“A Amiga Genial”, de Elena Ferrante


“A vida era assim e ponto final, crescíamos com a obrigação de torna-la difícil aos outros antes que os outros a tornassem difícil para nós”

Quando crianças, temos zero filtro. Já repararam? Falamos o que vem à mente sem pensar se vamos ferir alguém com aquelas palavras, nossa reação imediata ultrapassa qualquer limite. Talvez por isso a vida seja tão fácil e digna de disfrute nesse período. Aproveitamos o modo “causa sem pensar na consequência” ao máximo, antes que a vida adulta nos dê uma generosa dose de amargor. Surge então Elena Ferrante e seu A Amiga Genial, que reconstrói toda essa transição da fase “sem filtro” até chegar aos percalços da idade avançada. A narradora é Elena Greco, Lenu para a melhor amiga. O livro começa com uma ligação de Rino, filho de Rafaella Cerullo, a Lila. Sua mãe desapareceu sem deixar um vestígio sequer. Na cabeça do moço, sem dúvidas a melhor amiga de Rafaella saberia de seu paradeiro.

Lenu conhece bem a personalidade da amiga e não se surpreende com o sumiço tão bem arquitetado, mas resolve pegar o acontecimento como oportunidade para remontar o passado e contar a história de ambas. Isso tudo, claro, motivada mais pela raiva que pela nostalgia – impressionada com a capacidade da amiga de desaparecer de um modo tão impecável e sem deixar rastros.

A primeira parte da Série Napolitana saiu no Brasil pelo selo Biblioteca Azul, da Globo Livros, com uma tradução (felizmente!) cuidadosa de Maurício Santana. Nas primeiras páginas minha sensação era de estar em uma espécie de reality show – muitas informações e detalhes, várias câmeras simultâneas para acompanhar. Sem nem saber quais eram os pontos mais importantes. Não é um ponto negativo, pelo contrário. Nos faz adentrar ainda mais na história e querer acompanhar cada “episódio”.

Na primeira parte, conhecemos a infância de Elena e Rafaella, que prossegue até a adolescência e o início da vida adulta, presentes na segunda parte. Aí está a importância da “falta de filtro”. Elena reproduz o mundo como o vê, sem interpretá-lo antes e entregar mastigadinho ao leitor. Por isso é tão interessante observar a forma como as meninas vão decodificando esse universo. Parece existir um ódio gritante de Elena com relação à perfeição de Rafaella no começo – Lila é destemida e audaciosa, não tem medo do perigo. É brilhante, sempre se destaca na escola, parece estar um passo adiante em qualquer situação. Pode até parecer um belo Gossip Girl requintado, onde todo mundo é muito amiguinho mas se destrói pelas costas, mas não, nossa amiga Ferrante transpõe esse conceito sem pestanejar.

Ela insere algo de muito humano no cotidiano dessas meninas. No decorrer da história, observamos as duas se desafiarem, ainda que indiretamente. O progresso de Lila na escola e na vida estimula Lenu a querer ser tão boa quanto ela. Quando Lila precisa interromper os estudos e a amiga segue adiante até concluir o liceu e o ginásio, ela se antecipa para aprender grego e latim por conta própria a fim de ajudar Lenu.

“Era como se, por uma magia malévola, a alegria ou a dor de uma implicasse a dor ou a alegria da outra”

No início do ano, me inscrevi em um curso de escrita criativa durante meu intercâmbio na França. Imaginem a loucura: criar três textos do zero, na hora, em uma língua que não é a sua. Ainda assim terminei me divertindo, até o dia em que iniciamos uma série de atividades sobre construção de personagens. O físico ganha forma com facilidade – descrever uma pessoa, ainda mais criada na nossa mente, é um exercício livre e tranquilo a ser feito. Agora vá tentar inserir a personalidade sem se limitar a dizer “Fulano é orgulhoso”. Parece tolo, não? Porém longe de ser banal, esse é um dos aspectos mais cativantes da literatura de Ferrante. Tudo começa de um modo tão inocente, dando o contexto, comentando o cotidiano do bairro como quem escreve um diário. Até mesmo a apresentação inicial dos personagens é limitada, o que te faz perder MESMO a noção do que esperar. Todos são identificados pelos sobrenomes e por suas profissões, como “o padeiro”, “o sapateiro”, sempre ligados às suas ocupações. Então o enredo ganha forma e quando nos damos conta estamos embasbacados com a riqueza de detalhes, como se aquelas pessoas todas fizessem parte do nosso cotidiano e estivéssemos vivendo na Nápoles da década de 1950.

Pois bem, contextos sociais e históricos não aparecem como um pano de fundo insignificante só para situar os acontecimentos – são pontos que enriquecem, e muito, o texto. Acompanhamos a sequência pela perspectiva de Elena, uma criança, que aos poucos chega à adolescência e começa a encaixar as peças do quebra-cabeça de seu bairro. Uma região pobre, violenta, pós-Segunda Guerra Mundial, e com indivíduos envolvidos com a máfia e o mercado negro. Não por acaso a primeira parte, “História de Dom Achille”, é um acúmulo de percepções e hipóteses, em que a narradora procura entender o motivo de tanto temor por ele. Isso passa a ser compreensível na segunda parte, quando Lenu toma conhecimento do envolvimento de Dom com o mercado negro.

Uma sociedade onde seu valor é medido pelo fato de possuir um carro de grande porte ou ser dono de uma vendinha. Ademais, até pela questão já mencionada de Lila não ter dado continuidade aos estudos, é uma sociedade extremamente machista e conservadora. Seu pai, “o sapateiro”, não dá o braço a torcer em hipótese alguma e quer ver o mundo girando segundo sua cartilha. Quando Lila e o irmão pensam em criar um novo modelo de sapato, ele é o primeiro a tomar a ideia como ofensa.

Chama atenção o fato de ser um pseudônimo e nem termos conhecimento da identidade da autora, de ser o primeiro volume de uma tetralogia e por isso terminar com aquela sensação de curiosidade latente pelas edições seguintes. Só parece meio errado prender-se tanto a esse mistério tendo um enredo tão rico em mãos. Agora só nos resta aguardar pelo que ainda será lançado, mantendo a cabeça no lugar para não destruir os cantos das unhas de curiosidade pelo que pode acontecer a seguir.

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Sobre Lidyanne Aquino

Lidyanne nasceu no Mato Grosso do Sul (isso mesmo, DO SUUL!), tem 25 anos, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero e terminou gostando desse caos que é São Paulo, de onde não saiu mais. Abandonou a juventude por não gostar nada de virar a madrugada na balada, mas já guardou a última mesa do bar porque conversa demais. É doente por literatura e cinema, cultiva e incentiva a prática sempre com uma boa trilha sonora de fundo. E curte muito escrever e brisar sobre essas coisas todas.