Horas livres ou (a inesperada realidade da vida)


Se você nasceu em uma família de classe média nos anos 90, provavelmente passou todos os anos da educação regular tendo um objetivo: entrar na faculdade. Não importa o que você aprendeu, o que gosta ou que pretende fazer, passar no vestibular é visto como uma espécie de nirvana para os adolescentes na nossa geração.

Quando chega o ensino médio, a coisa fica mais séria. Entrar na universidade deixa de ser um objetivo e se torna uma obsessão; a tão temida prova sai das salas de aula e envolve praticamente todos os círculos sociais, desde os amiguinhos da escola até aquela sua tia que, até então, só queria saber dos namoradinhos – pois bem, e os vestibularezinhos? Que curso vai fazer?

Acontece que adolescentes têm outras metas porque, bem, entre um simulado e outro às vezes sobra tempo para sonhar um pouquinho. Algumas pessoas (normalmente os escolhidos para se tornarem gente de humanas em alguns anos) gostam de escrever e, depois de receber uma boa nota em redação, percebem que são boas nesse negócio.

O grande problema é que muitas vezes escrever torna-se uma obsessão. Enquanto o professor de Física está lá dando dicas de como resolver questões sem realmente dominar a matéria, esses aspirantes a escritores começam a rascunhar textos onde deveriam estar cálculos, porque nada parece muito importante.

Na hora de decidir o que fazer nos próximos quatro anos, caem no grande abismo das Humanas – Letras, Comunicação e Jornalismo são alguns exemplos de cursos escolhidos porque, ei, quatro anos ganhando nota para escrever! Parece o paraíso, não é?

A ilusão não costuma durar mais do que dois meses nos corredores da morte desse lugar destruidor de sonhos que normalmente chamamos de universidade. Com uma carga impossível de teorias para ler e slides infinitos para seminários, o tempo que costumava ser reservado para a escrita livre vai ficando cada vez menor. As horas livres do dia servem para dormir ou fazer coisas que não exijam atividade cerebral – pesquisas apontam que é nesse ponto que a audiência de canais como E! Channel e Discovery Home & Health aumentam consideravelmente.

O sonho adolescente de ser um grande escritor vira o sonho de sobreviver e, quem sabe, escrever o que você quiser nas férias ou a cada 15 dias.

Tirando o tom apocalíptico que tá rolando até agora, podemos afirmar uma característica em comum dessa galera: não escrevem apenas por gosto, e sim por necessidade. As palavras vão se acumulando dentro de gente assim até não sobrar mais espaço e, no fim, acabam vomitando-as em arquivos, folhas, guardanapos, mãos e o que estiver pela frente – escrever torna-se uma necessidade quando falar não é mais o suficiente.

É aí que entra o problema. Nós ainda estamos com aquela ideia na cabeça de que vamos escrever o que quisermos o dia todo, o glamour do escritor que abre seu computador – ou, se for do tipo hipster, moleskine – no café, ao lado de um espresso (escritores da nossa imaginação nunca tomam aqueles frappucinos com chantilly da Starbucks, sempre café puro, já reparou?) fazendo as palavras fluírem. Mas as realidades da vida já chegaram a nós e pudemos perceber que não é assim que acontece.

Primeiramente, o tema do mês: rotina. Essa gente de humanas encontra um sério problema. A rotina louca. Ou melhor, a falta de rotina. A gente nunca sabe se aquela pessoa que prometeu te dar uma entrevista pro trabalho da faculdade simplesmente desaparece ou se o professor vai mudar o prazo do trabalho porque ele quer. Quem liga se você tem que entregar vários calhamaços de papel (qual é a relação entre ser professor universitário e a incapacidade de checar emails?) sobre assuntos diferentes na mesma semana? Acontece. Acrescente manhãs ou noites na faculdade e estágios, nós basicamente não temos tempo. Muito menos tempo pra escrever o que a gente quer.

Outra coisa, ainda que elas estejam relacionadas: a mecanização. Pense nesses calhamaços acadêmicos que citamos acima: ou é sobre um livro que você (confesse!) não terminou, ou sobre algum teórico cujo nome você teve quer checar no google, ou quem sabe é mais um trabalho sobre um clichê da sua profissão. Se você já está há algum tempo na faculdade, sabe do que estamos falando e sabe também que consegue fazer um texto genérico pra cumprir os prazos e tirar suas notas. E aí a gente fica naquele dilema: tirar um tempo e fazer algo melhor ou fazer o que dá certo todo final de semestre? (A gente sabe que você vai enrolar vendo Netflix até o final do prazo e depois chegar no ponto ‘bom, faltam 12h e preciso escrever dez páginas #queriaestarmorta’). Nada disso acaba sendo criativo, ainda que pudesse ser pelo menos um pouco. A escrita é quase automática e a edição mais ainda.

O que nos leva ao último ponto: nós ficamos presos a certos formatos. Sejam eles ensaios, relatórios ou textos de opinião. Dependendo, são slides de power point. Fazemos isso o tempo todo e, se não tivermos onde extrapolar a criatividade (lembra o que falamos acima sobre a necessidade de escrever?) começamos a ficar presos à escrita que não era aquela que pensávamos que faríamos. E quando tentamos escapar, duvidamos muito mais de nós mesmos. Surge nosso lado editor interno. Não nos leve a mal, editar é importante, mas chega aquele ponto em que você não sabe mais sentar e escrever livremente, sem se preocupar com o número de toques ou se o professor vai gostar daquela referência, se você soa sério o suficiente e se está passando sua mensagem.

Todas essas coisas se manifestam ao extremo quando tentamos escrever por prazer, por necessidade. Porque a autocrítica é fundamental, mas também é a inimiga daquele sentimento bom de se expressar livremente no primeiro rascunho. Nós estamos presos, caro leitor, e não sabemos muito bem como vamos escapar.

Texto por André e Lorena, duas vítimas da faculdade de jornalismo.

(troque Regina George por contagem de toques e isso descreve os alunos de jornalismo)

P.S.: A Milena gostaria de comentar que alunos de Letras também sofrem #somostodosdehumanas

 

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