A asa do mosquito


Ficara até tarde tentando escrever, sabendo do trabalho no dia seguinte. A escrivaninha era achatada, imprópria e improdutiva, um inferno a suportar. E o quarto mesmo um inferno: suor em bicas, razão perdida, onde estava a água? Pois suava, como indigna, e não havia meios modos na maneira indignante do suor se expressar. Frente, trás, lados, um terror. E o que fazemos nós diante de tanto terror? Escrevemos!

Escrever. Se era a tentativa um fato dado, o resultado nulo delas é a nova informação do fracasso. Por uma saraivada de turnos, entrou, sentou, redigiu, começou:

Mãe,

mas o saído saía mal fadado e sem destino. Não, há sim um destino! Que destino mais poderia ter? A pilha generosa de bolinhas amassadas se acumulando há duas semanas na escrivaninha. — Nessa noite, a pilha ganhou dez novas bolinhas. O ror de celulose ladeava um vidro de xarope; tomara uma dose, pouco acima do normal, antes de começar a escrever. O troço mais parecia mel, tinha certeza de ser algo japonês; só havia ideogramas no rótulo. Japonês, chinês, coreano não, porque os coreanos não usam ideogramas, disse a colega do serviço. Usam o quê, então?

Liebe Grüße,

Eva despertou — se se podia chamar aquele abrir de olhos de despertar, ele era isso. Com rigor, tudo não passou de um acender de abajur. E aí, passou ao afastamento do lençol; atirou-o ao chão, levantou-se. Os papéis e o vidro vazio do xarope estavam intactos onde os deixara; procurou decidir qual deles foi o responsável pela noite insone — até onde sabia, os xaropes tinham propriedades soníferas. Ou algo tinha se perdido no caminho, eram tão ruins os tempos que nem os xaropes davam mais que dormir? A coisa era muito doce. Decerto havia lhe deixado agitada, como faz uma droga. Das mais pesadas, é tipo anfetamina. Essas coisas todas se vendem em drogarias; pela mãe das lógicas, essas coisas todas então são drogas.

O ar ganhou uma intenção, uma tensão e uma tessitura. Com efeito, ela já vinha, pés-pés, margeando as áreas oprobriosas do quarto. O que, em geral, eram todas. Dano é viver num lugar tão quente e tão pequeno. E a mudança, viria? Não por ora. E o sonho: não pelo pagamento garantido pelo salário, e é isso, e onde está o celular? Aqui, bem acima da escrivaninha, escondido por entre a pilha de bolinhas, reencontrou o aparelho. Deu o flip, viu na tela a ausência de mensagens recebidas ou ligações perdidas.

Veio à janela entreaberta, um fraquejo de luz entrando pela fresta. Não quis nem olhar para o céu, porque a tela já tinha por demais de céus. Selecionou o contato na lista, mas o fez em nome da preguiça de digitar os números. Sabia-os de cor. Fora, na fresta, apareceu ele. Mas, ora, o viciadinho de novo? Havia esse pentelho que ficava ali perto da esquina, um moleque, sempre de touca e luvas, esperando pelo traficantezinho marginalzinho do prédio. Será que esses porras não tinham família? Observou toda a ação: o maluco do prédio vinha, entregava um pacotinho ao doido, recebia e vazava. Perfeito, rápido, sem traumas. Eva chegou a esquecer de ligar — viu a tela ali, já preta. Apertou qualquer tecla e, bom, talvez não precisasse ligar agora. Fez foi fechar a janela e o celular, voltar e deixar o aparelho na escrivaninha.

Caminhou, os pés descalços no carpete, ao banheiro. Fechou a porta sanfonada, mesmo sem encontrar motivos para fazê-lo, sozinha como era no apartamento das solitudes. Fechar, porque, porque… porque sim! O reflexo no espelho, além da escova e da pasta de dente, lhe admoestava que dormisse e não mais acordasse, pleiteando em favor da expressão cansada, abatida em seu rosto. Ao espelho, descobriu o suor resultante das últimas horas, não dormidas.

Após enxaguar a boca, tirou as roupas e as jogou acima do vaso sanitário tampado. Entrou no box sem cerrá-lo, e acionou o chuveiro. Não demorou ao banheiro parecer uma lagoa, faltavam só os patos, os sapos e os insetos. Eva, deslizando o sabão da barriga para a virilha, e da virilha para o chão, desviava quando a água parecia muito quente, e retornava quando lhe sobrevinha uma ponta de frio. Por esse remoque, sentou-se no chão, deixando a água bater nos cabelos, se contraída, ou nas coxas, se relaxada. No chão, onde o cansaço tinha a soberania da manifestação, sentava-se porque cansava-se. Não via muito na claridade baça das seis da manhã invadindo o banheiro — luzes apagadas — por uma janelinha. Quis não pensar coisa alguma durante todo esse processo.

Olhou para essa mesma janelinha por alguns minutos, piscando tantas vezes quantas se mexia. Às seis da manhã, é tudo meio azul… o sol não veio ainda, mas tampouco há escuridão. Talvez seja um pouco cinza, também, mas principalmente azul: o céu, os prédios, as pessoas. Não é possível falar dos pássaros; não os há na cidade, mata do concreto armado.

Enquanto Eva fitava o ar, veio da janelinha um mosquito buliçoso, célere, voando de cá para lá com a liberdade do vento, provavelmente espreitando mil cantos em simultâneo, com aqueles tantos olhinhos, ou dois olhos subdivididos. Ela nunca fora exemplar em Biologia. E qual a finalidade de ser, mesmo? Era passar de ano e pumba. A Biologia explica o que é um mosquito, agradeçamos a ela e lhe desejemos uma boa tarde. O mosquito em si nem se apoquentava com essas conjecturas — mal a notava. Só queria saber de voar em círculos e semicírculos, valendo-se da penumbra.

Eis, então, que o mosquito foi atingido pela queda d’água, Eva o viu. O minúsculo corpo caiu no azulejo, e foi arrastado ao ralo. Ela lamentou pelo trágico destino; pensou em lhe fazer um velório de dois minutos. Dois minutos a mais para ficar embaixo do chuveiro, em solidariedade ao mosquito assassinado de forma brutal pela água impiedosa. Era delito, homicídio doloso, formação de quadrilha pelas gotas. A água era mesmo essa vilã terrível, pois nem de Eva tinha compaixão, fustigando seu corpo com excesso de quentura ou gelidez.

Eva cumpriu seus dois minutos de luto, e resolveu-se a abandonar o chuveiro. Ergueu-se, não rapidamente, mas com a fadiga dos relapsos, dos estruturalmente falhos. Estava perto de girar a torneira, quando descobriu, grudada na parede úmida, a asa do mosquito morto. Incrível e intrigante o modo como o mosquito perdeu a asa — como? Apoiou o braço na parede e aproximou-se do que sobrou à luz do serelepe bichinho cujo crime foi lhe roubar tempo. Aqui é a capital da meritocracia: o tempo não se rouba: se conquista! Afastando os cabelos da fronte, fixou os olhos no membro avulso.

Recordou-se de uma fábula contada, ainda na infância, pela avó, e repetida com variações e adaptações pela mãe. Ambas as versões lhe foram narradas à exaustão, de maneira à história, em sua cabeça, ter um quanto das duas.

Havia na comunidade dos mosquitos um jovem mosquitinho indeciso. Ele, diferente de seus irmãos, não gostava de pilhar sangue dos homens e morar em lugares escuros. Em contrapartida, também não desejava ser excluído da família.

O mosquitinho, a bem da verdade, queria era viajar, conhecer todos os campos e paragens, fazer novas amizades, e viver trocando de casa, dormindo nas flores. Depois, viria relatar essas aventuras aos irmãos; eles ficariam maravilhados e o admirariam. Só de imaginar esse cenário, o jovem entrava em êxtase profundo, abobava-se.

Por isso, escondia-se. Enganava os seus iguais, dizia estar saindo a tirar sangue, quando, na realidade, voava por aí, sem atacar ninguém, evitando sempre alguém, à periferia toda dos postes de luz, onde haveria conhecidos. Vez ou outra, trombava com um marimbondo mal encarado, a lhe meter medo, e o fazer zunir de volta para casa. Terminavam por lhe fazer perguntas, por que voltava tão cedo, por que respondia mal, por que respondia.

Por ocasião de outra dessas escapadas inexplicadas, o mosquitinho recebeu um ultimato do pai: ou ele tratava de voar com o grupo, a sair pelo sangue, ou seria expulso da comunidade, com uma pata na frente e outra atrás.

O mosquitinho entrou num dilema — dilema logo a se tornar crise. Desapareceu da comunidade, pôs-se a vagar pelas redondezas, para além delas, e mais além, chegando a regiões abundantes em árvores, flores, luz diurna. Encontrou uma colmeia e passou a espiá-la, curioso. A todo momento saíam de lá abelhas apressadas, empenhadas no serviço do pólen. Reparou no riso alegre de todas elas.

Uma abelhinha jeitosa o avistou de longe, em vigília, e veio ter com ele, perguntando-lhe se gostaria de um pouco de mel. O mosquitinho aceitou de bom grado, e ela o conduziu à colmeia, onde foi muito cortesmente recebido. Provou do mel e se encantou com o sabor, tanto quanto se encantou com a abelhinha. Ela o convidou a retornar no dia próximo, seria novamente acolhido com imenso prazer, poderia tomar mais um bocado de mel. Ele anuiu extático e partiu prazenteiro.

No dia posterior, ao tornar à árvore da colmeia, não conseguiu achá-la. Procurou em todas as demais árvores, mas estava certo de não se enganar quanto à localização. Obteve a resposta à questão logo na sequência: um grupo de garotos, cobertos dos pés à cabeça com roupas grossas, panos e óculos escuros, batia na colmeia caída com tacos de madeira. Outros dois tratavam de lançar inseticidas sobre o bando de abelhas que os atacavam furiosas.

O mosquitinho se decepcionou com a cena. Quedou-se deprimido, a felicidade um vão no espírito, um sopro forte a favor da corrente. Tornou a vagar a esmo, sem rumo definido, até finalmente decidir voar de volta para seu bando.

Quando chegou da jornada, o mosquitinho escutou do pai dezenas de reprimendas e sermões sobre compromissos e encargos, a que se são necessários e ótimos, pois sim senhor, agora não me venhas às fugidias, era tudo uma matéria de responsabilidade-bz-bzz-bzzz. O mosquitinho declarou, então, se unir, dali em diante, ao grupo em suas atividades, e isso incluía picar os homens e beber o sangue. O anúncio foi recebido com festa, e o líder dos mosquitos decidiu dar início a uma maratona de sangue: todos os membros da comunidade sairiam a picar os homens e se empanturrar.

Destarte, todos os mosquitos do grupo voaram junto do vento; o mosquitinho incumbido da missão de extrair a maior quantidade possível de sangue.

O mosquitinho não sabia se estava pronto, mas achava-se prestes a se tornar um legítimo mosquito.

Eva não levou em consideração, aqui, o fato de apenas as fêmeas dos mosquitos serem responsáveis por picar humanos. Esse conhecimento não fora adquirido em qualquer aula de Biologia — viera com a vida. Mas, importa se são fêmeas ou machos, afinal de contas? Sempre aporrinham, sempre incomodam, fazendo aquele ruído enlouquecedor. E são mortos, depois de algum sacrifício nosso, chineladas no ar e manchas de sujeira em paredes brancas. Exceto o mosquito do chuveiro: ele era de alguma valia e fino sortilégio. Tanto tomou, o beberrão, que morreu afogado…

Girou a torneira. Lembrou-se de haver colocado a toalha para lavar, e se esquecera de tomar outra antes de entrar no chuveiro. Saiu de lá, molhada como estava; abriu a porta sanfonada, atravessou o quarto, e buscou uma toalha no armário. Uma área considerável do carpete foi molhada, poças intermitentes aqui e ali, um marrom mais marrom no chão. Logo, logo vão surgir cogumelos, já veio aquele bolorzinho no canto. Mas, ai, ao menos o estrogonofe ficaria mais completo.

Enfim, secou-se, e pôs uma roupa escolhida no momento: camiseta amarela, calça de sarja preta e sapatilhas. Foi à lavanderia e estendeu a segunda toalha no varal. O sol assomou discreto no horizonte, transformando a manhã azul numa manhã laranja. O dia, é provável, começaria de verdade com o ônibus lotado, com os celulares no volume máximo, tocando músicas de toda sorte e gosto, todas possíveis de se escutar longe dos fones de ouvido, se os há — se os há! Isso fora o som do próprio ônibus, e dos outros ônibus nas avenidas cosmopolitas. Tédio; o metrô, como estaria?!

Eva escutou o celular tocando por entre a celulose-lixo. Veio buscar o aparelho, flip!, e a tela irrompeu com o céu artificial, promulgando o eia do toque. O toque era então assim, uma sucessão de eias, um estapafúrdio toque, sem dúvida. Falta a partitura a demonstrá-lo. Vibrava também, parecia desfibrilador — falta o tato a apresentá-lo. Fato, na tela vinham os dizeres:

 

Pai

(XX) X XXXX XXXX

Aceit. Viva-voz Rejeitar

 

Eva cerrou o flip em atitude muda. Levou-o consigo à sala, estranhamente fazia frio. E a blusa? Sem blusas por hoje. E ela? Se a carta não foi escrita, se não há e-mail a contatar nem computador para contatar, paciência. Façamos como o viciadinho: sigamos. E Eva seguiu, após alterar o nome Pai para Sr. Friedenschild.

O celular foi parar dentro da bolsa. Antes de deixar o apartamento, vislumbrou por um instante a sujeira a ser largada para trás, no quarto, no banheiro. Suspirou — teria de limpar tudo quando voltasse. Ou talvez amanhã, porque essas coisas esperam: não se deve fazer o hoje quando o amanhã é eterno, coisa assim. Enquanto isso, o sol raquítico ainda se escondia, quase na totalidade, por entre as nuvens e a cortina da sala, fazia luz inábil ao mundo. A previsão do tempo de ontem indicara uma temperatura batendo na casa dos 26ºC, mas nada parecia confirmar as expectativas. Nem fodendo faria 26ºC.

Tirou ainda três minutos para pentear os cabelos e tomar uns goles de um café velho, sem açúcar. Pois bem. Por fim, tomou a bolsa, e partiu.

 

Gabriel George Martins nasceu em 1995, na cidade de São Paulo. Passou mais de uma década mudando de casa, de escola, de amigos — de vida. Hoje as coisas não parecem tão diferentes… Apesar disso, cursa sua graduação em Letras na Universidade de São Paulo, enquanto procura manter o estado das coisas.

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