‘A arte de viajar’, Alain de Botton


Acho que não existe nada que represente tão bem a quebra de rotina quanto viajar para um lugar novo – ou, pelo menos, um lugar que você não está acostumado a visitar. Um lugar onde não existem ruas pelas quais você transita todos os dias, prédios em que você entra todos os dias, a sensação de familiaridade que os seus “caminhos da roça” oferecem.

Em A arte de viajar, Alain de Botton se propõe a explorar os motivos que levam as pessoas a viajarem, e por que, para muitos de nós, essa é uma atividade tão prazerosa. O livro é dividido em diversos ensaios não muito longos, que abordam as várias etapas da viagem, como o planejamento e a expectativa que surge com ele, a transferência até o destino escolhido, o próprio estar no local. Em cada um dos capítulos, o autor une uma experiência própria aos pensamentos de algum autor ou artista (Baudelaire, Flaubert e van Gogh, por exemplo) – e eventualmente até a Bíblia -, que chama de “guias”. Em meio às páginas de seus textos, encontramos diversas fotografias dos lugares visitados ou citados, obras dos artistas que guiam os capítulos e trechos escritos pelos autores que embasam as reflexões.

Se nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito da dinâmica desse anseio – com toda a sua empolgação e seus paradoxos – quanto o ato de viajar. Ainda que de maneira desarticulada, ele expressa um entendimento de como a vida poderia ser fora das limitações do trabalho e da luta pela sobrevivência.

Como costuma acontecer com obras que reúnem diversos ensaios, alguns são melhores e outros são piores. O ensaio que abre o livro, chamado “Da expectativa” é ótimo, e sem dúvida um dos mais interessantes. Nele, de Botton relata uma viagem que fez a Barbados, lugar que lhe parecera o paraíso durante o planejamento dela, mas que acabou não sendo tão agradável assim (muito disso, fica claro, por culpa do comportamento do próprio viajante). Como diz o autor, é mais fácil “vivenciar a fruição de elementos valiosos na arte e na expectativa do que na realidade”, porque elas não incluem os “períodos de tédio”, ou mesmo as nossas mais simples necessidades humanas (físicas e mentais), que sempre interferem na nossa experiência.

Outro capítulo que chamou minha atenção foi “Do sublime”, que traz passagens da Bíblia (o guia da reflexão é Jó) e busca explicar por que os “lugares sublimes”, como o autor chama (exemplificados ali pelo deserto do Sinai) nos atraem tanto.

Somos joguetes das forças que criaram os oceanos e moldaram as montanhas. Lugares sublimes nos levam gentilmente a reconhecer as limitações que, de outra forma, poderiam nos causar ansiedade ou raiva no curso comum dos acontecimentos. Não é apenas a natureza que nos desafia. A vida humana não é menos devastadora, mas são os vastos espaços naturais que talvez nos ofereçam o melhor e mais respeitoso lembrete de tudo que nos transcende.

Nem todos os ensaios do livro são tão bacanas ou abordam questões tão interessantes quanto essas, no entanto, e por vezes as conclusões tiradas a respeito da natureza humana a partir da análise do ato de estar diante de um penhasco, ou num trem noturno, soam um pouquinho como uma intelectualização exagerada, e um pouco forçadas. De um modo geral, esperava mais dos ensaios, ainda que o livro comece e termine muito bem, tendo alguns bons momentos no meio.A arte de viajar_capa_2

Uma ressalva é que a maior parte das viagens relatadas se dá dentro da própria Europa, e os destinos quase nunca são muito diferentes. As reflexões do autor sobre elas talvez soem mais interessantes para quem procura fazer viagens semelhantes para destinos semelhantes (em quartos de hotel dentro de cidades grandes e conhecidas, por exemplo). Imagino que os viajantes mais aventureiros não devam encontrar muito que chame sua atenção.

Mesmo assim, o livro tem alguns ótimos momentos, e é uma leitura fácil e fluida que consegue te levar a refletir um pouquinho sobre aquilo que talvez faça no automático, sem prestar muita atenção. Fora isso, as imagens (que são muitas!) presentes dentro dele são, em geral, muito bonitas e ocupam páginas inteiras, convidando o leitor a realmente parar e olhar para elas.

No final, o autor relata sua tentativa de, nas suas próprias palavras, “olhar ao [seu] redor como se nunca tivesse estado naquele lugar antes”, e essa empreitada gera frutos. Em meio à mais perfeita rotina, ele demonstra, se você comandar a si mesmo, pode perceber que ela não precisa ser ruim, e nem mesmo desinteressante. Só requer um esforço consciente de nossa parte para que aqueles lugares a que estamos acostumados (as ruas de sempre, os prédios de sempre, os caminhos da roça) possam mostrar o que têm a oferecer.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura – ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.