A magia da cidade


Como já deve ser óbvio pela minha presença aqui na Pólen, eu adoro ler. Assim, adoro mesmo. Adoro tanto que trabalho no mercado editorial, adoro tanto que leio andando, leio no ônibus, leio na fila do supermercado, viro a noite com livros. Sabe, gosto MESMO. E sou uma pessoa bem sem critérios: leio (por interesse e diversão) tudo quanto é coisa que me aparece, de YA água com açúcar a livros acadêmicos sobre relações internacionais. Mas tem um gênero que meus amigos adoram, que tem vários livros que parecem legais em teoria, mas que me enche bastante o saco: high fantasy. Sabe, fantasias épicas em universos inteiramente inventados, com seres inteiramente inventados, muitos nomes de origens obscuras e enredos elaborados de conquista e vingança – tipo Senhor dos Anéis. Eu queria muito gostar, mas não consigo engolir. Não, nada de high fantasy.

Fantasia urbana, por outro lado… eu adoro. Gosto de elementos fantásticos, desde que o contexto em que eles estejam inseridos sejam contextos mais familiares para mim. Sou fascinada por histórias de pessoas aparentemente comuns que acabam se envolvendo em aventuras misteriosas, descobrindo coisas sobre elas próprias e sobre o mundo. Adoro mundos que são exatamente como o nosso, só que… não tão exatamente assim. E, especialmente, adoro a ideia de que cidades, centros urbanos, são mágicos, têm lendas, têm vida, uma vida que vai além das pessoas, uma vida que vai além do concreto, uma corrente de energia mágica e fantástica escondida dos olhos comuns.

Cidades, no geral, me fascinam. Sou uma pessoa urbana, às vezes quero chorar só de ver fotos lindas de cidades lindas e tenho paixões e implicâncias por cidades específicas; ficção que trata cidades como personagens, então, me dá até calafrios (sabem como eu amo Gossip Girl? juro que é em parte por causa disso). Mesmo fora do âmbito da ficção e da fantasia, muita gente reconhece que cidades têm espíritos, não no sentido de fantasmas, mas como se fossem almas da cidade. Do ponto de vista de quem pratica certos tipos de magia espiritual e energética, o conhecimento profundo de uma cidade – como o que Sherlock Holmes tem de Londres, por exemplo – é, em si, uma forma de magia. Existem blogs dedicados a magias urbanas, incluindo um texto lindo de chorar sobre o Bryant Park.

Todos esses escritos e pensamentos sobre a real magia das cidades (e eu não sou religiosa mas a magia das cidades toca muito mais meu lado espiritual do que um conceito tradicional de deus monoteísta) só aumentam meu interesse na fantasia urbana. Afinal, a graça desses livros é a proximidade que eles têm da nossa realidade, a sensação de que quem sabe existe uma versão mágica underground da cidade, como em Neverwhere, ou de que anjos e magos estão passando entre nós, como em A madness of angels, ou de que a polícia tem uma espécie de Arquivo X para crimes cometidos por magia, como em Rivers of London. É curioso notar que esses três livros que mencionei são passados em Londres – provavelmente por ser uma cidade antiga, uma cidade central, uma cidade que pulsa com história e com cultura e com acontecimentos e com vida; uma cidade tão cheia de lendas e mistérios e histórias mal contadas que ganha vida própria.

Fico me perguntando sobre possíveis fantasias urbanas passadas em cidades como o Rio de Janeiro, onde vivo, fantasias urbanas à brasileira, fantasias urbanas que consideram outras realidades de cidades, de vidas, de histórias, de lendas. Acho que não existem muitas por aí (além d’O outro lado da cidade, que já tem resenha aqui). Acabo este meu texto, desta vez, sem mensagem motivacional, só com um pedido por recomendações: quais são as melhores histórias sobre cidades-protagonistas, cidades-vivas, cidades-mágicas que vocês já leram?

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Sobre Sofia

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora, tradutora e editora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.