A angústia permanece: considerações sobre a arte de manter diários


E se você chegasse ao fim da vida e só então percebesse que não estava prestando atenção? Essa foi a principal motivação da escritora Sarah Manguso ao decidir manter um diário, o que conseguiu tornar hábito por diversas décadas de sua vida. Ela temia a mediocridade, a possibilidade de passar pela vida sem registrar qualquer coisa de valor, mesmo que somente em sua memória. Porque sim, a necessidade de escrever é grande. Quais as chances de alguém guardar uma vida inteira na cabeça, sem ao menos modificar algo aqui e ali? Mesmo sem querer. Melhor tentar registrar tudo por escrito.

“Isso aconteceu assim ou eu me lembro assim?” é a primeira coisa que uma pessoa se pergunta (ou deveria se perguntar) quando posta de frente com a questão da memória. Por isso os diários aparecem como uma alternativa razoável a alguém que não quer esquecer. Se fosse apenas isso, entretanto, qualquer discussão rápida provaria que perdemos mais tempo escrevendo sobre a vida do que de fato vivendo. Porque no fim das contas, vamos todos morrer e ser afogados em esquecimento e toda essa história pessimista que já estamos cansados de saber. Passem eras geológicas ou só o tempo necessário pra sua família te esquecer, tudo acaba da mesma forma que começou na grande ordem das coisas. Então por que tentar lembrar?

No âmbito individual, tudo parece meio sem sentido. E o que é um diário senão a mais absoluta expressão de um indivíduo? Justamente aí reside toda a força – não apenas poética – de um diário. Ele não funciona bem como um registro fiel dos fatos, mas é único no registro fiel das sensações humanas. Apenas um relato pessoal, sincero, com tons de confissão, é capaz de capturar todas as nuances internas de uma vida; sentimentos escondidos, narração despida de todo e qualquer filtro. Um diário compila, principalmente, o que alguém, em um determinado momento, achou importante. A intenção é muito mais válida do que os fatos em si. Um diário é, antes de mais nada, sobre esquecimento. Não é sobre lembrança; é impossível que ele se torne um catálogo histórico forte ao passar pelo filtro poderoso da individualidade de quem o escreve. É sobre esquecimento porque ele registra nossa vontade de lembrar da maneira como algo pareceu acontecer ao invés de como algo de fato aconteceu. Escrevemos diários, parafraseando Sarah Manguso, para ter certeza de que estamos prestando atenção.

Tudo bem bonito na teoria, mas a angústia permanece. Do que adianta prestar atenção se depois quase ninguém (ou ninguém mesmo, sempre possível) vai ler? Ou até mesmo se você for a Sylvia Plath e analisarem seus diários por décadas a fio. De que adianta, se você está mesmo morta e já sofreu o suficiente para se suicidar de forma trágica? Talvez não signifique muito para a própria Sylvia Plath, principalmente tendo em vista que nesse exato momento ela não existe mais exceto como abstração da mente de quem tem contato com a sua obra e algum eventual familiar ainda vivo. Mas, no grande esquema das coisas, adianta muito.

Gostaria de ser qualquer um, aleijado, moribundo, puta, e depois retornar para escrever sobre meus pensamentos, minhas emoções enquanto fui aquela pessoa. Mas não sou onisciente. Tenho de viver a minha vida, ela é a única que terei. – Os Diários de Sylvia Plath 1950-1962

Não faz diferença se quem escreveu esse fragmento foi a Sylvia Plath, a Sarah Manguso ou uma menina que estudou com você no ensino médio e você nem lembra mais. Se uma única pessoa tiver acesso a isso, o estrago já está feito: essa bagunça da experiência humana já foi compartilhada. É só ler sobre o quanto ela queria ser capaz de viver diferentes vidas em uma só que você já foi contaminado pela ideia de que talvez sejamos muito limitados. Você pode concordar ou não, mas ali você está, décadas depois, sofrendo um choque com algo que um mísero ser humano sentiu com tanta força que achou melhor perder uma noite de sono para escrever.

A vida acontece a todos, de maneira muitas vezes incontrolável. O tempo e a subjetividade vão moldando nossa memória de maneira que, inevitavelmente, lembraremos apenas de resumos do que de fato aconteceu. Talvez você tenha mantido um diário. Talvez você o mantenha até hoje. Pode ser que ele comece com “Querido diário” e siga com detalhes inúteis do seu cotidiano. Ou quem sabe ele é quase uma versão ficcionalizada da sua vida. De qualquer forma, é importante que ele exista.

Nada é real, exceto o presente, e mesmo assim já sinto o peso dos séculos a me esmagar. Uma moça, há cem anos, viveu como vivo. E ela está morta. Sou o presente, mas sei que também passarei. O momento culminante, o relâmpago fulgurante, chega e some, contínua areia movediça. E eu não quero morrer.Os Diários de Sylvia Plath 1950-1962

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Sobre Milena Martins

Milena tem 23 anos, é carioca da gema e paulistana em treinamento. O chapéu seletor gritou Lufa-lufa antes de encostar na cabeça. Estuda Letras e gosta mesmo é de falar de livros e divas pop. Continua não fazendo a menor ideia do que está fazendo com a sua vida, mas gosta de fingir que sim.