Dona Tulipa


—  Meu dia só começava de verdade quando a dona Tulipa passava correndo pela minha mesa. Era o sinal de que o dia tava nos eixos, tinha engatado mesmo. Ela gritava “Bom dia, seu Gerso” e ia lá, dar soco no botão do elevador. Ela fazia parte da minha rotina, a dona Tulipa. Porque ela sempre chegava, meu filho. Atrasada, mas chegava. Agora faz um favor pro seu avô e puxa aquele banco ali pra eu esticar as minhas pernas. Isso. Tá bem melhor.

Eu sei que quando a gente é novo acha que rotina é palavrão. Vocês usam a coitada da palavra pra amaldiçoar as coisas. Sua mãe me contou que você terminou com a Renata porque “caiu na rotina”. Eu achei essa uma desculpinha muito vagabunda se você quiser saber da minha opinião. E nem adianta fechar a cara, não, moleque. Sou seu avô, sou mais velho, isso me dá o direito de falar o que eu quiser, sim. Era desse jeito na minha época e dentro dessa casa vai continuar sendo assim.

Mas eu não quero te dar lição de moral.

A rotina é uma das coisas mais bonitas dessa vida, meu filho. A gente não gosta de admitir isso, principalmente na sua idade, mas é ela que dá segurança pra gente. O que me dava segurança era o café aguado da sua vó, o seu Edmur me entregando o jornal e a dona Tulipa dando soco no botão do elevador.

Eu sempre imaginei assim: cada linha da rotina vai se trançando, igual tricô, e forma uma rede de segurança pra quando alguma coisa desequilibra a gente. Aí a gente cai, mas fica tudo bem, entende?

Eu sabia que aquele dia ia ser estranho porque a dona Tulipa não apareceu.

Eu tinha tomado o café aguado da sua vó e o seu Edmur tinha me entregado o jornal. Eu tava bem concentrado, lendo sobre o novo técnico do Palmeiras, quando me subiu um arrepio na espinha e eu percebi que tava tarde, já. E a dona Tulipa não tinha chegado atrasada. Nem de jeito nenhum. Ela não tava de férias, ela sempre me avisava quando ia sair de férias. Eu achei que talvez ela tivesse doente, mas não sei por que, não consegui acreditar nisso. Era o tal do arrepio na espinha.

Já tinha passado das dez horas quando a dona Tulipa finalmente apareceu. Mas ela não tava correndo, não. Na verdade eu nunca tinha visto ela andando tão devagar. Ela parou na minha frente, braços cruzados, cabeça baixada, disse “bom dia,seu Gerso”. Quando eu vi o rosto da mulher tomei um susto porreta, menino, ela tava com o olho roxo de tudo. Eu perguntei que diabos tinha acontecido e ela me pediu se eu podia conversar um pouco com ela. Eu não podia sair da portaria, mas você também não pode negar nada pra uma mulher naquele estado, não. Ela tava inteirinha descabelada, o nariz escorrendo, um estado que eu nunca imaginei que ia ver uma pessoa tão classuda quando a dona Tulipa ficar. Pedi pra Adriana, a moça que limpava o prédio, você lembra dela? Pedi pra Adriana ficar na portaria um pouco pra mim e levei a dona Tulipa pra cozinha dos funcionários.

Ela sentou tão na pontinha da cadeira que eu achei que o troço ia virar. Eu ofereci café e ela pediu sem açúcar. Eu estranhei, não sei por que, mas sempre achei que a dona Tulipa devia gostar de coisas doces. Não é estranho como a gente sempre tá fazendo suposições sem pé nem cabeça sobre as pessoas? Eu dei o café amargo pra ela e me sentei também. Não sabia muito o que dizer, não sei se tem alguma coisa pra dizer numa situação dessas. Eu só fiquei olhando e vendo que o olho roxo não era o único problema ali. Percebi uns arranhões nos braços, umas unhas quebradas. Pintadas daquele jeito, francesinha, acho que chama. E umas delas tavam quebradas.

Depois de tomar quase metade da xícara de café a dona Tulipa começou a falar. Ela disse que não sabia direito por onde começar e nem por que tinha escolhido falar comigo. Ela só disse que eu sempre tinha sido atencioso com ela e que eu sempre tava ali. Não sei se ela quis dizer ali, portaria, ou um ali, vida. Mas ela não tava chorando.

A dona Tulipa me contou que o marido tinha dado uma surra nela. Que não era a primeira vez, não, mas que aquela tinha sido a pior. Ela falou que isso acontecia há anos, quase desde o começo do casamento. Que uma vez ele bateu tanto nela que ela tinha abortado um filho e ela nem sabia que estava grávida. Ele tinha umas fases, ela disse. Às vezes batia mais, às vezes batia menos, mas sempre batia. Mas ele nunca tinha batido no rosto dela. Ela disse que foi isso que tinha assustado mais. Ele deu um soco no olho dela. Por isso o roxo.

Eu não quis perguntar nada. Eu só era um porteiro, o que eu podia fazer? Mandar ela ir embora? Denunciar o homem? Se acostumar? Não, eu não podia dar conselho, eu não sabia dar conselho nenhum. Eu só dei mais café pra ela quando ela terminou a primeira xícara. Olhei nos olhos dela enquanto ela falava, mesmo que na maior parte do tempo ela só olhasse pra baixo. Ela foi contando e eu fui ouvindo.

Quando já fazia quase uma hora que ela tava contando, a Adriana entrou na cozinha. A dona Tulipa parou de falar. Aí a Adriana saiu e a dona Tulipa só disse que tava indo embora. Eu acho que indo embora ela quis dizer ir embora da cidade. Porque eu nunca mais vi a dona Tulipa depois daquele dia.

— Caralho, vô. Que história horrível.

— É, meu filho, eu sei — meu avó acendeu mais um cigarro. O terceiro, desde que havia me chamado para conversar.

— A mulher era espancada e ninguém nunca percebeu nada?

— Não posso falar pelos outros, não. Eu sei que eu nunca percebi. Talvez alguém que trabalhasse com ela, visse a mulher de perto todo dia. Mas naquela época as pessoas levavam a sério aquela história de que em briga de marido e mulher não se mete a colher.

— E enquanto a sua rotina era ver ela dar soco no botão do elevador, a dela era ser espancada.

— É. Eu acho que era. Até aquele olho roxo, aí eu acho que ela foi embora, mesmo. Deixou o marido, foi ser feliz.

— E depois de todo esse seu papo de rotina e rede de segurança e sei lá mais o quê, você acha que ela devia ter se conformado com isso?

— Com ser espancada?

— É

— Ué, moleque, claro que não. Eu lá acho que mulher tem que apanhar?

— Então todo esse seu discurso sobre rotina. Sobre ela ser boa. Você não acredita de verdade nisso, acredita?

— Acredito, sim. Claro que acredito.

— Então a dona Tulipa tinha que te voltado pra rotina dela, ué.

— Claro que não. Ela tinha que ter ido embora, mesmo.

— Então não faz sentido, tudo isso que você disse. Foda-se a segurança. Se não nos fizer bem, a gente pode fazer a tal rede em pedacinhos.

— Claro que pode. Não tem nada de absoluto nessa vida, não.

Percebi um maroto na boca do meu avô.

— Vô. Essa história pelo menos é verdade?

— E do que isso importa? Agora vai ajudar a sua vó com o almoço e me deixa dormir.

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Sobre Odhara C.

Drama queen um tanto sincera demais. Dog person. Gosta de dar conselhos e de fazer filosofias de boteco.
Ela escreve no blog Meu Coração É Um Nervo Exposto (http://umnervoexposto.wordpress.com) e dá o ar de sua graça uma vez por semana em caixas de entrada alheias com uma newsletter (http://tinyletter.com/umnervoexposto).