14km


Texto: Marina Cavalcante

Diogo: Então, Kaian, tu tá dizendo que pra pessoa amadurecer tem que sair de casa?!

 

Kaian: Não necessariamente, Di, mas todo mundo sabe que sair de casa mexe com o seu amadurecimento. Você tem que administrar aquele dinheiro, seus horários, as contas… A vida, né, manas.

 

Diogo: Pois tem muito marmanjo morando sozinho e cada vez mais imaturo, viu.

 

Mari: Ah, o que Kaian falou depende, né. Tem gente que sai de casa e a mãe continua pagando as contas. Isso é amadurecer onde?

 

Luísa: Mas são exceções, Mari, situações isoladas…

 

Mari: Olha, eu não sei se são tão isoladas assim não viu…

 

Diogo: Galera, eu acho que isso de sair de casa pra amadurecer é relativo. Meu irmão mesmo. Ele tem emprego, mora em outro estado mas depende de mainha pra tomar decisões na vida dele. Um dia desses ele tava querendo comprar um óculos novo e, vê mesmo: dirigiu oito horas até aqui só pra ir comprar esse óculos com mainha. Tu pode com uma coisa dessas?

 

Mari: Sim, eu te entendo. Porque uma coisa é você ter independência financeira. O teu irmão tem. Outra coisa é independência emocional. Teu irmão não tem.

 

Diogo: SIM. Justamente, Mari. É o contrário de mim: eu não tenho independência financeira mas tenho emocional.

 

Mari: Rapaz. Assim. Eu já morei fora de casa, né. E foi em outro país. E eu tava lá fora na base de bolsa. Ou seja: não era mainha que me sustentava, eu é que conquistei o direito à bolsa. E foi massa, sabe. Eu sinto que amadureci muito mesmo. Foi life changing pra mim. Mas veja só, todos os anos que morei com minha avó, em especial os últimos três anos… Caramba, sinto que sou uma pessoa muito experiente por ter morado com vovó. Convivência com vovó pode ser punk. Vovó toma remédios. Muda de humor. Ela é muito amorosa e no minuto seguinte tá chorando e colocando a culpa da infelicidade dela em mim. Gente. Sério. Foi até traumatizante ter vivido tudo isso. Mas sinto que criei casca. Muita gente pode achar “Ah, ela vivia com a avó no bem bom”. Mas não. Não era assim. Foi difícil. Era eu e ela só. Ela não é fácil. Passei de neta pra mãe da minha avó. Naquela situação e naqueles anos todos, se aquilo lá não foi amadurecer, então não sei o que foi.

 

Luísa: Mas tu acha que tu precisava passar por tudo aquilo com tua avó pra amadurecer?

 

Mari: Porra, não necessariamente, sabe, Luísa. Mas a vida né. Amadurecer não é só tipo, pegar uma lista de coisas que adultos devem fazer pra parecerem maduros e ir lá fazer, postar foto, tudo certo, amadureceu. Amadurecer é também não seguir a lista e ter que lidar com o que tá fora do script. Aí é que o bicho pega né não?

 

Kaian: Pode crer.

 

Diogo: Amiga, sim. Faz todo sentido isso que tu tá falando.

 

Mari: Mas também tem o seguinte: Diogo diz que amadurecer saindo de casa é relativo porque o irmão dele mesmo, saiu de casa e ainda precisa da mãe pra escolher um óculos. Beleza.

 

Kaian: Hahaha que irmão é esse, gente hahaha

 

Mari: Peraííí, Kaian! Deixa eu concluir meu pensamento.

 

Kaian: Conclua, mulher. Vá… Prossiga…

 

Mari: Então. Como eu tava falando… Diogo tá se comparando ao irmão pra provar que sair de casa não é igual a amadurecer. Mas e se a gente parar de se comparar aos outros e se comparar a nós mesmos?

 

Diogo: Uhum. Acho que tô entendendo onde tu quer chegar. No caso, independente do meu irmão ser um babaca ou não…

 

Luísa: Ela não falou que teu irmão é babaca, menino!

 

Mari: É, pô. Isso aí é tu quem tá dizendo kkkkk

 

Diogo: Tá bom. Tá bom. Não vamos mais criticar meu irmão que é babaca, mas enfim. O que tu quer dizer é que, independente da experiência do outro com a maturidade e com o sair de casa e etcetera… Eu é que tenho que partir da minha experiência, eu, Diogo, e comparar: Diogo morando na casa de mainha é mais ou menos maduro que o Diogo morando fora da casa de mainha? É isso, né?

 

Mari: É. Não necessariamente morando fora da casa da tua mãe que tu vai amadurecer, mas poxa, bora parar pra pensar né: as fases de nossas vidas, como foram até aqui? Onde e quando percebemos que evoluímos, que rolou um amadurecimento massa? Eu digo que me senti amadurecendo muito tanto quando morei fora do país quanto nos últimos anos morando na casa de vovó. E assim, tenho plena consciência de que quando eu sair de casa novamente, minha mãe vai me dar todo o suporte inicial. Meu plano é, claro, conquistar independência financeira completa dela com o passar dos meses. Mas e se não rolar? Vou me sentir menos madura? Vou ser um fracasso pro mundo adulto? Pra mim?

 

Kaian: Viado, tu mesma se perguntou lá no começo da conversa se, no caso de quem sai de casa e a mãe continua pagando as contas, se essa galera tá amadurecendo ou não. E agora tu tá se contradizendo e dizendo que quando tu sair de casa, tua mãe vai te ajudar. Ah, Mariana, a senhora está um pouco confusa viu.

 

Mari: Justamente, Kaian. Justamente. Tô me perguntando qual o termômetro pra essas coisas. Qual o termômetro pro amadurecimento?

 

Diogo: Mariana sempre vem com aquelas perguntas PAM, né.

 

Luísa: Mas eu acho, Mari, que a resposta está no que tu já falou. O termômetro é justamente cada…

 

Mari: Cada um. Sim! Porra, com certeza.

 

Kaian: Mas peraí, Mariana… Veja só.

 

Diogo: Lá vem Kaian…

 

Mari: Deixa, Di, eu gosto de ouvir quem discorda do que eu digo.

 

Diogo: Sei. HAHA! Falou a aquariana dona da verdade.

 

Mari: Kaian… Desenvolva…

 

Kaian: Então, manas. Se o termômatro somos nós mesmos… Ops! Termômetro! Já tô bêba, gente, excuze-moi. Enfim, esse termômetro tem que partir de algum parâmetro, de alguma comparação. Não só partir de nossas experiências, sabe.

 

Mari: Sem dúvidas, Kaian.

 

Diogo: Amo que Mariana sempre arruma uma forma de concordar com todo mundo né.

 

Mari: Ascendente em Gêmeos, né, queridas. Concordo com tudo e com nada ao mesmo tempo. Mas tipo, voltando à conversa: faz todo o sentido do mundo o que Kaian fala. Não discordo dele, não discordo de mim, de nenhum de nós. O termômetro é individual e social ao mesmo tempo.

 

Tenho amigo que saiu de casa e a mãe paga grande parte do que tem que ser pago pra pessoa viver fora da casa dos pais. E tá tudo bem. Tenho amiga que planeja bem direitinho sair da casa da mãe daqui a um tempo, com tudo acertado, conseguindo se sustentar 100% ou o mais perto disso possível. E tá tudo bem ela ainda estar na casa da mãe aos 25 e ao mesmo tempo se planejar pra sair. Vocês mesmo sabem que eu atualmente sou completamente sustentada pela minha mãe, né. Eu não me envergonho disso mas também não acho que estou certa. Nem errada. Bem, meus planos são diferentes e envolvem mudanças maiores que a de bairro ou de cidade.

 

Tem gente que dá valor ao ter carro, por exemplo. Eu num tô nem aí pra isso. Se amadurecer é ter um carro, pra mim amadurecer é também dar valor à qualidade de vida, e qualidade de vida pra mim é morar num lugar em que eu não precise de carro pra me locomover ou pra provar que cresci, que sou bem-sucedida. Mas ao mesmo tempo, vejam só, tenho outro amigo, Armando, que conseguiu comprar o primeiro carro dele do próprio bolso e trabalho. Isso é admirável. Meus amigos que tem carro foi painho e mainha que deram. Já eu nem carteira de motorista tenho e ao mesmo tempo mainha quem paga meu Uber. Vocês entendem o quanto isso tudo de valores e tal é bem relativo? E ao mesmo tempo não.

 

Kaian: Total, véi.

 

Mari: O termômetro pode partir da gente mas ele não deixa de ser uma construção social. Com certeza o irmão de Diogo sabe que, apesar dele ser independente financeiramente falando, ele não é tão independente assim emocionalmente. E talvez ele esteja de boa com isso. Mainha mesmo, poxa, Mainha só foi sair da casa da minha avó alguns anos atrás. Mas se você for procurar saber da nossa história de vida enquanto mãe, filha e avó, vai entender TODO o rolê. Imagina eu deixar as críticas do “tem que sair de casa quando se formar na faculdade” que parte de alguns amigos com vinte e poucos afetarem a história de vida super admirável da minha mãe. Jamais. Jamais, gente.

 

Diogo: Jamé, mané!

 

Kaian: Manas, se eu não tô louca, acho que já chegamos na festinha.

 

Luísa: Kaian, você pode até estar louca de Catuaba mas também está certa no GPS. Chegamos, finalmente!

 

Mari: Ai Deus. Será que meu ex vai tá aí mesmo, hein. Num sei se vou ficar bem.

 

Diogo: Mariana, e se ele tiver, qué que tem??

 

Luísa: Num é, menina. Tu tá aí toda produzida. O máximo que vai acontecer é ele te olhar de cima a baixo e te chamar pra casa dele. É o que eu digo: o leite só começa a ferver quando a gente sai de perto.

 

Kaian: A Luísa, discreta porém tapas na cara, né.

 

Mari: Hahaha queria nem rir! Bora entrar logo, né, minha gente. Já deu de papo filosófico…

 

Diogo: Já deu de papo sobre ex…

 

Mari: Já vou separar o dinheiro pra comprar meu Axé…

 

Kaian: Menina, repara naquele boy com os dreads vermelhos. Socorro! Que homem!

 

Mari: Bora, Kaian… Paquera e anda. Paquera e anda. Paquera e anda…

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Sobre Marina Cavalcante

Também conhecida como Marina Brazil, a escritora de 25 anos é nascida e criada em Recife, Pernambuco. Formada em Jornalismo pela UFPB, Marina realiza a Feira Cria (@feiracria), uma feira de arte impressa e publicação independente originada em João Pessoa – Paraíba, seu atual endereço. Já morou em Campinas (SP) e em Melbourne (VIC), na Austrália. Planeja chamar de lar uma nova cidade no mundo em que lhe faça sentido aprender, rir, chorar e amar. Brasil e Nordeste, além de origem, são identidades mas não necessariamente destinos. Escrever é verbo presente. Para mais de Marina, visita o blog dela: marinabrazil.com.br.