15 personagens que não ligam para estereótipos


Organização: Mareska Cruz e Priscilla Binato

 

Blair Waldorf (Gossip Girl), por Sofia Soter

Se Gossip Girl é minha série favorita, é com certeza por causa da acidental protagonista Blair Waldorf. Uma adolescente mimada, perfeccionista, estudiosa e sempre impecavelmente arrumada, Blair poderia ser a própria imagem de bela, recatada e do lar. No entanto, Blair é também ambiciosa, poderosa e dona de si como poucas personagens de séries adolescentes: faz de tudo para conseguir o que quer (seja uma nota melhor, uma vingança cruel ou seu próprio principado), é clara e comunicativa sobre seus desejos (inclusive sexuais, de forma muito pouco mostrada nesse tipo de série) e é minha inspiração (um pouco inapropriada) de vida.

 

Kathryn Merteuil (Cruel Intentions), por Sofia Soter 

Como Blair Waldorf, Kathryn Merteuil é uma adolescente mimada, perfeccionista, estudiosa e sempre impecavelmente arrumada. No entanto, ela usa sua aparente imagem de tradicionalmente feminina, bela e recatada a seu próprio favor, quase como um escudo que impede que as pessoas vejam suas crueldades e manipulações. Um escudo, mas um escudo nascido de uma prisão – Kathryn sabe que, em seu universo, precisa aparentar um grau preciso de perfeição e feminilidade, e que sem essa máscara seu mundo desmorona. Nas palavras da própria: “God forbid I exude confidence and enjoy sex. Do you think I relish the fact that I have to act like Mary Sunshine 24/7 so I can be considered a lady? I’m the Marcia fucking Brady of the Upper East Side, and sometimes I want to kill myself.”

 

Annalise Keating (How to Get Away With Murder), por Bruna Kalil Othero

É só falar que ela é uma advogada foda, ganha todos os casos e ainda samba na casa dos racistas porque é negra e empoderada. Maravilhosa!

 

Capitolina Pádua (Dom Casmurro), por Bruna Kalil Othero

Mais conhecida como Capitu, a maior protagonista da literatura brasileira pode ser bela, mas nada tem de recatada. Deixando de lado a questão da traição (afinal, isso não importa), Capitu, desde a adolescência, se mostrou uma mulher independente e corajosa. Porém, o século XIX não estava preparado para esse tipo de ousadia, e todos nós sabemos como ela termina a história. Podemos dizer o mesmo de Emma Bovary, de Gustave Flaubert; e uma menção honrosa à Luísa, de Eça de Queirós.

 

Josephine Montfort (These Shallow Graves), por Rovena


A sociedade do século XIX quer que Josephine Montfort seja o que eles que esperam de todas as outras meninas “para casar”(pff): bela, recatada e do lar (pff2). Só que eles estavam enganados. Jo é uma rebelde, uma garota que não se conforma com os estereótipos criados pela sua sociedade ultrapassada e machista. Jo sabe que meninas só são chamadas de teimosas quando elas se recusam a fazer algo que os outros queriam que elas fizessem. Jo é curiosa e aventureira, coisas que ela sabe que podem comprometer o seu futuro na elite nova iorquina. Mas ela não se importa com nada disso, porque o que Jo que mesmo é ser jornalista e usar a sua voz para contar as histórias daquelas mulheres que ninguém mais escuta. E Jo arriscaria tudo, até mesmo o seu bem-estar, para desvendar qualquer segredo e mistério.

 

Margaux Motin (Placas Tectônicas),  por Mareska

Placas Tectônicas é uma hq autobiográfica da quadrinista e desenhista francesa Margaux Motin, que é nossa protagonista bela, recatada e do lar. Ela nos mostra sua face mãe, mulher, filha, feliz, infeliz, divorciada, amando, não amando, bebendo demais e fazendo vergonha, bebendo de menos e fazendo vergonha mesmo assim porque afinal quem nunca, acertando em coisas e errando em outras, às vezes mais errando do que acertando mas bola pra frente tem outros erro pra cometer, sendo relax, sendo neurótica, senso sensata e sendo completamente louca, xingando, fazendo o que quer, declarando que vai votar no próprio cu e, acima de qualquer coisa, sendo feliz e dona da própria vida.

 

Sarah Connor (Exterminador do Futuro), por Priscilla Binato

Sarah Connor é uma das maiores mulheres belas, recatadas e do lar. Interpretada pela Linda Hamilton (muito bela), ela descobre que o seu filho vai ser o futuro salvador da humanidade depois do Dia do Julgamento e do apogeu das máquinas que quase levam a raça humana à extinção. O que ela faz quando descobre isso? Vira quase nômade, vivendo dentro do seu jipe, se esconde em florestas e aprende a lutar e sobreviver. Tudo para poder fazer com que o seu filho siga o seu próprio legado e possa ser ensinado as coisas que são necessárias. Afinal, uma mulher de família, obviamente. Ela não usa saias na altura do joelho porque está sempre de calças, coturnos e com o máximo de armamento que puder consigo. Quando não está em encontros sociais com ciborgues vindos do futuro que querem lhe matar, Sarah tem o hábito de ser uma das mulheres mais incríveis do cinema.

 

Jenna Hunterson  (Waitress), por Priscilla Binato

Waitress é um filme de 2007 (que quase ninguém viu, mas todo mundo deveria ver!) que conta a história de Jenna, uma garçonete e cozinheira em uma loja de tortas. Ela tem uma vida bem bosta. Está casada com um homem que desconta todas as frustrações da vida dele nela, mas que, além disso, é abusivo monetariamente e sexualmente. Jenna está tentando se divorciar dele e juntar dinheiro do seu salário (que ele controla) para se inscrever em um concurso de tortas que ela tem certeza que vai ganhar – e o prêmio é em dinheiro, o que lhe ajudaria bastante. Só que todos os seus planos vão por água abaixo quando ela engravida (em uma relação nada consensual com seu marido) e agora tem que decidir o que fazer. Jenna, então, se apaixona pelo seu ginecologista e tem um pequeno caso (mas tórrido) com ele. Só que ao invés de ter que escolher os dois homens, Jenna escolhe a si mesma e a sua filha. O filme é lindo demais (sempre choro) e agora ele virou um musical com todas as músicas escritas pela Sara Bareilles, que também uma bela, recatada e do lar!

 

Amy Elliot Dunne (Gone Girl), por Priscilla Binato

Amy Elliot Dunne é uma mulher muito bela, recatada e do lar. Ela é a esposa perfeita, apoia o seu marido durante as crises do relacionamento e quando os dois ficam desempregados. Ela se muda para a cidade do interior onde ele cresceu quando a sua mãe fica doente e se torna uma dona de casa, tudo para ajudar o seu marido. Só que Amy, na verdade, não é nada disso. Como ela mesmo diz, Amy não poderia ser nada disso porque a “garota legal” é uma farsa do que os homens gostam de acreditar. “Ela é a garota legal. Ser a garota legal significa que eu sou linda, brilhante, engraçada, que adora futebol, pôquer, piadas sujas e arrotos, é aquela que joga videogames, bebe cerveja barata, ama sexo à três e sexo anal, que come cachorro quentes e hambúrguer enquanto continua usando roupas P, porque a garota legal é a mais gostosa. Gostosa e compreensiva. Garotas legais não ficam bravas, elas apenas sorriem e deixam seus homens fazerem o que eles quiserem. Vá em frente, me xingue, eu não ligo, eu sou uma garota legal.”

 

Eugenia “Skeeter” Phelan (Histórias Cruzadas), por Nina Spim

Skeeter acabou de voltar da faculdade, nos anos 60. A cidade onde mora é aquele típico lugar mente fechada e a sociedade ali, a verdadeira “recatada e do lar”. As conhecidas de Skeeter já estão casadas e com filhos e esperam que a moça seja uma cópia delas – uma mulher de enfeite, do lar e mamãezinha (sem ser realmente mamãezinha, já que o trabalho fica para as empregadas negras). Mas Skeeter quer muito mais do que um marido e filhos, ela quer ser escritora e contar uma história. É justamente por causa de sua ambição que revoluciona, de começo de forma muito escondida, aquele lugar. Interessada nas vivências que as empregadas negras têm para contar – as humilhações, as provações, as mágoas pelas patroas -, a garota que nunca teve um par para o baile e que se achava feia trilha seu próprio caminho sem se importar com as mulheres belas, recatadas e do lar que a rodeiam.

E o melhor de tudo é que, apesar de conseguir por um breve recorte de tempo um “namorado”, ela não se sente nada culpada ou triste por perdê-lo por causa de suas palavras escritas e publicadas. Skeeter é maravilhosa primeiro porque, naqueles tempos, uma garota escrever algo tão “subversivo” (o racismo) era completamente impensável (deveria estar escrevendo conselhos sobre limpeza, claro) e segundo, porque a humanidade e sensibilidade que ela passa na storyline ao tratar as empregadas negras como pessoas é algo muito tocante e memorável (lembrando que, naquela época, havia um pensamento consonante de que os negros passavam doenças e, por isso, deveriam ter banheiros só para eles, fora da casa dos patrões).

 

Gina Lineti (Brooklyn 99) por Lorena Pimentel

Ah, Gina, por onde começar? Se Flawless fosse uma pessoa, essa pessoa seria Gina Linetti. Em resumo, ela é secretária da delegacia de polícia em Brooklyn Nine-Nine e, no começo da série, todos descartam sua opinião. Afinal, ela é fútil: passa o dia olhando suas mensagens e seu reflexo no espelho.

Mas o que aprendemos sobre ela é que na verdade ela é uma ótima amiga, é super inteligente, consegue ter umas sacadas que ninguém mais na delegacia tem e, olha só: sem perder sua personalidade.

Além de ser extremamente segura de si (e basicamente o pior pesadelo de quem diz que a geração atual é muito narcisista), ela não aceita os limites hierárquicos impostos pelo ambiente de trabalho, dá sua opinião sempre e não deixa que ninguém pise em cima dela por achá-la inferior. Rainha do drama, rainha dos comebacks sarcásticos e, sem dúvidas, rainha da série.

 

Sansa Stark (Game of Thrones) por Irena Freitas

Sansa Stark é bela, recata e do lar.

Ela foi criada pra ser a esposa perfeita, ela genuinamente gostava da vida doméstica, sabe bordar, cozinhar e, mais importante, aprendeu a não opinar mais alto que a voz do marido.

Quando Sansa foi prometida em casamento ao futuro rei de Westeros ela ficou feliz. E porque não ficaria? Ser rainha era o mais alto que uma menina poderia ousar a sonhar e ela ainda estaria agindo de acordo com os interesses de sua família.

Aos onze anos (sim, essa é a idade dela inicial nos livros) ela foi mandada para corte como oficialização do seu noivado, um lugar completamente de onde ela cresceu, onde ela não tinha em quem confiar e sem nenhum aviso prévio dos pais que os Lannisters eram leões em todos os significados figurativos da palavra.

Sansa fez o que qualquer menina em sua condição poderia fazer: tentou agradar a família do seu noivo.

E o que conseguiu nesse processo? Incitar o ódio de todos os fãs da série e do livro.

Como ela ousava cumprir o papel ao qual foi ensinada a vida inteira?

Como ela ousava a confiar na sogra?

Como ela ousava ir contra o pai? Mesmo quando este ofereceu zero apoio emocional ou, ao menos, conselhos políticos quando a filha chegou a corte?

Como Sansa ousava ser tão bela, recatada e do lar?

Porque ela não era igual a irmã, Arya?

Uma das coisas mais interessantes do livro de Game of Thrones, e que muitas vezes a série deixa passar batido, é como Sansa e Arya são lados da mesma moeda. Ambas tentam da melhor forma que podem se encaixar na sociedade em que vivem, mas assim como a rebeldia de Arya é malvista a passividade calculada de Sansa também é, o machismo sufoca a personalidade das duas de forma distinta, mas com a mesma intensidade.

É engraçado ver como o ódio dos fãs direcionado a Sansa está sempre diretamente interligado ao fato da personagem se sentir confortável dentro do cânone do que representa o feminino.

Chega até ser irônico a personagem ser tão julgada por uma sociedade que diz até hoje que cozinhar, lavar, cuidar dos filhos e marido é coisa de menina.

É uma insistência quase sádica de impedir que mulheres vençam. Mulher não pode falar muito alto que é considerada histérica, não pode falar baixo também porque é sinal de fraqueza e falar num tom médio, Deus me livre! Imagina se isso der ideia de que ela pode dialogar com homens de igual pra igual?

Mas enquanto Sansa era constantemente julgada, por fãs e pelos próprios personagens da série, ela fez questão em fazer de sua passividade um escudo.

É necessário você ser especialmente forte para não se tornar uma pessoa violenta após todas as violências que Sansa foi vítima ou presenciou.

Para conseguir manter a dignidade e a compostura mesmo todos ao seu redor tentam ao máximo te provocar.

E em especial: para continuar sendo uma pessoa genuinamente boa e esperançosa mesmo quando tudo ao seu redor está se ruindo.

Sansa Stark é bela, recata, do lar e forte.

 

Olanna (Meio Sol Amarelo), por Lara Matos

 

Olanna, mesmo cercada de privilégios e com a opção de fugir para um país estrangeiro, escolhe lutar pela independência de Biafra, região da Nigéria com maioria católica e de etnias igbo e iorubá. Da maneira que pode, em meio à tanta violência e perigos, educando as crianças dos centros de refugiados, tentando conseguir comida com a distribuição das forças humanitárias, injetando ânimo em homens e mulheres que partilham o mesmo ideal que ela, a personagem enfrenta sua realidade.

Muitos acontecimentos do livro tentam aprisionar Olanna aos padrões e preconceitos da época em que vive, os anos 60, mas ela distancia-se de todos eles, não sem antes fazer considerações a respeito de sua liberdade tanto enquanto mulher como cidadã da futura Biafra. Olanna tem a coragem ímpar de se auto analisar e negar muitas imposições feitas a ela, mesmo que isto desagrade seus pais ou seu marido, que muitas vezes sugerem a Olanna caminhos que, se seguidos, sacrificariam de modo cabal seu espírito.

 

Hypatía Belicia Cabral ou “Beli” (A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao), por Lara Matos

 

Desde muito jovem, Beli, mãe do personagem título, demonstra ser voluntariosa e anti convencional, contrastando com suas colegas de colégio católico da República Dominicana na Era Trujillo. Beli é uma moça muito bonita, mas mestiça com haitianos, o que a faz fora do padrão, bem como seu comportamento desabrido e sem maiores pudores. Beli bebe, sai, namora, e tudo isso representa sua ânsia por ser ela mesma e satisfazer seus gostos e curiosidades imersa em uma alegria vibrante, mesmo com toda a repressão que a cerca e no fim, consegue reprimi-la.

 

Apesar dos conselhos e apelos de sua tia, La Inca, Beli infelizmente abandona os estudos, apaixona-se, engravida e quase morre por isso, mas nunca deixa de seguir seu espírito. Em consequência disso, muda-se para Union City, em Jersey, EUA, onde se casa e tem dois filhos. Hypatía apresenta comportamento um tanto amargo nesses anos (o que também pode esconder um estado depressivo profundo), mas que vai sendo destrinchado como mecanismo de defesa ante as desventuras constantes de sua vida. Muito da vida de Hypatía serve de exemplo para o próprio filho, o Oscar Wao do título, aprender a levar a vida com mais alegria e menos restrições, encontrando razões e felicidade em sua vida, breve, mas fantástica como nos diz o título.

 

Peggy Carter (Agent Carter | Marvel Cinematic Universe), por Bruna Romão

Década de 40: definitivamente uma época em que ser bela, recatada e do lar era tudo o que se esperava de uma mulher. Mas não Peggy Carter, que enfrenta esse sexismo todo chutando a bunda de todos os caras (literal e figurativamente). Depois de lutar lado a lado com o Capitão América na 2ª Guerra Mundial, Peggy vai à Nova York para trabalhar em uma unidade da SSR (Strategic Scientific Reserve), agência do governo americano criada para proteger o país de ameaças de guerra – a 2ª Guerra Mundial tinha acabado, mas a Guerra Fria já estava rolando e trabalho era o que não faltava. Apesar de toda a sua capacidade, Peggy é tratada como mera secretária pelos outros agentes – todos homens, é claro. Eles fingiam se esquecer de tudo o que ela fez durante a Guerra e que é provavelmente (ou definitivamente) a melhor agente entre todos eles. Mas ela sabe o seu valor e decide que  esses homens não vão pará-la, e começa a agir secretamente bem debaixo do nariz deles.

 

Peggy se aproveita da forma como todos os homens a subestimam (afinal, uma mulher não pode ser nada além de inofensiva) para conseguir o que precisa do seu jeito, seja entrando numa reunião e fingindo servir café para conseguir informações, seja se disfarçando e enganando homens para no fim nocauteá-los (e como ela é boa nisso!). Peggy Carter é bela, usa saias e batom vermelho, mas sabe lutar e atirar como ninguém.

 

 

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