Procura-se novos mapas


Texto: Paulo V. Santana // Arte: Gabriela Amorim

Além de todos os problemas com depressão e muita cobrança com os estudos, outra coisa que eu compartilho com o Craig – o protagonista de Uma história meio que engraçada, do Ned Vizzini – é o gosto por mapas. Inicialmente, ele desenhava apenas mapas de Nova York, mas seu trabalho artístico se desenvolve até mapas dentro de silhuetas humanas, representando as ligações existente na mente das pessoas. Eu, por outro lado, construo um mapa afetivo da minha cidade.

É claro que está tudo só na imaginação, mas é por esse viés que eu vejo o Rio de Janeiro. Desde que eu percebi que o espaço que eu ocupo vai além de concreto e paisagens naturais, aqueles mapas em tons de cinza não foram mais suficientes para representar onde eu moro. Não é simplesmente o CCBB, o Nova América ou a Livraria da Travessa. Na minha cabeça, sempre penso no museu onde eu dei o primeiro beijo em um ex-namorado, o shopping que meu pai me levava na infância e a livraria que eu visito tanto que já conheço os funcionários.

As rotas oficiais são apenas um suporte para eu me localizar entre os locais que já tem – ou virão a ter – algum valor sentimental para mim. Conhecer os mapas do Craig me fez perceber como eu relaciono pessoas e momentos aos espaços da minha cidade, e como cada peça que constrói esse grande quebra-cabeça é uma justificativa para eu gostar tanto de onde eu vivo.

São essas vivências e memórias que fazem com que cada lugar seja único e fiquem marcados na minha história. Foi só ao ter essa noção que me dei conta de que mudar-se de cidade significa mais do que deixar pessoas para trás – os lugares também ficam.

E é esse meu atual drama: a partir do próximo mês, vou morar em São Paulo. Como eu não me mudei antes – nem mesmo de casa -, nunca tive que encarar o fato de que eu sou tão apegado às coisas de onde eu moro. É um vínculo que ultrapassa o meu quarto, a minha rua, o meu bairro. É uma ligação com a cidade. Nesse cenário, começar uma nova vida em outro estado é quase como cortar o cordão umbilical mais uma vez.

Quando você cresce em uma cidade e aproveita grande parte do que ela pode te oferecer, você já não é mais um simples morador – você é parte dela.

Os caminhos que eu poderia fazer de olhos fechados, as construções que eu via todo dia e as memórias que eu guardei, tudo vai deixar de fazer parte do meu cotidiano. Dói saber que vou precisar guardar num baú todos os mapas que desenhei cuidadosamente nos últimos anos.

Mas às vezes é preciso fugir um pouco, para que os vínculos não se tornem correntes. Por mais que seja sempre possível viver novas experiências e dar novos significados ao espaços, chega um momento em que a cidade sufoca.

É preciso apropriar-se de um novo lugar, respirar ares diferentes.

Quando isso acontece, talvez seja hora de traçar novos mapas.

Compartilhe:

Sobre Paulo V. Santana

Paulo tem 19 anos, cursa Letras na USP e… o resto ele ainda está descobrindo. Enquanto isso, ele canta High School Musical nos karaokês da vida, lê uns livros, reclama da vida na sua newsletter e perde horas e mais horas assistindo coisas no youtube. No Twitter: @paulovsantana