local para entender mais sobre essa bailarina fantasma e encontram várias histórias diferentes.

O livro também conta, na forma de narrativas do passado, a verdadeira história dessa tal bailarina fantasma. Filha de um escocês que trabalhou na construção do teatro com uma brasileira, ela praticou balé naquele mesmo prédio durante toda sua vida. Clara, o nome da moça, era o destaque do teatro por sua beleza e graça na dança. O livro conta a história de amor entre ela e Gabriel, um aluno de piano dedicado, cujo pai insistia que as artes eram apenas hobbies e ele deveria estudar medicina. O teatro é parte essencial da vida dos dois, sendo palco de flerte, romance, esconderijo das famílias e, ao mesmo tempo, o local onde ambos cresceram e treinaram seus talentos.

O meu ponto favorito do livro é justamente esse: a conexão que ambas as personagens têm com o local físico. É interessante como o teatro foi peça-chave para a vida de Clara – seus pais se conheceram ali, afinal, e foi lá que ela cresceu -, mas 80 anos depois, Anabela tem a experiência de passar pelo mesmo espaço em sua vida completamente diferente. Acho que eu tenho um pouco da excentricidade de Marcelo, mas a ideia de que alguns lugares pelos quais passamos todos os dias foram cenário da vida de muitas gerações me fascina. De certa forma, só passar por ruas de nossa cidade, estamos vinculados a muitas outras histórias de muitas outras pessoas que passaram por ali ao longo do tempo. Quem sabe a casa antiga no bairro tenha sido palco de muitos amores ou aquela pracinha no centro tenha sido parte da rotina de alguém?

A única parte que não gostei tanto do livro foi que achei muitos personagens pouco desenvolvidos. É a história de Clara e seu amor por Gabriel, mas gostaria de ter lido mais sobre Anabela. Gostaria de ter lido um pouco mais sobre a família de Clara também, considerando o envolvimento deles com o teatro. Mas o romance é adorável e, digo isso como alguém que não lê muitas histórias de amor, é do tipo que te prende para saber o destino dos amantes que eram impedidos de amar por seu contexto. A história não é nada nova, mas o estilo da autora me prendeu durante todo o livro.

Outra parte bem legal é o arco do Gabriel. Ainda que não tenha tido tantas páginas dedicadas a essa questão na obra, o desenvolvimento de um garoto, filho de um médico rico que desvaloriza as artes, para ser um pianista aplicado é muito importante para a história. Isso também não é um arco novo, muito menos ultrapassado – pleno 2016 eu escrevo aqui e a gente sabe bem que aqueles que se dedicam à vida criativa são menos valorizados que os que seguem profissões tradicionais – , mas para mim, Gabriel é o personagem mais chamativo da história.

Sem contar que, né, estou em um projeto pessoal de ler mais livros nacionais e mais livros de mulheres, então caiu nas minhas mãos na hora certa checando ambas as caixinhas pra uma leitura mais próxima de mim. Eu acho que esse livro é bem fofinho e bem adorável, com referências legais ao passado do Brasil e um manifesto pela importância da arte e da cultura para as nossas vidas. Fica a recomendação, com a ressalva de que é bem focado em romance.

 

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@lorebpv) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.