Vestido laranja e lápis preto


— O médico me disse que a minha saúde é de ferro! Se a sua mãe ouvisse o que eu falo ela com certeza não estaria tomando tantos remédios. É tudo por causa daquela vida que ela leva. Nunca gostou de comer legumes. Você não pode ir pelo caminho dela não, Íris, se não você…

Eu parei de escutar e passei a concordar. Se a minha avó tivesse dito que gosta de usar a pele de filhotinhos de dálmata pra fazer casacos, eu diria que sim, realmente, as pintas cairiam muito bem nela. Acho que eu sempre enxerguei a minha avó como a Cruella.

Mas no momento a única coisa que realmente me comove é que eu realmente preciso fazer xixi.

— Você já foi mais corada, menina! Você agora é oficialmente uma mocinha, quinze anos, você precisa se cuidar e não deixar mais a sua mãe…

— Tudo bem, vó, você tem razão — dei um beijo na bochecha dela e saí. Essa era a única forma de interromper a minha avó. Me desviei rápido das mesas vazias, torcendo pra que ninguém estivesse olhando pra mim, embora eu, teoricamente, seja o centro das atenções hoje à noite.

Me tranco em um dos cubículos do banheiro, tiro a calcinha com cuidado, seguro o vestido laranja com uma das mãos e com a outra me apoio na divisória. Laranja não cai tão bem assim em mim. Não é a minha cor predileta nem de longe. Mas Cíntia fez uma tabela logo no começo do ano pra que cada uma de nós escolhêssemos as cores dos nossos vestidos das festas de quinze anos.

— Não dá pra gente ter duas festas da mesma cor, né? — Ela disse, logo decidindo que a sua seria azul. Eu gostava de azul. Gosto do jeito que acentua os meus olhos. Mas eu acabei ficando com o laranja.

Acabei acertando a privada sem querer. Bom, é só um pouco de xixi. E eu estou um pouco bêbada. Acontece. Sempre que a minha irmã fala sobre a teoria do Freud sobre a inveja do pênis, eu tenho certeza de que é porque ele sabe do nosso sofrimento ao usar banheiros públicos.

Eu estou imensamente feliz de estar sozinha pela primeira vez no dia. E nunca entendi essa mania que as garotas tem de irem juntas ao banheiro. Eu gosto da minha privacidade, só isso. E detesto que alguém fique assistindo enquanto eu passo batom. Me dá um certo alívio pensar que não tem ninguém me esperando do lado de fora.

Não posso negar que meu coração deu um pulinho quando eu saí do cubículo e vi que Nicole estava lavando as mãos no banheiro.

— Oi, dona 15 anos. Feliz aniversário — Ela me olhou por cima do ombro. Me senti constrangida por estar usando tanta maquiagem.

Não que eu devesse. Tenho certeza de que Nicole acaba com um lápis de olho por semana.

— Na verdade, o meu aniversário é na segunda-feira.

— Então me lembra de te dar parabéns na escola.

— Vou lembrar. — Lavei as mãos e as sequei no vestido. — Sabe, eu acho que não quero voltar pro salão.

— Então a gente não volta. — Nicole trancou a porta do banheiro e se sentou no chão. — Posso saber por que você tá fugindo da sua própria festa de 15 anos?

É uma pergunta válida e eu não vejo motivo pra não responder. Afinal de contas, a gente está trancada dentro do banheiro. Eu não costumo conversar com a Nicole. Ela entrou na escola no fim do ano passado e nunca foi de se misturar. Ela nem tem instagram. Não que isso signifique alguma coisa. Bom, talvez signifique. Talvez ela esteja tentando provar um ponto. Eu não sei.

— Eu passei o dia inteiro rodeada de gente… Eu sabia que a noite ia ser puxado, mas a minha mãe levou eu, a minha irmã, a Cíntia e a Bruna pro salão… A gente ficou lá o dia inteiro. Foi divertido, embora eu não costume achar salões divertidos… Elas pareciam estar se divertindo, pelo menos. Mas eu preciso ficar sozinha um pouco. Respirar. Não ver nenhum ser humano.

— Eu sou um ser humano. Achei que você tivesse notado isso em algum momento.

— Não! Não foi o que eu quis dizer!

— Eu sei.

Nicole brincava com o cadarço do tênis.

— Você tá com o mesmo tênis que costuma usar na escola.

— Eu sei. Te incomoda?

— Não… Não a mim. Mas acho que a Cíntia vai ficar brava se você for na festa dela de tênis.

— Por que a Cíntia me convidaria pra festa dela?

— Ela vai convidar todo mundo.

— Mas o que me faria ir na festa da Cíntia?

— Você veio na minha.

— Porque eu gosto de você.

Eu não sabia o que dizer. Os olhos dela estavam contornados de preto, igual todo dia. Eu tenho inveja dela. Eu acho que a Nicole mandaria a Cíntia às favas se ela fosse obrigada a usar uma cor que não caísse bem nela. Ainda que eu não veja a Nicole com nenhuma outra cor além de preto.

— Eu gosto de você também.

Nicole sorri pra mim. Ela não costuma fazer isso, pelo menos não enquanto olha pra mim.

— Já tá pronta pra voltar pra festa? Daqui a pouco o seu príncipe vai estar te procurando.

— Pff. Deixa ele procurar.

Ela ergueu as sobrancelhas. Eu não costumo falar isso. Às vezes eu mal ouso pensar essas coisas. Mas agora me parece uma boa ideia. E a Nicole parece uma boa pessoa pra me ouvir.

— Eu não sei porque tô com o Murilo.

— Por que vocês são o casal perfeito.

— É. A gente fica bonito juntos nas fotos — Dou uma risada oca. O que eu tô falando? — É perfeito, né? Eu fico quase da altura dele quando tô de salto. Ele é bom no futebol. Eu sou bonita. Eu caibo na moldura, não caibo? Mas eu não caibo, Nicole, eu não caibo. Eu não sou quem eu deveria ser. Aparentemente, eu sou. Quem vê de fora. Você acha isso, não acha? Casal perfeito. Princípe. Como você consegue? Fazer o que tá dentro combinar com o que é de fora? Eu não consigo. Eu sei que eu podia fazer uma cirurgia, mudar o cabelo, mas eu não sei… Eu não sei o que eu quero mostrar. Eu só sou um amontoado de coisas que eu não sei. Eu acho que preciso descobrir quem eu sou primeiro, pra depois adaptar. Me adaptar. Pintar o cabelo da cor certa, eu acho. Mas por enquanto, não. Eu não acho que nenhum filtro do Instagram vai me salvar.

Nicole parece constrangida. Porra, eu estou constrangida.

— Eu não consigo, Íris.

— O quê?

— Combinar o de dentro com o de fora. Não do jeito que eu queria, pelo menos.

Eu sempre me assusto com o quão bonita a Nicole é.

Alguém está batendo na porta.

— Cacete! A gente não tá conseguindo abrir a porta!! — Nicole é bem mais rápida do que eu na hora de inventar uma desculpa. — Tentar puxar aí de fora, por favor! — Ela olha pra mim, dá de ombros, e destranca a porta.

— Então você tava aqui esse tempo todo, Íris — Murilo lança um olhar desconfiado para Nicole, entra no banheiro e me abraça. — Tá todo mundo preocupado. É hora da dança. Vamo.

Eu deixo ele me levar pra fora do banheiro.

Eu olho para trás e Nicole pisca pra mim.

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Sobre Odhara C.

Drama queen um tanto sincera demais. Dog person. Gosta de dar conselhos e de fazer filosofias de boteco. Ela escreve no blog Meu Coração É Um Nervo Exposto (http://umnervoexposto.wordpress.com) e dá o ar de sua graça uma vez por semana em caixas de entrada alheias com uma newsletter (http://tinyletter.com/umnervoexposto).