A árvore do nosso quintal


Era estranho voltar para casa depois de tanto tempo. Nada estava igual, com exceção da árvore no quintal. O outono derrubou as folhas alaranjadas que se quebravam sob os pés da jovem que ia em direção a porta. Em baixo do capacho, uma pequena chave amarela meio enferrujada se contrastou ao chão de madeira.

Por dentro, a casa tinha um leve cheiro de mofo. A luz entrava pelas janelas e a mulher observou as partículas de poeira dançarem. Os degraus para o segundo andar pareciam ranger de forma diferente do que ela se lembrava.

Lá em cima, encontrou o quarto da mãe. Como alguém que fizera aquilo mil vezes na vida, ela puxou com força as maçanetas das portas do guarda-roupa. Ao repartir o conjunto de cabides no meio, ela a viu. A caixa amarela, rasgada e bastante velha. Dentro, apenas quatro folhas de papel: uma certidão de casamento, uma de nascimento, a escritura do terreno e a nota fiscal de um viveiro de mudas.

***

– Eu não entendo como você pode estar mais preocupada em encontrar uma droga de viveiro nessa droga de cidade do que se preparar para sua conversa com a chefa mais tarde.

– Que você não entende eu já sei. – Disse a mulher, sem tirar os olhos da lista telefônica em seu colo.

– Não é justo! Nosso combinado não foi esse. O acordo era sermos duas biólogas solteironas, viajantes e aventureiras para o resto de nossas vidas. Esse é o emprego dos nossos sonhos. Ou você já esqueceu disso?

– Claro que não. Mas é que… As coisas mudaram. – Ela fechou o grande livro amarelo e o colocou de lado. – Se você fosse mesmo minha amiga, me apoiaria.

– Que droga, Margô! Você sabe que eu sou. É só que essa história toda é difícil de engolir. Depois de três semanas aqui, você simplesmente acorda um dia e decide que não vai mais embora, deixando de lado tudo que havíamos planejado.

– Lina, desculpe não conseguir explicar o que aconteceu. Simplesmente aconteceu.

A outra levou a mão à têmpora e parecia finalmente cansada de argumentar.

– Não, você me desculpa por estar agindo assim. Foi repentino, sim. Mas, você sabe que eu sempre serei sua amiga. Mesmo que isso signifique que nunca mais nos veremos.

– Como você é dramática! – Margô deu um soco de leve no braço de Lina. As duas sorriram. Estava tudo bem.

***

Com a caixa amarela em mãos, a mulher voltou para o quintal em frente à casa. Puxou o celular do bolso para confirmar o horário combinado por mensagem. 16h. “Não é um atraso tão significativo, afinal”, ela disse a si mesma. De repente, uma voz vinda de trás a assustou.

– Você é Janeth?

– Sim. – Ela tentou sorrir. – Mas todo mundo me chama de Jan.

– Prazer, Lina. – A mão pendia em frente ao corpo. – Meus pêsames.

– Obrigada. Você quer entrar?

Dentro da casa, Lina parecia observar todos os detalhes, como se fosse a primeira vez que entrara ali.

– Eu te ofereceria um café, mas honestamente não sei onde ela guardava as coisas. – Jan sentiu as bochechas corarem.

– Tudo bem. Eu não tenho mesmo muito tempo. Você já sabe como vai ficar a programação do coletivo?

O rosto agora era do mesmo tom de vermelho de um pimentão. Não fazia a menor ideia do que Lina estava falando. – Desculpe… Eu não… – Ela gaguejou.

– Quer saber? Não tem problema, querida. Eu sei que vocês não se viam há bastante tempo. Ela queria que eu e você estivéssemos aqui, agora.

As duas se olharam com ternura. Mesmo sem se conhecerem, sentiam que algo forte as conectava.

– Então, como você e minha mãe se conheceram?

***

– Espero que ele saiba que você não está fazendo isso por ele.

– Ele sabe, acredite em mim. Eu deixei claro que não quero apressar as coisas. Uma decisão não tem absolutamente nada a ver com a outra. – Margô parecia excessivamente séria. As duas andavam por uma rua estreita e cheia de árvores.

– Eu sempre sonhei em ter uma família, sabe. Achei que viver na estrada seria a solução para eu não me sentir sozinha. Mas, por todo esse tempo, eu apenas me enganei. Eu preciso disso, Lina. De verdade. E acho que ficar aqui será o primeiro passo de uma nova grande aventura.

– Eu sei. – A amiga sorriu. – Ei, parece que chegamos.

A casa era um pouco diferente do que a dona descreveu. Parecia mais antiga, com uma sala enorme, mas quartos pequenos demais. A cozinha era revertida por lajotinhas encardidas e o banheiro era todo amarelo. O quintal à frente do terreno se estendia como um grande tapete verde e felpudo.

– É perfeita. – Concluiu Margô.

***

– Como você se sentiu quando ela tomou a decisão de ficar aqui? – Jan ouvia a história com atenção.

– Foi repentino. Eu não entendia o porquê de ela ter escolhido esta cidade. Pensei que poderia ter algo a ver com o seu pai, mas eles se conheciam somente a algumas semanas. Ela era responsável demais para tomar uma decisão tão grande por um caso. Mas, vai ver ela sentiu que ele era o “escolhido”. Sei lá. Nem sei se acredito nessas coisas.

– Você voltou aqui alguma vez depois que ela comprou a casa? Eu não consigo me lembrar de você durante minha infância.

Lina balançou a cabeça de forma melancólica.

– Eu continuei viajando. Trabalhando. Segui com o plano, sabe. Mas, me arrependo de não a ter visitado mais. De qualquer forma, todo o tempo que passamos juntas foi precioso.

– Tenho certeza que ela pensava da mesma forma. 

Ambas sorriam tristemente.

– Ela fez coisas realmente incríveis nesta cidade. – Lina soava orgulhosa. – Todo o trabalho voluntário das aulas e palestras. A fundação do laboratório. O coletivo que ajuda crianças carentes funciona de vento em popa, pelo que ouvi. Você ainda não sabe, mas sua mãe era muito amada por aqui.

Parecia que Lina falava de alguém que Jan não conheceu muito bem.

– Eu a vi uma vez. Antes de ela… Você sabe. No hospital. Ela estava diferente. Envelhecida. Mas continuava linda. – A voz de Lina ficou fraca.

Jan olhou ao redor da sala amarela. Uma fina camada de poeira cobria os quadros e porta-retratos. Ela se deu conta de que era domingo, dia em que geralmente a família se reunia para fazer faxina. De todas as tradições da mãe, essa era a que Jan mais sentia falta.

Lina interrompeu o devaneio.

– Você pode vir comigo aqui fora um instante?

***

– Você pegou a pá? E o adubo?

– Está tudo aqui. – Lina sacudiu a sacola enquanto Margô analisava atentamente o terreno.

– Acho que aqui está bom. – Disse ela apontando para uma área de terra e estendendo os braços para apanhar os materiais. – Eu tenho que fazer tudo certo para que a árvore sobreviva, cresça, floresça e dê frutos.

– Sim, e as raízes vão se espalhar por baixo da terra do seu terreno, até entupir todos os seus canos.

– Boba! – As duas gargalhavam. – Eu sei que vai valer à pena. – Margô murmurou baixinho para si mesma.

***

Lina conduziu Jan até a árvore do quintal.

– Sua mãe me pediu para te entregar isso. – O pedaço de papel retirado do bolso estava amassado. – Meu número de telefone também está aí. Qualquer coisa que precisar, me chame. Não se preocupe tanto, porque com o tempo tudo vai se ajeitar. Se cuide, querida. – Lina se inclinou e deu um abraço desajeitado em Jan. Depois, saiu rápido portão a fora.

Uma brisa leve bagunçou os cabelos de Jan. O outono daquele ano estava mais frio que o normal. A garota respirou fundo e apertou o pedaço de papel na mão. Apesar de o chão estar sujo e úmido, ela se sentou nas raízes protuberantes da árvore, com as costas rentes na casca do tronco.

Abriu o papel de vagar, e a logo reconheceu a letra.

“Minha querida pequena desbravadora,

desculpe ainda te chamar de pequena. É que toda vez que sonho com você, você é uma criança. Naquela época, você não parava de me perguntar sobre mapas, e fronteiras, e lugares, e localizações. Eu deveria ter percebido, desde cedo, que você não iria ficar em um só lugar por muito tempo.

Me desculpe também por não ter te contado sobre a doença. Eu não queria que você voltasse para casa por essa razão. Também não queria te preocupar. É que já sei que vou morrer em breve, meu amor. Eu tenho um sexto sentido para essas coisas, você lembra?

Crescer sem avós, tios, tias e primos maternos foi estranho para você. E, apesar de a família do papai estar sempre presente, ele se foi cedo demais. Por causa de tudo isso, hoje eu compreendo porque você escolheu ir embora.

Eu coloquei muitas expectativas em você. Queria que sua vida fosse diferente da minha, que você tivesse raízes. Mas, esqueci de me preocupar com o que você queria. Me perdoe por todas as brigas, e por todo o tempo que passamos sem nos falar. Agora isso tudo parece tão idiota!

Quando fico sabendo algo sobre você, me encho de orgulho. Por você não ter desistido do que queria. Por hoje viver da forma como quer. E, saiba que eu também vivi da forma que queria. E fui muito feliz.

Logo quando tomei a decisão de largar meu emprego e fixar residência aqui, eu plantei aquela árvore no nosso quintal. Ela cresceu junto com meu casamento com seu pai, junto com minha barriga quando você estava nela, e também junto com você. Ela sobreviveu à temporais, ventanias e até a um pequeno incêndio! Não vou te pedir para ficar com a casa. Mas, se você pudesse cuidar da árvore, significaria muito para mim. Quem sabe você não pega uma mudinha dela e planta em outro lugar, mais próximo de você? Seria bom.

Com amor,

mamãe.”

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