Por baixo da fumaça


I’m not quite sure what we’re supposed to do / So I’ve been writing just for you

(David Bowie – Letter to Hermione)

— Você tem cara de quem tá indo pra Paulista!

O sorriso aberto no rosto queimado de sol do taxista que seria meu fez cócegas no meu coração. O tipo de cócegas que só sorrisos sinceros me fazem sentir. Sorrisos sinceros sempre acompanham pessoas simples. Pessoas simples são o meu tipo predileto de pessoa. E meu coração sentia cócegas pra me mostrar que eu estava perto de ficar confortável, de um jeito que só pessoas simples e de sorrisos sinceros fazem com que eu me sinta.

Sorri de volta. O melhor que eu pude, pelo menos. Afinal, eram nove horas da manhã. Tinha decidido dormir no Rio e pegar um voo de manhãzinha em vez de voltar pra São Paulo assim que a reunião acabara na esperança de conseguir descansar um pouquinho.

Não consegui fechas os olhos por mais de quarenta minutos, é claro.

— E você também tem cara de quem tá voltando do Rio de Janeiro — o meu taxista disse enquanto abria a porta do banco de trás pra mim — Cara não, cheiro. Eu não sou maníaco nem nada do tipo não, moça, antes que você se arrependa de ter entrado no meu táxi — Ele me olhou alarmado pelo retrovisor — Eu só tenho o olfato muito bom. E o Rio de Janeiro tem um cheiro muito específico. Olha dona…

— Ana Letícia.

— Ana Letícia. Bonito o nome. Minha filha chama Letícia, só. Olha, dona Ana Letícia, eu sou do tipo de taxista que gosta de falar. Acho melhor já deixar avisado.

— E eu sou do tipo de pessoa que gosta de ouvir.

— Ah, o meu tipo preferido de pessoa! — Ele estalou a língua, satisfeito. — E o mais raro hoje em dia, também.

Ele caiu na Ayrton Senna assobiando.

— Qual o seu nome, senhor..?

— Jaime! E pode deixar pra lá esse senhor. Também vou deixar de lado o dona, você é muito nova pra isso.

O meu taxista, que agora tinha um nome, riu e aumentou o rádio.

Ainda lembro que eu estava lendoo só pra saber o que você achoou dos veersos que eu fizz e aindaa espeero respoostaaa. Eu costumava ser carteiro, sabia, Ana Letícia? É claro que não sabia. Bom, eu gosto de pensar nisso como numa promoção. Sabe como é. Parei de entregar correspondências, agora eu entrego as pessoas, ali, carne e osso. E ainda assim um monte de papel, como no seu caso — Ele riu. — Eu sei que as palavras são importantes. Nunca tive muita proximidade com elas, mas sei que são. Mas palavra não traduz nenhum cheiro. Já tentou ler descrição de perfume, que coisa porca? — Riu ainda mais alto. — Palavra não traduz nenhum cheiro, não. E eu gosto de cheiro. Olfato apurado, sabe como é que é.

Meu olfato não era tão apurado quando o do seu Jaime, mas concordei de qualquer forma, porque não conseguiria descrever em palavras o quão confortável o cheiro do seu sabonete faz com que eu me sinta. Nem que a minha vida dependesse disso.

— O senhor está certo, sim, seu Jaime — Prendi meu cabelo. São Paulo estava tão quente quanto o Rio, com a diferença que a secura da ex-terra da garoa fazia meu nariz sangrar.

— Talvez seja por isso que eu goste de São Paulo, — ele continuou — por causa desse meu olfato apurado. Eu sei que a maioria das pessoas detesta isso aqui, por causa de toda a poluição e coisa e tal. A Letícia mesmo, minha filha, tem todo tipo de alergia que a senhora pode imaginar. Se mandou pro Nordeste assim que conseguiu e parece pinto no lixo de felicidade até hoje. Mas eu consigo sentir o cheiro por baixo da fumaça, Ana Letícia. E o cheiro por baixo da fumaça é rico. Não é sempre agradável, — ele riu de novo — mas o que na vida é? É um cheiro muito rico, isso sim, e isso é o mais importante, não é mesmo? Sei lá, eu acho que deveria ser.

— Não acho que seja próprio da maior parte das pessoas se preocupar com a profundidade das coisas, não.

— Eu acho que tudo é questão de hábito. Essas coisas a gente aprende, Ana Letícia. A gente aprende a esperar, a gente aprende a observar. Você já percebeu como as pessoas correm do tédio? Parece que não aprenderam a gostar da voz que a gente ouve dentro da própria cabeça. Tão sempre procurando se distrair de alguma forma. Eu não acho que dá pra viver assim não, sem refletir. De repente a vida passa e a gente não percebe porque tava ocupado demais ouvindo alguém dizendo uma besteira qualquer na televisão. Eu acho que tô reflexivo demais, hoje — ele me olhou rapidamente por cima do ombro, com ar de quem pede desculpas. — Acho que é a época do ano. Sempre gostei de começos.

Entramos em silêncio na 9 de julho. Continuei pensando sobre cartas, pessoas, cheiros e programas de domingo na televisão. Eles me entristeciam, assim como encontrar apenas contas e folhetos de pizza na minha caixa de correio.

— Você costumava escrever muitas cartas, seu Jaime?

— Ah, mas é claro! Eu sempre escrevia cartas. A minha esposa tem até hoje a primeira que eu mandei pra ela. É vergonhosa de tão tosca, aquela carta. Mas ela guardou. Minha mulher, a Cecília, ela tem tanta coisa guardada… Cartas, sim, ela tem várias cartas guardadas. Principalmente da prima dela, a Joana, que mora no interior. As duas são melhores amigas e passaram a infância e a adolescência toda mandando cartas uma pra outra. Hoje elas deixam recado no facebook, mandam email. Só que ninguém imprime email pra guardar. Nem a Cecília, que adorar guardar trecos inúteis — ele freou bruscamente em um farol vermelho. — Você escrevia cartas quando era mais nova?

— Ah, quando eu era mais nova sim. Hoje em dia… Quase não lembro como é a letra minha no papel.

— Deus do céu, Ana Letícia. Isso não é do tipo de coisa que a gente não pode esquecer não. Pega — Ele tirou sulfite do porta-luva, pegou a prancheta que estava no banco do passageiro e a caneta do bolso da camisa e me jogou o conjunto. — Escreve alguma coisa pra alguém. Eu sei que é difícil, com o carro se mexendo, mas apoia firme e escreve. Qual o número que você vai, mesmo?

Eu respondi e comecei a escrever. Foi realmente difícil — quem visse a minha letra podia jurar que eu estava sendo alfabetizada naquele momento.

Comecei pelo cheiro de sabonete que eu sentia sempre que afundava a minha cabeça na curva do seu pescoço.

— Pronto, Ana Letícia! Chegamos ao seu trabalho. Embora eu ache que devia ter te levado pra casa, você tá com cara de quem precisa descansar um pouco, minha filha — Jaime tirou o cinto de segurança e sorriu pra mim. Tomei um susto e dobrei o papel em que estava escrevendo. Eu não ia revisar porra nenhuma. Era melhor deixar que algumas coisas acontecessem no impulso, principalmente quando se trata de nós dois.

— Obrigada pela melhor viagem de táxi da minha vida, Jaime. Me dá um cartão seu, por favor! — Ele me deu o cartãozinho branco enquanto eu lhe estendia uma nota. — Não vou dizer pra ficar com o troco, não. Considera o que seria o troco o pagamento pelo seu ótimo conselho. Nunca mais vou esquecer como a minha letra é.

— Ah, eu vou considerar como troco sim, minha filha. Conselho a gente dá de graça pra quem gosta.

—Obrigada. E pode me chamar de Aninha.

Eu sorri e apertei seu ombro. Enrosquei a mochila no braço e desci do táxi apertando a folha de sulfite na mão. Eu precisava te entregar isso logo, antes que o impulso esmorecesse.

— Oi, Aninha! — Eu sempre ficava impressionada com a sua capacidade de fingir empolgação. Quem quer que olhasse pra você sabia que você tinha dormido tão pouco quanto eu. Percebi antes mesmo que as portas do elevador do qual você estava saindo se fechasse.

— Olha. Eu tenho uma carta pra te entregar.

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Sobre Odhara C.

Drama queen um tanto sincera demais. Dog person. Gosta de dar conselhos e de fazer filosofias de boteco. Ela escreve no blog Meu Coração É Um Nervo Exposto (http://umnervoexposto.wordpress.com) e dá o ar de sua graça uma vez por semana em caixas de entrada alheias com uma newsletter (http://tinyletter.com/umnervoexposto).