7 poemas eróticos brasileiros


Texto: Bruna Kalil

Quando falamos de literatura erótica, precisamos, antes de tudo, definir o que é o erotismo. Peço ajuda a Georges Bataille, escritor francês que perseguiu o êxtase em toda a sua obra, tanto teórica – “O Erotismo”, relançado pela Autência em uma edição lindíssima – quanto literária – “História do Olho”, romance ousado sobre perversões sexuais. Entre as suas tentativas de postular o que seria o erotismo, Bataille pensa nele como “a aprovação da vida até na morte” (O Erotismo). Lucia Castello Branco, professora da UFMG e também estudiosa do tema, afirma que “(…) o erotismo é sempre essa pulsão angustiante e corajosa em direção ao desconhecido, essa viagem possivelmente sem retorno, esse espaço negro em que nos lançamos em busca do que não sabemos. (…) o erotismo não como mera fruição da sexualidade, ou como o gozo sexual propriamente dito, mas antes como a ânsia do absoluto, da fusão com o outro e com o universo, que fatalmente desemboca no êxtase erótico-místico” (A Mulher Escrita).

Tendo esses conceitos em mente, selecionei seis poemas brasileiros eróticos, publicados em diferentes épocas, que dizem o não dito, que seduzem, que fascinam, simultaneamente omitindo e expondo. Ei-los:

 

“O ELIXIR DO PAJÉ”, DE BERNARDO GUIMARÃES (1825-1884)

Sim, é isto mesmo que você leu. O autor de “Escrava Isaura”, em pleno século XIX, escreveu um poema muito polêmico sobre um elixir indígena que curasse brochadas, na época, publicado sob pseudônimo. O poema é longo, copio aqui apenas um trecho, mas pode ser lido de forma integral neste link

Eu te adoro, água divina,

santo elixir da tesão,

eu te dou meu coração,

eu te entrego a minha porra!

Faze que ela, sempre tesa,

e em tesão sempre crescendo,

sem cessar viva fodendo,

até que fodendo morra!

Sim, faze que este caralho,

por tua santa influência,

a todos vença em potência,

e, com gloriosos abonos,

seja logo proclamado,

vencedor de cem mil conos…

E seja em todas as rodas,

d’hoje em diante respeitado

como herói de cem mil fodas,

por seus heróicos trabalhos,

eleito rei dos caralhos!

 

“PARTICULARIDADES”, DE GILKA MACHADO (1893-1980)

Gilka Machado foi uma importante poeta brasileira, precursora da literatura erótica escrita por mulheres. Com o seu trabalho revolucionário, se tornou um marco de resistência numa época em que o desejo feminino era tratado como tabu.

Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo,

os meus gostos crimino e busco, em vão, torcê-los;

é incrível a paixão que me absorve por tudo

quanto é sedoso, suave ao tato: a coma… os pelos…

Amo as noites de luar porque são de veludo,

delicio-me quando, acaso, sinto, pelos

meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo

em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.

Pela fria estação, que aos mais seres eriça,

andam-me pelo corpo espasmos repetidos,

às luvas de camurça, aos boás, à pelica…

O meu tato se estende a todos os sentidos;

sou toda languidez, sonolência, preguiça,

se me quedo a fitar tapetes estendidos.

 

“EM TEU CRESPO JARDIM, ANÊMONAS CASTANHAS” e “O CHÃO É CAMA PARA O AMOR URGENTE”, DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (1902-1987)

Nem todo mundo sabe, mas Drummond possui um livro de poemas eróticos, “O Amor Natural”  (1992). Publicado postumamente, demonstra que o poeta não estava seguro em mostrar ao mundo a sua face mais sensual. Como são poemas curtos, selecionei os dois que mais gosto:

Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas

detêm a mão ansiosa: Devagar.

Cada pétala ou sépala seja lentamente

acariciada, céu; e a vista pouse,

beijo abstrato, antes do beijo ritual,

na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.

 

O chão é cama para o amor urgente,

amor que não espera ir para a cama.

Sobre tapete ou duro piso, a gente

compõe de corpo e corpo a úmida trama.

 

E para repousar do amor, vamos à cama.

 

“DO DESEJO I”, DE HILDA HILST (1930-2004)

Hilda Hilst foi a nossa maior escritora erótica, me arrisco dizer. Poeta, romancista, contista, cronista, dramaturga, e excelente em todas as suas faces, ela fez uma literatura que chocou a sua época. Hilda confundiu os limites entre erótico e pornográfico, quando escreveu a polêmica trilogia pornô na década de 1990, tratando de temas como a prostituição infantil – “O Caderno Rosa de Lori Lamby” –, e incesto – “Cartas de um Sedutor”.

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.

Antes, o cotidiano era um pensar alturas

Buscando Aquele Outro decantado

Surdo à minha humana ladradura.

Visgo e suor, pois nunca se faziam.

Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo

Tomas-me o corpo. E que descanso me dás

Depois das lidas. Sonhei penhascos

Quando havia o jardim aqui ao lado.

Pensei subidas onde não havia rastros.

Extasiada, fodo contigo

Ao invés de ganir diante do Nada.

 

“MADEMOISELLE FURTA-COR”, DE ARMANDO FREITAS FILHO  (1940- )

Armando, muito conhecido como amigo e parceiro de Ana Cristina Cesar (1952-1983), dedicou grande parte da sua vasta obra à poesia erótica. O poema que escolhi faz parte da série “Mademoiselle Furta-Cor” (1977), que narra uma longa experiência sexual.

Eu conheço o seu começo:

                ponto e novelo,

meada de mel e langor

                 de lentos elos

que a minha língua lambe

          no calor despido,

no meio das suas pernas:

         anéis de cabelos,

anelos e nós se desmancham

      em nada ou nódoa

por todo o lençol do corpo

           nu e amarrotado:

nós aqui somos todos laços

             e nos rasgamos

devagar – poro por poro;

           rumor de sedas

ou de uma pele toda feita

  de suor e suspiro:

eu soluço a cada susto seu

    que nos dissolve.

 

“LUGAR”, DE SIMONE TEODORO (1981- )

Para fechar a lista, nada melhor do que trazer uma poeta contemporânea, que tem se destacado em Minas Gerais. Simone Teodoro, representante da novíssima geração belorizontina, já é autora de dois livros de poesia – “Distraídas Astronautas” (2014) e “Movimento em Falso” (2016), ambos pela editora Patuá, de São Paulo.

Aqui

onde foi abolido o hímen

úmido hífen

 

Aqui

onde a língua é dinâmica

e dedos são talheres

 

Aqui

onde o grelo

destrona o falo

 

É rijo

É lindo

É talo

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Sobre Bruna Kalil

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento. http://brunakalilothero.weebly.com/