Obrigado pelas memórias – Editorial #6


Memória é uma coisa bem curiosa.

Tem um quê de eternidade nesse conceito. As pessoas ficam na memória, a memória histórica, uma pessoa importante relatando suas memórias em forma de livro. Brincar de jogo da memória na infância. Talvez nem esse, na verdade. Se você gostava de jogos de perguntas, a grande vitória era ter o jogo há tanto tempo que você já sabia todas as respostas sem piscar. Ou, como bem queriam nossos professores de matemática do Ensino Fundamental, memorizar o conteúdo. Mas como qualquer pessoa de humanas pode ter te contado, memorizar a tabuada na segunda série não significa que ela vai ficar lá pra sempre. Vai chegar a hora em que você vai estar parado em frente a um caixa se sentindo julgado por esquecer que 4 x 6 = 24 e que você segurar uma nota de 20 e uma de 2 vai fazer o caixa te olhar estranho.

Porque memória também é fluida. É difícil lembrar do que você comeu anteontem, por exemplo. E você pode estar se perguntando: ok, mas e daí? Não é algo que influenciou muito sua vida. Mas também é difícil lembrar do nome daquele amiguinho da pré-escola. É difícil, depois de algum tempo, lembrar da voz de pessoas que nos deixaram. Fatos da vida que nos influenciaram, mas dos quais nós não nos lembramos.

Sem contar que a memória é bem manipulável. Você nunca parou para se perguntar se aquela lembrança de infância era mesmo real ou uma mistura da imaginação infantil com pequenos trechos que te contaram? É difícil saber o que é fato e o que é uma interpretação diferente.

Mas mesmo assim, continuamos fazendo o uso da memória como se disso dependesse nossa existência . Contamos histórias em forma de livros porque não temos mais a capacidade de retê-las ou nunca sequer a tivemos? Deixamos rastros em forma de diários, fotografias e documentos para que nosso modo de vida seja preservado? Ou seria só nosso velho conhecido medo da morte e nossa vontade ingênua de sermos lembrados? Por que contamos a história dos outros e pra onde vai tudo isso no final? E será que lembrar é só lembrar ou é também recriar o passado com alguma licença poética?

Às vezes esquecemos, outras somos impedidos de lembrar. Lembramos em conjunto e sozinhos com a própria nostalgia. Tentamos eternizar a nossa história e a de outras pessoas. Tentamos entender o hoje olhando pro ontem.

Nesta edição, a Pólen vai revirar baús empoeirados – metafóricos e literais –, repensar a história e tentar entender até que ponto lembramos e a partir de onde começamos a esquecer ou reinventar. Queremos saber se estamos “realmente prestando atenção”, como Sarah Manguso define o objetivo do registro de memórias. Elas não são imparciais. Elas podem nos fazer hiperventilar, já que com todo passado vem a realidade de um futuro enorme em que não estaremos. E quem vai lembrar de cada um de nós? Aquele texto bem legal que você escreveu vai permanecer ou só aquela vez que você falou besteira? Ou nem isso? Se o futuro é tão imensurável, quanta memória cabe nele? É o que estamos tentando descobrir.

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