Uma conversa sobre Cartas de amor aos mortos


Sofia: Vamos falar de Cartas de amor aos mortos, da Ava Dellaira, livro que me deu mil emoções sobre adolescência e me fez chorar num avião, mas que você não gostou tanto.

Lorena: Não. E é inesperado, porque – culpa da  Meg Cabot e de Gossip Girl – eu sou instantaneamente atraída por livros que envolvam cartas ou mensagens de alguma forma. Nesse, rolou uma decepção. Contexto: pelo título, amei e convenci a Milena a comprar. Aí tempos depois a Analu comentou que não tinha curtido, a Milena desistiu de ler e deu pra mim. E também não gostei. Mas tô mais interessada em saber o que te fez chorar no avião. Eu achei triste/intenso, mas não foi um momento catártico.

Sofia: Confesso que li em um momento emocional muito propício para choros no avião – tinha visto recentemente alguns filmes que tocavam em questões da adolescência, tinha revisto uns episódios de Skins, estava em um momento especial de contato com meus traumas e minhas memórias adolescentes. Talvez isso tenha contribuído para o efeito emocional. De qualquer forma, as coisas que me fizeram chorar foram especialmente a relação dela com a irmã (eu tenho uma irmã mais nova de quem sou muito próxima, e histórias sofridas sobre irmãs ativam meu choro automático) e a história das amigas, Hannah e Natalie, que são apaixonadas mas que não sabem exatamente lidar com isso (outro ponto temático que ativa meu choro automático).

 

IRMÃS

Lorena: Eu sei exatamente do que você tá falando. Eu tenho um fraco por narrativas que envolvam irmãos para além das disputas normais do cotidiano. Acho que esse foi o ponto que mais gostei do livro, na verdade. Tem uma relação complexa entre elas, bem determinada pela diferença de personalidades. Dito isso, a gente sente bastante a proximidade e o amor, né?

Sofia: Pois é, eu acho que fica bem claro que elas se amavam muito, mesmo que fossem bem diferentes. E como a gente só tem o ponto de vista da Laurel, conseguimos ver quem a May era para ela, mas também como isso era diferente de quem a May era para outras pessoas (como para os pais, para os professores, para o Sky). Isso me pareceu muito real, sabe, a diferença entre a May-irmã-mais-velha e a May-amiga, a May-aluna, a May-filha, e a diferença de percepção sobre alguém de acordo com o papel que aquela pessoa tem na sua vida.

Lorena: De certa forma, acho que a relação entre irmãos envolve mais honestidade. Tenho lido alguns outros livros que falam da relação entre adolescentes e suas famílias (Para todos os garotos que já amei, Do que é feita uma garota, À procura de Audrey) e notando que a rivalidade e as diferenças entre irmãos faz com que seja uma perspectiva bem diferente da dos pais, professores e outras figuras de autoridade ou mais externas.

Sofia: Envolve mais honestidade, mas também envolve muita comparação e uma proximidade bem particular – porque irmãos (se próximos) são parte muito fundamental da criação um do outro, mas não como figuras de autoridade; existe uma certa igualdade, mas também aprendizado pela comparação. No livro, acho que dá bem para ver isso com a Laurel usando as roupas da May, ouvindo as coisas que ela ouvia, tentando aprender com ela mesmo depois da morte; é natural que irmãs sejam uma referência. E também vemos o outro lado, da May tentando sempre proteger a Laurel de partes dela que ela não acha “exemplares” (e muitas vezes falhando nessa tentativa). E, voltando pro lado da Laurel, a sensação de traição pela morte da May, a percepção dessa falha. (Tenho feelings demais sobre irmãs, hahaha)

Lorena: brb, indo mandar uma mensagem pra minha irmã. Mas é, super concordo com você, acho que além dela sentir muito a falta da May, também tem esse lado de um pedestal em que ela coloca a vida da irmã. Mas a percepção de que a May era uma pessoa real – com defeitos e tudo – foi importante também.

 

MIGAS

Lorena: E o arco das amigas dela? Eu vejo isso como muito importante pra história e uma das minhas críticas ao livro é que todo o círculo de amigos da Laurel fica meio apagado. Mas discorra sobre a relação entre as duas meninas (cujo nome não lembro, dsclp):

Sofia: Inteiramente desculpada, porque eu tive que abrir o livro para lembrar, hahaha. Então, eu não achei o círculo de amigos apagado! Costumo achar que livros YA (na verdade não só YA) têm essa coisa de círculos de amigos muito fechadinhos em que cada amigo é uma trope, e no caso eu senti que os amigos têm relações entre si além de só no grupo, e que existem personagens complexos ali – especificamente a Hannah e a Natalie, os outros amigos eu achei mais bidimensionais (mas acho que isso tem a ver também com a própria percepção da Laurel, não só com a narrativa). Mas enfim, sobre a relação entre elas: é muito normal, na adolescência, termos melhores amigas que são… intensas. Eu tenho uma melhor amiga que é minha melhor amiga desde os 15 anos, e nossa relação sempre foi muito próxima e bastante romântica (mesmo que nós tivéssemos namorados na época, ou que tenhamos outros namorados agora). E acho que, para garotas queer (leia-se: não héteros), é muito natural também a primeira paixão ser essa melhor amiga, e isso ser no mínimo confuso – identificar quando aquilo deixa de ser só “somos melhores amigas e almas gêmeas e nos amamos muito” e vira “opa, talvez eu queira… namorar essa pessoa!”, e achei que toda essa confusão foi retratada de forma muito real (e tocante) no livro. Vai além da crise “omg será que sou lésbica?” ou de “mas homofobia é horrível!!!!”, mesmo que toque nesses dois pontos, e o fato de que as duas garotas estão se descobrindo nessa relação (em vez de uma já ser totalmente 100% bem-resolvida e a outra não, por exemplo), e se descobrindo de formas diferentes, também é bem realista.

Lorena: Já leu The Bermudez Triangle, da Maureen Johnson? É meio por aí também. Enfim, tenho uma história da vida real relacionada: quando eu tinha uns 15 ou 16 anos uma amiga da internet (na maior parte da adolescência nutri mais amizades online que irl), em meio a uma conversa com mais algumas pessoas, comentou que morria de medo de ser bi. A gente era bem novinha e ela tava passando por uma fase de questionar a sexualidade, mas nem admitia que achava uma menina bonita por medo de ser bi. Esse tipo de coisa acaba sendo muito destrutivo e é legal que o livro fale sobre.

Sofia: Não li The Bermudez Triangle, mas não gostei muito do outro livro da Maureen que li (13 blue envelopes?) aí acabei tendo preguiça, hahaha. Mas é, esses questionamentos nos consomem muito, especialmente na adolescência, e o tipo de situação confusa em que a Hannah e a Natalie acabam se envolvendo é uma parte bem comum desse tipo de processo (elas só ficarem juntas quando estão bêbadas, a Hannah tentar se distanciar do que isso pode significar, a Natalie sofrer porque sente que seu envolvimento é diferente do da Hannah, o peso da família da Hannah na liberdade dela para esse tipo de coisa…).

PAIS

Lorena: Falando em famílias, uma coisa que esse livro tem e acho que é bem comum em YAs (ainda bem) é mostrar como uma situação trágica causa um distanciamento meio que irreversível pra família. Mas tipo, o que é bem real é como a relação da Laurel com os pais tem muito a ver com a morte da May.

Sofia: Sim, acho que mostra bem como cada membro da família lida com o luto, e como isso afeta todas as relações entre eles. Perder uma irmã, perder uma filha, é o tipo de dor que não vai embora, e as mudanças decorrentes disso são significativas. O que a gente falou lá no começo, sobre irmãs e comparações e a proximidade, também existe na relação dos pais com as filhas – a filha viva acaba sendo de certa forma uma memória da filha que morreu. E o fato de que a Laurel estava presente no momento e a dificuldade dela em revelar o que de fato ocorreu acrescentam uma camada de complexidade a esse distanciamento.

Lorena: Não sei se isso foi algo que gostei ou não gostei no livro, aliás. A parte dela estar junto. É claro que faz sentido na história, mas acho que contribuiu um pouco demais pra ela ficar distante dos pais e eles, ainda que no sofrimento, sei lá, poderiam ter oferecido mais apoio? Acho que isso soa como se eu estivesse querendo ditar como os outros vivem seu luto, mas é que vi a Laurel muito sozinha na história.

 

CARTAS

Sofia: O jeito principal dela lidar com essa solidão é escrevendo sobre ela. Gostei da ideia de ela estar escrevendo para pessoas mortas, porque mantém a liberdade da escrita em um diário, mas dá uma noção de interlocução também (mesmo que, obviamente, ela não tenha respostas). Ela sente que está contando para alguém o que aconteceu, que está se abrindo, mesmo que, na prática, ninguém esteja ouvindo. E a escolha das pessoas é significativa para os momentos que ela vive e também para a proximidade direta que a dor dela tem com a morte, com a perda.

Lorena: Me fez pensar em As vantagens de ser invisível essa questão de não ter respostas mas ter uma interlocução. Mas eis aqui o que eu menos gostei no livro inteiro – e o que me fez reclamar dele na época que li – achei as cartas muito genéricas. É claro que tudo ia ser focado mais na história da própia Laurel, o que faz sentido. Mas, a partir do momento que tem um destinatário reconhecido no topo das cartas, parece que não fez muita diferença. Eu senti pouca coisa mudar se era uma carta pro Kurt Cobain ou pro Heath Ledger. E fiquei me perguntando se não podia ter sido melhor explorado.

Sofia: Talvez pudesse ter sido melhor explorado, mas não achei tão genérico. Quer dizer, achei bem genérico sim, hahaha, mas não de forma tão incômoda. Acho que as escolhas acabavam dizendo mais sobre o tema geral da preocupação dela – nas cartas pro Kurt ou pro Heath ela menciona muito a questão do suicídio, do abandono, nas cartas pra Amelia Earhart ela toca em mistério e desaparecimento, por exemplo. Mas sim, entendo o que você quis dizer. (E wow, eu devia fazer um post desses sobre As vantagens de ser invisível porque tá aí um livro que eu não gosto nada)

Lorena: (Estamos discordando de tudo hoje no front literário, porque eu amo As vantagens de ser invisível e ele teve esse efeito chorar sobre a adolescência em mim)

 

BOY

Lorena: Ok, e a relação entre a Laurel e o Sky? Eu tenho a impressão (e isso pode estar equivocado ou perdido no tempo) que o relacionamento deles ficou meio perdido na história? Rolou um insta-love, mas além disso, não consegui desenvolver muitos sentimentos sobre o ship – e eu adoro ships. O que você achou, como defensora do livro nesse post?

Sofia: Ai, não vou defender muito Laurel e Sky não. Achei meio perdido, não shippei, não liguei muito. Maaaaas defenderei o livro: acho que ficou meio perdido porque não era tão importante mesmo pra história. Rola insta-love, mas a Laurel tá mais preocupada com outras coisas, com outras tretas, e insta-love nem sempre significa amor verdadeiro (na verdade, fica a dica para as jovens por aí: em geral não significa meeeesmo). Além disso, a Laurel tá claramente lidando com traumas sérios de abuso que ela ainda não conseguiu processar, e é super difícil se relacionar romanticamente e sexualmente depois desses traumas. E tem toda a questão do Sky ter conhecido a May, o que só confunde mais ainda a Laurel em relação ao luto dela.

Lorena: Era nisso que eu tava tentando chegar, sabe? Mas justamente por ela ter questões maiores, inclusive de ter lidado com abuso, não entendi a necessidade da presença do Sky na história. Tipo, acho que não era necessário, me deu um ar de “ajudando ela a superar” que podia não ter rolado.

Sofia: Também não acho necessário (por mim podia bem só não ter o Sky), mas me pareceu um recurso narrativo útil para trazer à tona as questões do trauma. E de fato relacionamentos muitas vezes ajudam a lidar e superar traumas de relacionamentos passados, e eu não senti uma vibe de que ele “salvou” ela – na verdade ele não foi super ótimo no relacionamento, e não deu muito certo, mas foi um elemento importante no processo de superação individual dela.

Lorena: Achei que podia ter abordado a questão sem necessariamente trazer um relacionamento romântico pra narrativa. Até porque ela já tá lidando com uma situação em que tudo é novo, sabe? Enfim, uma outra coisa que gostei no livro foi o tratamento de traumas de abuso.

Sofia: Eu achei que o tratamento dos traumas foi bem realista. Na verdade, honestamente, eu achei os sentimentos todos no livro bem realistas, acho que foi por isso que gostei e me tocou tanto (até porque eu me identifiquei pessoalmente em algum nivel com várias situações). Mas enfim, eu gosto que os traumas não sejam magicamente resolvidos, não acabe com ela sentindo que está inteiramente over it, mas sim em parte do processo de lidar com os traumas. E o medo, a vergonha, a dificuldade de lembrar e de falar e de reconhecer o abuso, tudo isso é muito real como reação traumática.

Lorena: Pra mim, esse é o maior mérito da literatura YA recente, na real. A honestidade com que esses livros – ainda mais os famosos – tratam os problemas do dia-a-dia, mas também distuações específicas como o luto, o abuso, tudo isso, é bem importante.

Sofia: Sim, e de formas que me parecem reais e complexas, não só cheias de soluções mágicas e moralistas.

Lorena: Acho que precisamos encerrar, considerando o tamanho que esse texto ganhou. Considerações finais?

Sofia: Wow, a gente fala muito! Acho que falei tudo que era mais importante pra mim, e minha consideração final é que, para alguém que não gostou do livro, você até gostou de bastante coisa! Hahahaha. Você tem mais algo a acrescentar?

Lorena: Eu raramente não gosto de livros a esse ponto, de ter muitas críticas. Ou seja, com Cartas eu não curti em geral, foi meio cansativo de ler, mas ainda assim achei que levantou algumas das coisas que vejo em meus YAs favoritos. E consigo ver o efeito legal que essa leitura possa ter.

 

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