Pra não dizer que não falei das flôres


Quando eu estava na segunda série e a internet ainda não era tão acessível no ambiente escolar – falando assim parece que faz muito tempo, né? Foi em 2001, mas em anos de internet isso é uma eternidade – a gente tinha que levar livros pra fazer pesquisa na aula. Imagine então um monte de crianças carregando volumes de enciclopédias pra escola.

No caso da segunda série, minha professora dividiu a sala em grupos. Cada grupo ficava com um continente e, dentro de casa continente, cada criança tinha que pesquisar um animal que vivia lá. Meu grupo pegou a Oceania e acho que até hoje esse é o único motivo pelo qual eu lembro que a Oceania é um continente. Eu, no caso, fiquei com a missão de escrever sobre o kiwi.

Conheçam o kiwi

De qualquer forma eu, a criança overachiever – quando foi que isso se perdeu? -, carreguei um livro sobre ecossistemas que meus pais tinham na estante pra escola e já tinha lido a parte sobre a Oceania e seus animais. Já sabia que o tal kiwi vivia na Nova Zelândia, era onívoro e parecido com avestruzes e emas. Eu fiz rapidinho meu relatório e, como não tinha nada pra fazer, comecei a folhear o livro enquanto as outras crianças faziam o trabalho.

De repente, em uma sala quieta – será que a nossa professora dava esses trabalhos só pra curtir um silêncio de vez em quando? É provável, já que ela passava todas as manhãs com crianças agitadas – eu comecei a rir sozinha. Sempre a criança tímida, quando me dei conta que todos podiam me ouvir, fiquei quieta. Virei para uma amiga, que sentava do meu lado e mostrei a folha do meu livro. Ela falava das flôres típicas de uma região do mundo. Assim mesmo, com um acento circunflexo. Não, peraí, flores não têm acento. Eu tinha certeza disso. Mas minha professora, sentindo a crise da criança recém-alfabetizada, veio me explicar que a língua muda e algumas regras também, que é normal.

Fast-forward para o segundo ano do Ensino Médio. A tecnologia tinha avançado nas salas de aula e minha professora passava slides sobre a Revolta dos Cipaios. Eis que algum dos alunos -comentaristas resolveu que era uma boa hora pra dizer “nossa, Cipaios, parece que é a revolta de quem fala se pá“. A professora, é claro, disse que não entendia porque nós falávamos se pá, que parecia que a gente não falava as coisas direito. Que a gente precisava parar de usar gírias assim se queríamos ser levados a sério.

Eu, que ainda falo se pá (ou seria sepá?) para o desespero de amigos de outras cidades, acho que a resistência em relação à linguagem mudando se mostrou mais comum do que eu esperava.

Gírias costumam ter esse efeito. Dada a natureza efêmera delas, é no mínimo esperado que a gente supere quando as próximas vieram, mas confesso que às vezes ainda sinto que não peguei alguma referência que meus amigos fazem porque é uma gíria-derivada-de-um-meme que eu ainda não conheço. Sabe como é, século XXI e toda uma nova era se inicia quando uma criança é filmada fazendo algo engraçado.

Não só as gírias, mas novas grafias e regras gramaticais diferentes. Antes do novo acordo ortográfico, você poderia achar que a gente teria prioridades na vida. Mas não, o grande apocalipse viria com a retirada do trema de linguiça. Se as flores podem viver sem o circunflexo, a linguiça ainda é boa pro churrasco sem um trema.

Nem sempre o tempo é o causador dessa resistência, a causa pode ser geográfica. A Milena pode atestar que nossa maior discórdia não é nem biscoito x bolacha, é a questão bica x torneira. Eu sigo achando que bicas são canos de onde sai água, mas se você coloca um outro dispositivo pra regular o fluxo, vira uma torneira.

A melhor coisa da linguagem é sua fluidez. A gente fala diferente, escreve diferente, dependendo de quem vai ler, dependendo das nossas influências de memes, dependendo da nossa idade, da nossa cidade. No caminho, vamos perder acentos, unir antissociais e separar micro-ondas. E vai ficar tudo bem. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, com outro nome não teria igual perfume?

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@buzzedwhispers) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.

  • não faço ideia do que você esteja falando, miga

  • Pra que você foi falar de kiwis? AGORA ESTOU COM O VÍDEO DO KIWI PASSANDO NA MINHA CABEÇA!