A arte de Neil e Amanda


Texto: Ariel Carvalho

 

“Neil, por que dói quando eu escrevo?”, perguntaram a Neil Gaiman em seu tumblr, há três anos. Ele respondeu: “Ou porque você está fazendo da forma errada, ou porque você está fazendo da forma certa. Depende da dor.”

Essa resposta, apesar de curta, é um bom exemplo de como Neil trata a sua arte e seus fãs. Ao acessar qualquer uma das redes sociais do autor, dá para perceber que ele fala de forma muito transparente a respeito de sua arte e seu processo criativo.

No twitter, recentemente, ele disse que queria escrever mais histórias do Batman, mas que não tinha a oportunidade.

Tanto Neil quanto sua esposa, Amanda Palmer, sempre foram extremamente sinceros ao falar de sua relação com a arte, como a produzem, e é essa sinceridade que faz com que nós, os outros artistas que a consomem, nos identifiquemos com o que eles criam.

Para começar, os dois têm blogs atualizados, onde falam não só do que criam, mas também apresentam novidades de suas vidas pessoais e profissionais. Através desses canais, fazem uma ponte interessante entre eles mesmos e os consumidores de sua arte.

Além disso, o casal é muito ativo nas redes sociais e, eu juro, eles não têm muito filtro com relação ao que falam. A franqueza reina, e não é raro vê-los respondendo perguntas de seguidores no twitter em horários aleatórios.

No caso de Amanda, talvez o mais importante para entender sua relação com a arte é atentar para o fato de que ela usa o Patreon. Patreon é uma plataforma criada pelo Jack Conte (do Pomplamoose, uma cria fantástica da internet) que permite que os artistas de diversos ramos estipulem preços a serem pagos pela sua arte. Esse valor pode ser mensal ou ser pago apenas uma vez; o que importa é que o artista sempre terá alguma quantia, e garante que só criará algo quando tiver esse financiamento.

E dá muito certo. Amanda não é estranha para as plataformas de financiamento alternativo: ela foi responsável por um dos crowdfundings mais bem sucedidos da história da internet, arrecadando mais de 1,2 milhão de dólares.

O resultado do crowdfunding foi o CD Theatre Is Evil que, além de ficar disponível para os financiadores, foi disponibilizado online de forma gratuita. O mais peculiar é que, mesmo assim, o número de vendas foi altíssimo. Mais uma vez, a sinceridade e a exposição fizeram com que o público sentisse vontade de ter o álbum físico.

Essa preferência por métodos não convencionais de distribuição é característico de Amanda e Neil. Além de optar pelo Patreon e Bandcamp, eles fazem campanha por livrarias independentes e Neil é um defensor de não comprar o livro, mas ler em bibliotecas.

Se cercando de gente criativa como Ben Folds e Courtney Barnett, os dois sempre divulgam a arte daqueles com os quais colaboram, o que faz com que seus fãs conheçam novos artistas e novas artes.

Não há pretensão quando Amanda Palmer e Neil Gaiman se propõem a falar de arte. Seus discursos não afirmam que eles são melhores ou maiores do que qualquer um de nós por serem bem sucedidos em viver de arte. Quando você lê ou vê o casal falar de arte, acredita realmente que deve doer quando Neil escreve, você não é o único. Como Amanda bem disse, “a arte nos abre”.

Neil e Amanda falam mais sobre sua arte em “A Arte de Pedir” e no discurso “Faça Boa Arte”.

Amanda Palmer e Neil Gaiman são praticamente o Brangelina do underground. Ele, um autor renomado e conhecido mundialmente por coisas fantásticas como a série de quadrinhos Sandman e o livro Coraline. Ela, uma cantora, ex-vocalista de uma banda incrível de indie circense.

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Sobre Ariel Carvalho

Ariel é uma lua de Urano, um espírito do ar, um sabão em pó, uma marca de carro e uma pequena sereia, mas também é uma bibliotecária carioca que não consegue terminar a meta de leitura, sabe tudo de Monty Python e chora com filmes de ficção científica.